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Serafina

Polêmico, biógrafo de Clarice Lispector lança livro e critica 'mitos' brasileiros

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"Meus amigos diziam que eu estava louco", conta o pesquisador norte-americano Benjamin Moser, 39, ao relatar o espanto dos colegas paulistanos quando, toda vez que visitava São Paulo, buscava companhia para visitar os monumentos em homenagem aos bandeirantes.

"Eu estava obcecado em tentar entender essas figuras que viraram símbolo de São Paulo e por que, ao mesmo tempo, hoje em dia são menosprezados pelos próprios paulistanos", conta, em entrevista à Serafina, por Skype.

Pois lá ia o biógrafo de Clarice Lispector -Moser lançou "Clarice", pela Cosac Naify, em 2009-, então, sozinho, observar a estátua do Borba Gato ("um herói multicolorido gigantesco, tosco, caricaturesco"), o Museu do Ipiranga ("um monumento à independência que mostra que o próprio Brasil era um império, uma terra de conquistadores") e o Monumento às Bandeiras, mais conhecido como "empurra-empurra", no Ibirapuera ("conjunto de homens graníticos que, apesar de aparentar estarem fazendo força, puxam cordas frouxas").

A ideia era construir o ensaio "Pornografia Bandeirante", um dos que compõem o livro "Autoimperialismo" (Planeta), que Moser lançará na próxima Festa Internacional de Literatura de Paraty, que vai de 29 de junho a 3 de julho. Para a Flip, da qual já participou em 2010, virá acompanhado do companheiro, o escritor Arthur Japin, que lançará romance sobre Santos Dumont. Os dois vivem juntos na Holanda.

Se "Clarice" encantou brasileiros ao fazer o elogio de sua principal escritora, "Autoimperialismo" não será de tão fácil digestão para leitores mais nacionalistas. No livro, o autor solta várias provocações ao Brasil através de uma leitura guiada pela arquitetura.

Ao longo de três ensaios, sobre São Paulo, Rio e Brasília, Moser compara nosso país aos EUA. "Os norte-americanos são imperialistas para fora, já o Brasil é imperialista para dentro de seu próprio território", diz.

No ensaio sobre São Paulo, pergunta como podem ser celebrados ainda nos dias de hoje os bandeirantes, "pessoas horríveis, caçadores de índios, assassinos e estupradores".

Para Moser, há uma contradição entre o fato de terem virado um símbolo da liberdade e da construção de um país, "quando o que fizeram foi destruir uma parte do Brasil, sua natureza e as populações indígenas".

Já no texto sobre o Rio, Moser cita as reformas no centro da cidade que afastaram a população pobre para a periferia, criando as favelas. "É um exemplo de como o Brasil invade o Brasil, como o brasileiro muitas vezes olhou para seu território com os olhos de um colonizador, e não com a ideia de aceita-lo qual é, ou de melhorá-lo. Me pergunto se isso não é uma espécie de ódio ao próprio país."

No artigo sobre Brasília, "Cemitério da Esperança", Moser conta que se decepcionou ao conhecer a cidade depois de tanto ler e ouvir falar sobre ela. "É tudo derivado da arquitetura modernista francesa, e a ideia, claramente, é deixar o povo parecer pequeno diante de construções monumentais.

Além de mantê-lo longe do poder."O escritor não poupa em nada o criador da capital, Oscar Niemeyer (1907-2012). "Foi uma pessoa bruta e analfabeta, que se repetiu por mais de 80 anos. Nunca fez uma revisão
das ideias que defendia."

Quando publicou pela primeira vez críticas a Niemeyer, recebeu uma saraivada de ataques nas redes sociais. "Não me assusto com esse tipo de crítica que diz que, só porque sou estrangeiro, não posso opinar sobre o Brasil. Qualquer país ganha se levar em conta o olhar estrangeiro, que pode conter falhas, mas que traz questões em que as pessoas não estavam pensando, ajudam no debate e podem levar até a uma autocrítica."

"Autoimperialismo" surgiu durante as viagens que Moser fez ao Brasil para pesquisar sobre Clarice Lispector. Nas visitas, passou a entender porque os EUA têm tanta dificuldade de entender o país. "Minha teoria é que essa dificuldade tem a ver com nossa tendência de ver a América Latina como uma vítima nossa, e confundimos o Brasil com Cuba, com El Salvador, ou outro país menor. Vemos com o mesmo olhar que lançamos a esses países e dizemos 'coitado do Brasil'. Mas isso faz com que não enxerguemos o imperialismo, parte importante da personalidade do país."

CLARICE

O interesse de Moser pela cultura brasileira nasceu quase por acaso. "Sou uma abelha, gosto de ir de flor em flor, meus interesses vão mudando", descreve-se, ironicamente. Nascido no Texas e educado em Paris, o autor voltou aos EUA para estudar na universidade Brown.

Na época já falava, além de inglês, francês e espanhol, mas queria aprender uma nova língua. A princípio, pensou em estudar chinês. Mas logo pareceu complicado demais. Então resolveu partir para o português.
Entre os primeiros livros que lhe foram dados para ler, estavam "A Morte e a Morte de Quincas Berro D'Água" (1959), de Jorge Amado, e "A Hora da Estrela" (1977). "Foi aí que me apaixonei por Clarice", confessa.
Desde 1995, quando começou a pesquisar a sério a autora brasileira nascida na Ucrânia, até 2009, quando publicou a biografia, Moser conta que foi entendendo melhor toda uma época do Brasil, e concluiu que nossa história, de certa forma, alterna euforia com grandes depressões. "Há momentos em que tudo está ótimo, e parece que vai dar tudo certo e amanhã os brasileiros vão acordar noutro país.
Foi assim nos anos 50, pré-Brasília.

Mas, depois, inevitavelmente, vem uma imensa decepção, porque os países são como as pessoas, não mudam muito. Só que o brasileiro se ilude demais, e se decepciona demais quando chegam esses momentos de baixa. Na época de Pelé, João Gilberto, as pessoas achavam que o Brasil atrasado tinha ficado para trás. Mas depois vem a conta e todo mundo fica com raiva. Talvez algo parecido tenha acontecido agora."

Comentando a crise brasileira, Moser traça paralelos. "Entrou muito dinheiro no Brasil nos últimos anos, e muitas esperanças foram correspondidas, pessoas foram gratificadas. Mas não se mudou o país completamente, e depois a situação mundial mudou. Então veio a decepção. Creio que por isso aumentou tanto a raiva e a polarização desses últimos tempos."

Moser se diz feliz por ser hoje visto como uma espécie de "embaixador da Clarice Lispector" no mundo. E pretende seguir no posto. Mas não só por ela, o "título" o tem motivado, também, a criticar a falta de traduções de escritores de outras línguas para o inglês -hoje, apenas 3% dos livros publicados nos EUA e no Reino Unido são traduções.

A coletânea da autora, que Moser organizou em inglês, "The Complete Stories", vem recebendo elogios da crítica norte-americana e agora também chega ao Brasil, pela Rocco.

"Tenho um pouco de dificuldade de achar que autores representam literaturas nacionais, acho que era algo que deveríamos discutir mais. A literatura brasileira é muito diversa, não se resume obviamente à Clarice. Isso também ocorre em outros países. Creio que precisávamos nos esforçar mais em ver menos a literatura como algo nacional e cruzar a fronteira política que a divide."

SUSAN SONTAG

Depois de Clarice, Moser já emendou uma nova biografia, e também de uma mulher. Já está em fase avançada seu novo livro, sobre a trajetória da escritora e ativista norte-americana Susan Sontag (1933-2004).

"Eu resisti a princípio, porque fazer biografia é um troço complicado, envolve muita diplomacia, você tem de tomar cuidado com os envolvidos. Mas quando li e conversei sobre a Susan, fui tomado por um grande entusiasmo e empolgação pela personagem", conta.

O autor concorda que o livro o leva de volta ao seu país natal, pois permite "fazer um panorama da sociedade norte-americana dessas últimas décadas".

Da personagem, também, diz querer seguir o exemplo. "Sontag sempre promoveu ideias, autores e intelectuais que vinham de fora, queria trazer essas coisas e influências para os EUA. Era uma pessoa muito internacional. É um pouco o que quero fazer. Acho que ela, como eu, também gostava de ser uma espécie de abelha", resume.

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