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05/09/2011 - 17h57

Morumbi padece com problemas de violência e infraestrutura

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LÍVIA SAMPAIO
NATÁLIA ZONTA
DE SÃO PAULO

Sinônimo de riqueza e certa calmaria até o início dos anos 1990, o Morumbi tem assistido, nos últimos anos, a mudanças na rotina e na paisagem do que antes eram considerados símbolos do bairro.

A região viu áreas arborizadas serem substituídas por espigões e favelas, sua população crescer 44,6% em dez anos --para efeito de comparação, no mesmo período a taxa na cidade toda foi de 7,9% --e testemunhou uma série de crimes nos dois últimos meses.

As transformações se deram no mesmo ritmo do crescimento. Com o aumento populacional, vieram a reboque os problemas de trânsito, infraestrutura e segurança. A Vila Andrade foi a que mais cresceu na cidade entre 2000 e 2010. Segundo dados do IBGE, a população local aumentou 73,3%.

Carlos Cecconello/Folhapress
Moradores do Morumbi fazem protesto na praça Vinicius de Moraes contra a onda de assaltos no bairro
Moradores do Morumbi fazem protesto na praça Vinicius de Moraes contra a onda de assaltos no bairro

O inchaço atingiu também os limites geográficos. O Morumbi original se restringe às imediações do Palácio dos Bandeirantes. Informalmente, no entanto, engloba uma área de 32 km2 que inclui os distritos de Vila Sônia e Vila Andrade --este último abriga a segunda maior favela da cidade, Paraisópolis, com 60 mil habitantes.

O preço menor do que em regiões do centro expandido incentiva a ocupação desordenada. Como ainda existem terrenos desocupados, prédios não param de brotar --nos últimos cinco anos foram 206. "Aqui temos empreendimentos com o metro quadrado a R$ 3.400. Se você cruzar a ponte, vai pagar pelo menos R$ 8.000", diz um corretor da Camargo Corrêa, que tem 25 empreendimentos próximos ao shopping Jardim Sul.

Na comparação com Pinheiros, por exemplo, segundo dados da Embraesp (Empresa Brasileira de Estudos do Patrimônio), de 2007 a 2011, o Morumbi teve o metro quadrado valorizado em 64%; no bairro da zona oeste, a taxa foi de 123% no mesmo período.

O advogado Fabio Alonso Marinho Carpinelli, 33, se mudou da Mooca para o Morumbi há dois anos. "Em geral, o bairro é bom, mas essa questão da violência deixa a gente numa tensão constante. Já presenciei um assalto a mão armada da janela de casa."

Se a infraestrutura não acompanhou o crescimento do bairro, o mesmo aconteceu com a administração municipal. Duas subprefeituras são responsáveis pela área: Butantã e Campo Limpo. Como esta última também atende o Capão Redondo, bairro da periferia da zona sul, os moradores da Vila Andrade se queixam de ficar em segundo plano e reivindicam uma administração local exclusiva para a região do Morumbi. O subprefeito do Campo Limpo, Alexandre Conti, nega que haja falta de atenção, mas confirma a demanda dos líderes do bairro. "Eles são os que mais me cobram."

DA FAZENDA AO CONCRETO

A fazenda que deu início ao Morumbi começou a ser loteada nos anos 1940. À época, os pioneiros idealizavam uma área residencial nobre, com o comércio restrito a pequenas ilhas.

A urbanização ganhou força na década de 1950, com o arquiteto Oswaldo Bratke e o engenheiro Oscar Americano. "As áreas dos hospitais São Luiz e Albert Einstein foram pensadas para serem centros comerciais. A primeira deturpação foi essa", diz o arquiteto Carlos Bratke, filho de Oswaldo.

Sérgio Tomisaki/Tuca Vieira/Folhapress
Edifício Penthouse, em foto de agosto de 1987 e agora, junto ao irmão Roof, na fronteira com a favela Paraisópolis
Edifício Penthouse, em foto de agosto de 1987 (esq.), e agora (dir.), junto ao irmão Roof, fronteira com a favela Paraisópolis

Em 1972, quando a cidade teve seu primeiro Plano Diretor, segundo o professor da FAU-USP João Meyer, a legislação acompanhou os contratos dos loteamentos. "O que era área residencial continuou assim e as áreas mistas puderam ter mais prédios e comércios." Com o excesso de terrenos livres, na década de 1990 a região viveu o seu "boom" imobiliário.

Ao mesmo tempo em que chegam mais moradores, os acessos ao bairro são insuficientes, o que deixa as ruas abarrotadas. O transporte público tampouco acompanhou a demanda. "Quem escolhe morar olha o custo-benefício. Para quem trabalha no bairro, compensa. Mas quem precisa ir até a Faria Lima pensa duas vezes", diz João Crestana, presidente do Secovi-SP, o sindicato da habitação.

"A região não teve um projeto viário e se tornou passagem para uma das áreas mais ocupadas de São Paulo, caso de Taboão da Serra", afirma Emílio Haddad, professor da FAU-USP.

Para 2014 estão previstas duas estações da linha 4-amarela do metrô (Vila Sônia e São Paulo-Morumbi). Em 2015, deve ficar pronto um monotrilho, que vai ligar a linha amarela à linha 1-azul. Por ser elevada, a via é contestada por pelo menos três associações de bairro, que temem que a obra tenha o impacto visual do Minhocão. Sob o monotrilho, devem correr duas soluções viárias: um acesso ao bairro pela marginal Pinheiros, na altura do supermercado Extra, e a avenida Perimetral, que cruzará Paraisópolis.

MILITÂNCIA NO FACEBOOK

Criada há um mês por uma corretora de imóveis que teve o filho de um amigo baleado, a página do Facebook "Moradores do Morumbi" já tem mais de 4.000 integrantes. A comunidade ganhou fôlego após a série de crimes no bairro entre julho e agosto.

Patricia Araujo/Folhapress
A professora de etiqueta Virginia Gargiulo, que tem carro e casa blindados; ela diz não ter medo da violência
A professora de etiqueta Virginia Gargiulo, que tem carro e casa blindados; ela diz não ter medo da violência

Foi no Facebook que surgiu a ideia do protesto que reuniu 2.500 pessoas no domingo passado, na praça Vinicius de Moraes. No ato, os moradores reivindicaram mais policiamento e uma base da PM em Paraisópolis.

Desde que a mobilização começou, moradores notaram a presença de mais policiais na ruas, mas temem que a ação seja passageira. No último dia 24, a PM iniciou a operação Colina Verde, com 150 policiais a mais.

A região do "Grande Morumbi" abrange dois distritos policiais. No 34º DP, os campeões de queixas são os roubos a residências -foram 40 apenas nos dois últimos meses. Na área do 89º DP, os ponto crítico são a rua Dr. Francisco Tomás de Carvalho, conhecida como "Ladeirão" -só nela foram 78 assaltos em dois meses- e a rua do Símbolo, que já foi fechada por criminisos em arrastões.

"Não temos data para terminar", diz o capitão Claudisbel Barbosa dos Santos, responsável pela ação. Segundo ele, já está em estudo a implantação da base em Paraisópolis.

A professora de etiqueta Virginia Gargiulo, 55, no Morumbi há 30 anos, afirma não temer a onda de violência. "Já houve outros períodos assim e isso passa. Claro que tenho um bom sistema de segurança. Uso carro blindado e, em casa, tenho uma porta blindada que isola parte dos cômodos", diz.

REURBANIZAÇÃO

Muitas vezes apontadas como motivo da violência, as favelas da região também têm suas queixas. "A situação aqui está complicada, principalmente no que diz respeito aos jovens, mais vulneráveis à questão da drogas. Quando dizem que estão assaltando no 'Ladeirão', são menores em situação crítica com a família, precisando de ajuda", afirma Gilson da Cruz Rodrigues, presidente da União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis.

Surgidas a partir da década de 1960, as favelas cresceram nos anos 90 e hoje passam por uma verticalização. Em 1996, a população de Paraisópolis somava 15 mil pessoas. Hoje são 60 mil -um crescimento de 300%. Agora, a prefeitura tenta reverter o quadro com programas de reurbanização em Paraisópolis e no Real Parque.

Na primeira, a Secretaria de Habitação promete construir 2.940 unidades com recursos dos governos municipal, estadual e federal. A empregada doméstica Adriana das Dores, 36, já mora em um desses apartamentos. Para ela, Paraisópolis convive em harmonia com os condomínios. "Sempre trabalhei no bairro e não falta serviço."

"Também queremos reorganizar o sistema viário [na favela Real Parque]. Uma das propostas é construir uma ponte para ligar a área à estação Berrini da CPTM", diz Elisabete França, superintendente de Habitação Popular, da prefeitura.

Isadora Brant/Folhapress
Adriana das Dores, 36, moradora de Paraisópolis; ela sempre trabalhou no bairro e diz que nunca falta serviço
Adriana das Dores, 36, moradora de Paraisópolis; ela sempre trabalhou no bairro e diz que nunca falta serviço

Neta de Guilherme Dumont Villares, engenheiro que dá nome a uma avenida da região, Ana Cristina Reis, 64, é um exemplo dos que cresceram no bairro e viveram a transformação do Morumbi no dia a dia. Há 30 anos, ela cruzava a avenida Giovanni Gronchi montada em seu cavalo. Hoje, evita andar a pé -mas rejeita o antigo status da região. "Eu não gosto quando falam em zona nobre, em mansão. É um conceito deturpado", diz.

Para quem ainda acredita na ideia de ilha da fantasia que o Morumbi um dia pode ter fixado no imaginário dos paulistanos, ela avisa: "Riqueza é em Monte Carlo [Mônaco]. Aqui é gente que sai cedo para o trabalho e tem a gaveta cheia de carnês para pagar".

*

MORUMBI NO LIMITE

Os fatos que transformaram o bairro nas últimas décadas

Ocupação
Pouco do projeto do arquiteto Oswaldo Bratke, dos anos 1950, saiu do papel. Espigões foram erguidos sem planejamento, e a população cresceu 44,6% de 2000 a 2010. Na cidade toda, a taxa foi de 7,9%

Favelas
Trabalhadores de grandes obras, como o estádio do Morumbi, começaram a ocupar terrenos a partir de 1960. Nos últimos 15 anos Paraisópolis cresceu 300% e hoje abriga 60 mil moradores

Subprefeituras
O "Grande Morumbi" está subordinado a duas subprefeituras: Campo Limpo e Butantã. Os moradores da Vila Andrade reclamam que suas prioridades ficam sempre atrás das do Capão Redondo

Imóveis
Incorporadoras chamam de "Morumbi" regiões da Vila Andrade, da Vila Sônia e até do Campo Limpo. O m² no bairro custa R$ 4.928,35, enquanto em Pinheiros o valor atinge R$ 9.520,93

Transporte
Hoje, são poucas as opções de transporte público. As primeiras estações de metrô da região, na linha 4-amarela, devem ser inauguradas em 2014. Em 2015, um monotrilho suspenso deve ficar pronto ligando a área ao Jabaquara, passando por Congonhas

Isolamento
Como o Plano Diretor determina que algumas áreas sejam estritamente residenciais, os moradores ficam afastados das opções de serviço, o que estimula o uso excessivo de carros

Trânsito
Ruas sinuosas superpovoadas ligadas a poucas vias arteriais agravam os congestionamentos. A avenida Francisco Morato é a segunda rota mais lenta da cidade pela manhã com velocidade média de 11,8 km/h, segundo a CET

*

SEGURANÇA

Nos últimos sete meses a região registrou 1.131 roubos contra 1.353 no Capão Redondo, na periferia da zona sul. Entre julho e agosto, 40 casas foram roubadas no Morumbi

40
Casas foram roubadas na área do 34º DP (Morumbi) em julho e agosto

78
Assaltos foram registrados na rua Dr. Francisco Tomás de Carvalho, conhecida como "Ladeirão", de 19 de maio a 20 de julho

11
Pessoas foram mortas de janeiro a julho deste ano*

*

CRIMES HISTÓRICOS

28.ago.1994
O editor Claudio Maltese é sequestrado em frente à sua casa e morto com três tiros

14.ago.1994
O professor de biologia do Mackenzie Celso Mello é assassinado a tiros durante assalto

30.ago.2001
Sequestrador de uma filha de Silvio Santos escapa da polícia e invade a mansão do empresário

Em 2011

18.jul
Publicitário de 27 anos é baleado em tentativa de roubo no "Ladeirão"

20.jul
Cinco homens com metralhadores invadem casa e fogem com um cofre

21.jul
Quadrilha suspeita de roubar 20 casas na região é presa em Embu-Guaçu

19.ago
Engenheiro de 70 anos é baleado com tiro de fuzil quando chegava em casa

23.ago
Casa do deputado estadual Antonio Salim Curiati (PP), 83, é assaltada

26.ago
Enquanto tentava assaltar mulher de 28 anos, criminoso é morto por PM

 

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