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Serafina

Espaço extra entre os dentes, diastema é execrado na TV e valorizado na moda

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"Eu adorava o meu diastema!", diz a atriz Iara Jamra, 59, sobre o espaço entre os dentes da frente que tanto assombra atores de televisão e cinema —e agora também de teatro.

A pressão por reduzir o buraco foi tamanha que ela acabou cedendo, cobrindo com porcelana. "Juntei, mas não durou um dia. Fui lá no Fábio Bibancos e mandei tirar tudo", conta a atriz de novelas como "Da Cor do Pecado", rindo, mas também lamentando que seu diastema nunca mais foi o mesmo.

Bibancos é um conhecido dentista de atores, em São Paulo, e lembra bem o episódio com Iara. "Ela não aguentou. Disse que não estava conseguindo falar, que o ar não escapava mais." Segundo ele, muitos atores de televisão fecham o espaço por estética, mas normalmente "os de teatro não estão nem aí, porque, à distância, ninguém vê". Aliás, acrescenta, "atendo atores que usam aparelho e fazem peça de época".

Isso teria começado a mudar, no teatro paulistano, com a demanda crescente por atores originalmente de palco para as produções de cinema e agora da TV paga. É o caso de Ondina Clais Castilho, 45, que fechou seu diastema em 2013.

"Corrigi por causa dos filmes que fiz e porque dificulta falar", diz. "Ninguém pediu, mas eu ia atuar numa série na HBO ['O Hipnotizador', que estreia em agosto] e o meu dentista falou: 'Você tem de corrigir o diastema, pelas vogais'."

Agora "a voz ficou mais no lugar correto", diz ela, lembrando que o diretor Antunes Filho, com quem trabalha desde o final da adolescência, cobrava "voz para dentro" e ela sempre respondia: "Como eu posso falar para dentro se tenho um buraco no meio da boca?" Questionada se atuou com o diretor depois de fechar o espaço, solta uma gargalhada: "Atuei, e ele nem percebeu!"

Ela detalha que, para fazer a correção, não é preciso cirurgia nem aparelho, só "uma coisa chamada lente, uma capinha usada por atores americanos e da Globo para deixar os dentes mais brancos, com aspecto perfeito, mais do que qualquer dente". A exemplo dela, outras atrizes, como Juliana Galdino, vêm corrigindo o diastema.

Germano Melo, 44, conhecido no palco por musicais como "Elis" e também pelo trabalho com diretores como Antunes, optou pela mudança quando passou a apresentar o programa "Café Filosófico", na TV Cultura. "Sempre falavam que era mais saudável manter os dentes separados, mas conversei com uma dentista que me disse que era bom fechar, porque eu ficava com uma cara mais responsável", conta Germano.

"Coincidência ou não, o fato é que, depois da correção, comecei a trabalhar mais com vídeo, a fazer cinema, coisas em televisão", diz. "Não sou galã, sou mais do tipo estranho, mas talvez se estivesse com o dente separado... [não trabalharia tanto com audiovisual]. E o meu era bem separado." Germano está em dois longas que devem estrear até o fim do ano, "Sinfonia da Necrópole" e "A Floresta que se Move".

Neuza Borges, 74, atriz da montagem brasileira de "Hair" de 1968 e conhecida pelas três dezenas de novelas de que já participou, se revolta contra as pressões para corrigir o diastema, uma marca sua. "É Impressionante. Hoje em dia, todo dentista que vê a gente com essa abertura quer fechar. Ah, vá tomar banho. Estou com mais de 60 anos de carreira e nunca me incomodou, pelo contrário."

Ela faz questão de lembrar uma história: "Eu vou sempre a Luanda, conheço muitos africanos. Em alguns lugares da África, se diz que as mulheres que têm essa abertura do dente e bunda grande nasceram para ser guerreiras. Eu adoro ser tachada de guerreira. E adoro olhar o espelho e ver o meu dentinho aberto, diferente".

O diastema, que pode ser causado por hereditariedade e até por hábitos corriqueiros como usar chupeta, é associado na Europa, desde a Idade Média, a sensualidade e desejo. É assim mencionado, por exemplo, nos
"Contos da Cantuária" do escritor inglês Geoffrey Chaucer (1343-1400), em que a mulher de Bath, "de rosto atrevido, belo e avermelhado", "mostrava uma janela entre seus dentes".

*

SEDUTOR OU SELVAGEM

Longe do palco e das telas, a moda vai na direção oposta. Se existe pressão, é para encontrar mais modelos com diastema. Anderson Baumgartner, sócio-diretor da Way Model Management, agência das tops Alessandra Ambrósio e Carol Trentini diz que adoraria ter uma modelo com o dentinho separado. "Eu particularmente adoro. Mas não tenho, neste momento, porque realmente não apareceu alguém."

O Brasil ainda não achou a sua "top diastema". Mas, nos EUA e na Europa, ficaram para trás os anos 1970 em que Lauren Hutton precisou esconder o diastema para poder trabalhar. Hoje, a linha de frente, acumulando capas de revistas com bocas abertas, vai de Lindsey Wixson a Georgia May, filha de Mick Jagger.

"Como tatuagens ou piercings, sorrisos espaçados podem transmitir algo misterioso, sedutor ou selvagem, qualidades que numa criatura menos atraente poderiam passar por desagradáveis", escreveu Ruth La Ferla no "New York Times".

O sócio da Way segue na mesma linha. "Madonna foi uma das precursoras em fazer do diastema não um defeito, mas um charme. Hoje, tem a filha do Mick Jagger e tem a Lindsey, que é uma modelo que tem o dente muuuito separado, mais do que todas."

No mundo da moda, o diastema passou a ser uma qualidade, uma marca registrada, diz ele. "Agora, no dia a dia, eu não sei dizer. A situação de uma pessoa que trabalha num banco e tem os dentes da frente distantes pode ser diferente."

Colaborou Lenise Pinheiro

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