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"Levei 40 anos para convencer de que faço arte", diz Marina Abramovic
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MARIA LUÍSA BARSANELLI
DE SÃO PAULO
Atualizado às 12h08.
Para a artista sérvia Marina Abramovic, 63, uma das pioneiras da performance, é muito importante que um artista demonstre sua vulnerabilidade e contradição: "Artistas tendem a ter um grande ego e apresentar ao público somente seu melhor lado. No meu caso, mostro coisas das quais tenho vergonha", diz ela.
No início deste ano, Abramovic realizou uma comentada retrospectiva no MoMA (Museu de Arte Moderna) de Nova York.
Entre os trabalhos, ela apresentou "The Artist Is Present", uma ação na qual permaneceu durante 730 minutos sentada no átrio do museu, olhando fixamente para cada uma das 1.675 pessoas que sentaram a sua frente no período de três meses.
Atualmente, Abramovic está em cartaz em São Paulo, na Luciana Brito Galeria, com duas mostras. Em "Back to Simplicity", ela retrata a necessidade de retomar o contato com a natureza. Já "The Kitchen" é um conjunto de vídeos e fotos realizados na Espanha, na cozinha de um convento de freiras da ordem dos Cartusianos.
Em entrevista à sãopaulo durante sua passagem pelo Brasil, Abramovic falou sobre a mostra e a vontade de trazer seu próximo trabalho, uma peça de teatro, ao Brasil:
sãopaulo - O que sentiu após sua longa performance no MoMA?
Marina Abramovic - Fiquei três meses sob uma luz artificial no museu. Tinha essa necessidade incrível de voltar à natureza e fazer coisas simples, como deitar no chão e abraçar animais. Realmente pensar na minha vida. Quero lidar com a presença, não projetar muito o futuro nem pensar demais no passado, só viver cada dia por completo. E, nesses três meses de performance, de alguma maneira eu mudei, minha consciência mudou. O que é muito engraçado é que eu era viciada em chocolate. E perdi 16 kg durante a performance. Quando voltei, não conseguia mais comer chocolates. Não sei o que aconteceu. Não tenho mais vontade.
| Carol Guedes/Folhapress |
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| Marina Abramovic em uma de suas exposições, "Transitory Object for Human" |
sãopaulo - "The Kitchen" é uma homenagem a santa Teresa de Ávila, mas você também mencionou que a cozinha sempre foi um elemento presente em sua vida.
Abramovic - É um misto. Há a questão do misticismo, porque santa Teresa apresentou momentos de iluminação e várias pessoas testemunharam que ela podia levitar. E, ao mesmo tempo, a cozinha representa a vida privada. As pessoas podem reconhecer a ideia da cozinha em suas próprias vidas. Acho que podemos fazer algo bem pessoal, mas temos que torná-lo universal.
sãopaulo - Em "Back to Simplicity" você retrata a si mesma com ovelhas. Por quê?
Abramovic - Na série, há dois significados. O da ovelha branca, símbolo da ternura, e o da ovelha negra, que é como sempre me sinto, uma pessoa que não consegue se encaixar. Sempre tenho ideias, quero fazer algo revolucionário e trazer novos conceitos de arte e, muitas vezes, não sou compreendida. Levei 40 anos para convencer as pessoas de que o que faço é arte. Se estou em um avião e a pessoa do meu lado me pergunta o que faço, não sei explicar. Como vou dizer que corto minha barriga e deito no gelo? Então, digo que sou uma enfermeira. É bem seguro, ninguém faz outras perguntas. É meu disfarce.
| Mary Altaffer/AP |
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| "Imponderabilia", em exibição no MoMA durante mostra de Marina Abramovic |
sãopaulo - Você estreia uma peça de teatro sobre sua vida em Manchester (Inglaterra) no ano que vem. Como é a montagem?
Abramovic - Em 1988, eu tinha 40 anos, perdi o homem que amava [o alemão Frank Uwe Laysiepen, conhecido como Ulay, performer de quem se separou], com quem eu trabalhava. Não tinha mais meu trabalho nem minha vida privada. Me senti gorda, feia e não desejada. Não conseguia trabalhar e estava muito deprimida, foi o ponto mais baixo da minha vida. A única maneira que encontrei para superar isso foi encenar minha vida como um teatro e me distanciar de mim e da dor atuando como eu mesma. Foi assim que fiz a primeira peça, com direção de Charles Atlas. Em cena, havia Ulay, com suas 25 mulheres, mais jovens e grávidas, e eu estava no palco, dizendo adeus a ele. Era vida e teatro juntos, foi fantástico. Depois disso, a cada cinco anos, peço a diferentes diretores que editem a minha vida da maneira que quiserem. Agora, Robert Wilson está fazendo isso em "Life and Death of Marina Abramovic". Antony [Hegarty, da banda Antony and the Johnsons] criou todas as músicas para o espetáculo. Haverá 12 Marinas. Interpreto eu e minha mãe, que foi a coisa mais difícil. Tive enormes problemas com minha mãe, que era extremamente controladora.
sãopaulo - Desde sua primeira participação na Bienal de São Paulo, em 1985, você vem com bastante frequência ao Brasil. Como você vê o trabalho de artistas brasileiros?
Abramovic - Gosto muito das obras de Antonio Dias e Iole de Freitas. Ela era uma artista muito interessante nos anos 1970 e fez ótimas performances quando foi à Itália. Também admiro os trabalhos de Tunga e Lygia Clark. Acho que a performance sempre foi viva no Brasil. Tem sempre algo acontecendo aqui.
sãopaulo - Quais seus planos?
Abramovic - Meu sonho é trazer a exposição do MoMA e a peça de teatro para o Brasil. Acho que o público brasileiro vai ser maravilhoso. Também vou visitar estúdios aqui para selecionar artistas para meu instituto [que será aberto em 2012].
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