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Serafina

Colunista escreve sobre 'reinado' dos motoboys brasileiros em Londres

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A selva londrina é assim, cada macaco fica no seu galho. Quando me mudei para Londres, no começo dos anos 1990, percebi um fato estranho: a maioria esmagadora dos bilheteiros de cinema da cidade eram filipinos. Por que filipinos? Que talento especial eles podiam ter para controlar este nicho específico? Cheguei a investigar, mas nunca encontrei uma resposta. Aos poucos, os filipinos migraram dos cinemas para o setor de cuidadores de idosos, em que até hoje são soberanos.

Os australianos são dominantes no setor de mudanças e é praticamente impossível encontrar um encanador que não seja polonês na cidade.

Indianos e paquistaneses predominam como jornaleiros ou proprietários de um tipo específico de vendinha —barata e ruim— que só se usa quando, na hora de preparar salada de batatas, você descobre que esqueceu de comprar maionese no supermercado.

Foi Osama bin Laden quem propiciou o estabelecimento do reinado dos motoboys brasileiros aqui. Depois do ataque ao World Trade Center, em 2001, autoridades americanas fecharam a fronteira para nossos imigrantes.

Nobru

Impedidos de entrar na América de George W. Bush (2001-2009), milhares de brasileiros desviaram a rota para a Inglaterra de Tony Blair (1997-2007), onde puderam aplicar o "know how" de sobrevivência no trânsito brasileiro para estabelecer sua primazia em Londres —ganhando quase o triplo e, mesmo com o custo de vida tão alto, fazendo um pé-de-meia para um dia abrir uma lan house em Virginópolis.

Naquela época, todo motoboy por aqui era brasileiro —e, na maioria das vezes, vindos do interior do país, sem nem passar por São Paulo ou Rio de Janeiro. Nunca Londres se pareceu tanto com Londrina.

Percebi a dimensão do fenômeno quando, um dia, durante a Copa de 2006, a bandeirinha do Brasil que tinha colocado na antena do meu carro caiu no asfalto da Edgware Road. Estacionei e corri para pegá-la. Quando cheguei perto, dois motoboys brasileiros já brigavam para decidir quem ficava com a bandeira —enquanto um terceiro chegava para apartar. Só não saiu pancadaria porque pude provar que ela era minha, mostrando a haste de plástico ainda grudada no carro.

O fim dessa fase áurea foi decretado junto com a falência do banco Lehman Brothers, que deflagrou a crise financeira global em 2008 e gerou desemprego na Europa. Por uns meses, os "migras" (agentes da imigração, na gíria dos nossos motoboys) não paravam de fazer blitze para pegar motoqueiros. Milhares foram deportados.

O Xuliquim, que fazia churrasquinho de gato para a turma embaixo da via elevada da Westway, voltou para Anápolis. O Highlander vendeu sua parte na oficina mecânica de moto e se mandou para Colatina. O Roger, faxineiro do prédio onde ficava meu escritório, teve que voltar para Uberlândia com todo o seu conjunto de pagode.

Eles foram substituídos por romenos e búlgaros. Sem eles por aqui, Londres perdeu muita graça. Rezo para que novos ventos da história logo os tragam de volta.

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