30/01/2005

 
O Brasil tem cerca de 300 mil naturistas, um número modesto pelo tamanho da costa brasileira

 Maria do Carmo/Folha Imagem
Praia da Galheta, SC: a fotógrafa Mara Rejane Freire, 38, que mora em Florianópolis desde 2001

Ventinho bom

[por Paulo Sampaio e Débora Yuri]

Mar, areia, sol, corpos dourados. O Brasil não seria Brasil, no imaginário tupiniquim ou globalizado, sem suas milhares de praias e mulheres de biquínis minúsculos, quase virtuais. Mas com toda essa fama, e por mais experimentado que seja o freqüentador do litoral, ele fica corado (não bronzeado) diante de uma categoria de praias que ainda o intimida: as naturistas.

Não adianta: por mais maduro que o movimento nudista queira parecer no Brasil, a tribo dos que usam sungão e biquíni, maioria arrasadora da população, ainda reage com uma curiosidade infantil quando alguém diz que esteve em uma praia dessas: "Como é: fica todo mundo pelado mesmo?"; "Tem mulher bonita ou só gente pelancuda?"; "Muito gay?"; "O povo transa na praia?".

Isso mostra que não é tão fácil conciliar a indiferença européia com o fantasioso inconsciente coletivo dos trópicos. Se na Alemanha, onde o naturismo surgiu no início do século 20, vovós e netinhos promovem alegres convescotes com as partes ao léu, aqui embaixo, a indefinição é o regime, como diz a canção.

O número de praticantes do movimento no Brasil dobrou nos últimos cinco anos, segundo a Federação Brasileira de Naturismo. Calcula-se que hoje existam cerca de 300 mil naturistas no país -levando-se em conta a dimensão da costa brasileira, um percentual ainda muito pequeno. O movimento não se restringe às regiões litorâneas do país. É cada vez mais comum Estados sem praias criarem clubes e ranchos onde a prática é permitida.

O litoral brasileiro tem diversas categorias de praias naturistas. Nas "toleradas", a prática é aceita e não existem regras de conduta nem fiscalização. As "eventuais" são geralmente desertas, isoladas e de difícil acesso. Nas "oficiais", a prática é referendada pela prefeitura. Essas são as mais sérias e rígidas, contam com associação, legislação de proteção aos naturistas, manual de normas de conduta e, geralmente, fiscais voluntários. No litoral brasileiro, há apenas sete: Pinho, Galheta e Pedras Altas, em Santa Catarina; Abricó, no Rio de Janeiro; Barra Seca, no Espírito Santo; Massarandupió, na Bahia; e Tambaba, na Paraíba.

São as oficiais (nem todas) que normalmente abrigam uma subcategoria: as praias "pudicas" ou "caretas", que proíbem a entrada de homens sozinhos e casais gays. Seu público costuma ser uma mistura de famílias e casais héteros comportados.

Já as de "azaração", ou "pegação", recebem um público misto, que pode estar a fim de ver e ser visto (ou pegar e ser pego) sem a repressão de patrulheiros. Acolhem homens e mulheres de qualquer orientação sexual (veja quadro na pág. 14).

Nem sempre a convivência é tranqüila. De um lado, ficam os adeptos, uma população fixa, que cultiva a filosofia de liberdade e interação com a natureza (veja quadro na pág. 15). Do outro, os eventuais, turistas, curiosos, iniciantes e os visitantes indesejáveis, mais interessados na sacanagem.

As visitas mostram que nenhum dos dois lados costuma ser hegemônico. Existe gente tarada nas chamadas "praias para famílias", assim como há naturistas verdadeiros e respeito à privacidade alheia nas de "pegação".

Mandamentos Embora as perguntas do segundo parágrafo possam soar blasfêmicas aos ouvidos naturistas, elas não são assim tão descabidas. Respondendo aos curiosos, sim, na maior parte das vezes todos têm de ficar pelados (a exceção entre as cinco praias visitadas pela reportagem é Galheta, em Florianópolis, onde a nudez é opcional); sim, a idéia é não dar importância ao "corpo físico" e por isso as "pelancudas" são tão bem-vindas quanto os "violões"; sim, há muitos gays, e, finalmente, sim, boa parte deles e também alguns casais novidadeiros parecem ser mais chegados a uma transa nas pedras do que à beleza da natureza.

Na entrada das praias oficiais, há uma placa elencando o "código de ética" (leia na pág. 15), que inclui "evitar comportamento sexualmente abusivo"; "não portar ou usar drogas ilícitas"; "não fazer propostas inconvenientes com conotação sexual".

"Geralmente, casais que se encaminham para as pedras querem sacanagem. No início, quando comecei aqui, parecia o Vietnã: olhava para o mato, só via cabecinha entrincheirada", conta o segurança Vilmar Mello, 31, um dos seis contratados desde dezembro para controlar os excessos dos visitantes na praia do Pinho, a pioneira do Brasil, em Santa Catarina.

Com um walkie-talkie na mão, Vilmar e seus colegas espalhados pela praia se comunicam para avisar qualquer movimento suspeito. Eles estão ali também para impedir o ingresso de "clandestinos" pelo morro lateral que possibilita o acesso pela praia vizinha -no Pinho paga-se R$ 5 o ingresso de carro e R$ 1, a pé.

"A praia é explorada comercialmente pelos herdeiros de um pedreiro conhecido como o 'velho (Domingos) Fonseca', já morto, que comprou as terras do entorno a preço de banana", explica João Luiz da Cruz, 45, um dos militantes voluntários.

Os familiares (únicos de roupa no local) administram o camping, a pousada e o bar na beira da praia; os naturistas se outorgam o direito de impor a filosofia na areia. A própria reportagem foi barrada quando disse que pretendia (com as devidas autorizações) entrevistar e fotografar os banhistas.

"Não dá pra fazer", recusou secamente Elmo (ele não quis dizer o sobrenome), vice-presidente da Associação Amigos da Praia do Pinho, pelo interfone de sua casa naturista. Depois de algumas negociações, voluntários e o próprio presidente permitiram que a equipe entrasse e entrevistasse os que se dispusessem.

A tentativa de interdição ocorre em outros lugares, ignorando o aspecto legal. Nas praias em que o naturismo é oficializado, a lei autoriza a prática, mas não dá aos adeptos o direito de obrigar os visitantes a tirar a roupa, atitude comum em parte delas.

"Entende-se que estejam tentando proteger o grupo de desrespeitos ao código de ética ou de abordagens sexuais invasivas etc. Mas impedir a entrada de quem quer que seja, vestido ou não, é absolutamente ilegal. A lei autoriza a pratica do naturismo, não a privatização do local", explica o advogado Hedio Silva Jr, doutor em direito institucional pela PUC e conselheiro da OAB-SP (Ordem dos Advogados do Brasil).

Um truque comum usado pelas iniciantes para evitar a nudez total é dizer que está menstruada -nesses, ou naqueles dias, os naturistas toleram que a mulher use só a parte de baixo do biquíni. A jornalista de Salvador Melissa, 23, que pediu para não ser identificada, era uma dessas. "Eu morria de curiosidade, então vim com uns amigos. Mas estou de OB e não quero que ninguém perceba", dizia ela, em sua primeira incursão numa praia do gênero, Massarandupió, na Bahia.

Tribos diferentes A nudez impositiva não é o único aspecto que destoa da filosofia corpo & natureza & harmonia pregada pelos movimento. O que fazer com a numerosa fatia GLBT dos freqüentadores é outro grande problema, segundo Elias Alves Pereira, 60, presidente da federação.

"Não podemos discriminar ninguém, nem gays nem lésbicas, temos de aceitá-los, mas esse é um assunto muito polêmico no meio", diz. "Os adeptos ainda criam muita resistência. A praia naturista é um modelo para a família, então eles dizem: 'O que vou dizer para o meu filho de oito, nove anos, se chegarem dois homens e começarem a se beijar na nossa frente?'."

"Separar os gays do resto da praia é um absurdo, é crime. Aqui, temos o maior respeito pela orientação sexual das pessoas, e só tira a roupa quem quer", defende a gaúcha Suela Dili Bretanha, 54, tesoureira da Associação Amigos da Galheta, de Florianópolis.

"Acho legal separar os gays dos outros banhistas porque somos fashion, vivemos mais intensamente a sexualidade e os assuntos são outros", declara o tradutor argentino Martin Barrer, 38, que está em Galheta com o namorado.

Elias Pereira afirma que a federação também recomenda permitir a entrada de homens sozinhos. "Mas é preciso passar por uma entrevista. É naturista? Já freqüentou outros pontos? Conhece o código de ética? Não é só chegar e ir entrando."

Em Massarandupió, uma das "oficiais", dois homens tentaram em vão entrar: foram imediatamente expulsos por dois patrulheiros, que se auto-proclamam "xerifes". "São duas bichas", explicou um dos diretores à reportagem, negando-se a dar seu nome completo. "O problema é que bicha não controla a 'feminilidade'. Já lésbicas são bem-vindas." Por quê? "Lésbicas são sensuais, bichas são agressivas", acredita.

Os naturistas arraigados argumentam que a discriminação é necessária "senão o povo não entende". "Infelizmente a cultura do brasileiro não permite a convivência de todos os banhistas como um grupo só. Tem o cara que vem para ver mulher pelada mesmo. Então, é preciso dar uma organizada, senão vira outra coisa", diz Carlos Galz, 51, presidente da Associação Amigos da Praia do Pinho.

Foi essa tentativa de "dar uma organizada" que acabou criando uma instituição bem brasileira, a "faixa de adaptação", um espaço para o debutante constrangido: ali ele pode ficar o tempo necessário até tomar coragem de ficar nu.

"Será que a gente pode tirar o calção lá no meio?", perguntam, na praia do Abricó, no Rio, três homens que se recusam a se identificar porque dizem estar "fugindo das mulheres". Cerca de uma hora depois, os três gritam para a reportagem, alterados, com latinhas de cerveja nas mãos: "Ó, a gente tá pelado! Entramos!"

Olhar estrangeiro A miscelânea de permissividade e controle desconcerta os turistas, principalmente estrangeiros. "Aqui o público é muito diferente do que freqüenta praias semelhantes na França", compara na Bahia a fisioterapeuta francesa Sylvie Henry, 48, que costuma freqüentar o resort naturista Cap d'Agde, no sul da França, e praias em Ibiza, na Espanha, com o marido, o exportador de vinhos Marco, 48. "Lá é tudo misturado, todo tipo de gente junto. Aqui, se alguns homens chegam sozinhos, são postos para fora. Por que não podem entrar e tomar uma 'cerveza'? Se causarem problema, aí tudo bem expulsar", diz.

"O mais engraçado é que no Brasil as mulheres cobrem o traseiro com uma nesguinha de pano, mas acham um tabu ficar peladas", dizem, intrigados, o engenheiro de som Andrew Rutland, 35, e a bailarina Serena Bobowski, 31, ingleses, de férias em Búzios.

Nas mais rígidas, a inflexibilidade acaba tirando muito do relaxado e descontraído "clima de praia" a que o brasileiro está acostumado. "Se você vai a uma praia normal, conversa, faz sinal, mas aqui fica inibida com essa patrulha toda. É esquisito", diz a pedagoga Márcia Fiorotto, 37, que chega na Abricó com o irmão e a cunhada.

O problema é que a obsessão com a nudez faz alguns naturistas se portarem como aquele anfitrião de uma festa à fantasia que não relaxa nunca, porque tem que fiscalizar se quem chega usa o traje adequado. No Rio, o presidente da Associação Naturista Abricó, Pedro Ribeiro, e seus companheiros passam a maior parte do tempo pedindo que os visitantes tirem a sunga ou o biquíni quando atravessam a faixa de adaptação.

"A nossa idéia era chegar, escolher um lugar, abrir o guarda-sol e tirar a sunga", diz o funcionário público mineiro Márcio Almeida, 34, que está com dois amigos na faixa de adaptação. "Mas eles não nos deram tempo, já partiram pra cima da gente. Ficamos meio desconcertados com o tratamento de choque e recuamos."

Os envolvidos com o movimento não dão sopa nem aos próprios companheiros. "No congresso naturista do ano passado havia 'anjos' de várias idades, sem roupa, e, apesar de todos serem muito esclarecidos, não reagiram bem quando eu comentei: 'Nossa, Fulano tem uma pinta no pinto'. Uma psicanalista conceituada me repreendeu: 'Tá olhando o sexo dos outros, Andréa?", conta a professora de matemática Andréa Lúcia Costa, 32, que está com o marido e um casal de amigos em Olho de Boi, Búzios, litoral fluminense.

Olhar e erotismo A obrigação moral de desviar o olhar ou de achar tudo natural nem sempre funciona. O músico Ubirajara Santana, 51, frequentador da praia do Pinho há 14 anos, conta ao lado da mulher, a tosadora Sandra Borges, 45, que o filho mais novo do casal não os acompanha mais: "Ele tem 16 anos, freqüentou a praia até os 12, mas aí surgiu um obstáculo que o envergonhava diante das amiguinhas. O pênis dele ficou muito grande".

Isso não incomoda os mais maduros. "Eu fico à vontade, nem penso em olhar para mulher nenhuma", afirma o aposentado Carlos Guimarães, 57, de Salvador, que freqüenta Massarandupió há oito anos, com a mulher, Maria da Graça, 47, microempresária. Carlos acha que praia naturista não tem nada a ver com sexo. "Todos os meus amigos morrem de vontade de vir. O problema é que o baiano quer ver a mulher do outro, mas não quer mostrar a dele. Aí o cara chega aqui e vê que não tem como ter uma ereção", conta, rindo.

"A gente está na tribo dos pintos murchos", confirma o professor de economia Angelo Caciatori, 38, recém-naturista, em Abricó. "É preciso haver uma deserotização, porque senão você não consegue encarar isso aqui."

Para os nudistas de primeira viagem, que ganham o apelido de "ventilador" -porque ficam girando a cabeça de um lado para o outro, olhando tudo e todos, geralmente cobertos por boné e óculos escuros-, essa deserotização chega a ser chocante. "Quem vem de fora vê que não tem nada de erótico. Muita gente fica frustrada", conta o engenheiro carioca Inácio, 42, sem dar o nome completo, depois de tirar fotos de sua acompanhante de 25 anos no chuveiro de água doce. As imagens são um tradicional "suvenir" masculino quando a moça faz a linha mulherão.

A ausência do biquíni, quem diria, é um dos pontos levantados como fator deserotizante. "Tenho um amigo que diz que, de biquíni, a mulher entra na praia rebolando; sem ele, perde o rebolado", diverte-se o carioca Angelo.

Algumas delas concordam. "Eu me acho muito mais gostosa de biquíni, os caras paqueram. Aqui as pessoas se policiam para não olhar para o corpo da gente. Estou louca para colocar a minha calcinha de volta", diz a pedagoga Marcia, no Abricó. A professora Andréa Lúcia, que está em Olho de Boi, pensa o oposto, com o ponto de vista de uma mulher que mede 1,65 m e está "muito acima do peso": "Eu me sinto mais exposta de biquíni do que pelada: então, ou estou sem roupa, ou de maiô", explica.

Hora de se vestir. À saída da praia, o visitante percebe que falar muito do assunto funciona como uma espécie de antídoto contra o entusiasmo da novidade. Repetir mil vezes a palavra "nudismo", olhando para o objeto do comentário, faz sobreviver apenas um punhado de bundas, peitos e genitálias despidos de um significado erótico. Por isso, pela primeira vez, é realmente estranho vestir alguma coisa por cima da pele.


Colaborou Roberto de Oliveira



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