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Serafina

Primeira multinacional do mundo, Cia das Índias está em expansão

Catarina Bessel
Ilustração para Cia da Índias Orientais
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O namoro da economista brasileira Ilana com o historiador inglês Jeremy ainda estava no começo quando ela decidiu comprar para ele uma caixa de geleias de sabores diferentes, entre eles uma combinação de gengibre e ruibarbo, herbácea nativa na China.

A ideia surgiu depois que ela encontrou no turístico Covent Garden Market, em Londres, uma loja de especiarias cuja placa exibia East India Company, ou Companhia das Índias Orientais, nome em português da empresa cuja história se confunde com a expansão do império britânico nos séculos 17 e 18.

Jeremy gostou do presente, mas não ficou tão entusiasmado pela marca quanto Ilana imaginou. "Pensei que ele fosse gostar de algo de lá pela relevância histórica para a Inglaterra e porque ele ensina história britânica. Mas a empresa mudou, isso para um historiador faz diferença", conta Ilana.

A companhia já foi a mais poderosa do mundo, a primeira multinacional de que se tem notícia.

Hoje é uma rede de lojas de especiarias sofisticadas que, aos poucos, está ganhando endereços em diferentes continentes.

O olhar mais curioso é capaz de identificar, nas paredes dentro de uma das lojas da rede em Londres, uma imagem da rainha Elizabeth 1ª, que deu à companhia o monopólio do comércio na Ásia.

Lá também estão imponentes leões da logomarca original da empresa que desbravou oceanos, colonizou territórios na Índia e no Paquistão em nome do império britânico e travou uma guerra com a China.

IGUAL, MAS DIFERENTE

Na filial de Covent Garden, a vendedora que carrega uma bandeja com infusões de ervas indianas perfumadas em pequeninos copos de plástico, explica que não se trata da mesma companhia do passado. Mas, a pouco mais de um quilômetro dali, a vendedora de outra unidade, próxima à Oxford Circus, garante que é a mesmíssima empresa que em 1600 saiu em busca de temperos na Indonésia e na Índia.

Os livros de história, contudo, contam que a Cia das Índias foi extinta em 1858 depois que soldados da companhia, dona de um exército próprio, se juntaram a indianos para se rebelar contra os quase 300 anos de exploração britânica.

Ambos os lados têm sua razão: em 2005, a companhia foi parar nas mãos de um descendente direto de seus colonizados. O empresário indiano Sanjiv Mehta, há 26 anos em Londres, obteve autorização para usar o nome e a marca registrada, com as iniciais da empresa.

Em 2010, ele relançou a Companhia das Índias Orientais. Suas lojas exibem uma decoração bem cuidada, têm funcionários uniformizados e atraem turistas. À época, Mehta declarou ter um orgulho enorme de ser o dono de uma das marcas mais reconhecidas do mundo.

Ele manteve o comércio de especiarias. A versão do século 21 da companhia oferece diferentes chás, cafés, biscoitos, chocolates e temperos, muitos deles de sabores exóticos ou raros vindos de lugares distantes. É possível encontrar chocolate com lascas de gengibre, cookies com chocolate, cereja e pimenta ou uma bebida que mistura hibisco havaiano, papoula e rosas.

Os preços dos produtos variam em média entre 10 e 20 libras (R$ 50 a R$ 100). Há espaço para extravagâncias como um pacote de 250 g de grãos de um café havaiano que custa 45 libras (cerca de R$ 225).

Ou ainda 100 g de um chá branco antioxidante, de nome "silver dawn" (amanhecer prateado) por 175 libras (R$ 875).

Também tem sorvete, como o de caramelo e flocos de sal do rio australiano Murray, e muitas porcelanas colorida. As guloseimas são caras,
mas de altíssima qualidade.

Criada no século 17 para buscar especiarias como cravo, canela, pimentas e noz moscada, a Cia das Índias foi responsável por popularizar o chá entre os britânicos. Em 1801, transportou 14 mil toneladas de ervas para chá, quantidade 260 vezes maior que cem anos antes.

"O chá ficou popular no Reino Unido porque era visto como uma alternativa mais polida, 'fashion' e saudável à cerveja. Ao importar chá pelo mar, a companhia foi capaz de manter custos baixos e ao mesmo tempo introduzir economia de escala, fazendo com que o chá pudesse ser apreciado por um número cada vez maior de pessoas", explica Robert Blyth, curador sênior de história mundial e marítima no Museu Marítimo Nacional, em Greenwich.

UMA FIRMA, UM PAÍS

A história da Companhia das Índias Orientais é tão importante para o Reino Unido que ganhou uma ala inteira do museu em Greenwich. Faz parte das galerias que exploram a história dos oceanos.

Blyth explica que o objetivo principal da galeria é mostrar como os comerciantes britânicos conquistaram o Oceano Índico adotando métodos asiáticos de negociação e conseguiram trazer novos produtos para o Reino Unido.

O começo, o auge e a decadência da companhia são retratados por meio dos principais nomes à frente da empresa e das diferentes commodities que, ao longo dos anos, foram entrando para o cardápio de mercadorias negociadas: a começar pelos temperos, passando por tecidos e chás, até chegar no ópio plantado na Índia e comercializado na China.

Como a exibição destaca, a partir de 1700, muitos britânicos passaram a questionar se era apropriado uma companhia privada governar a Índia. A companhia com frequência ignorava tradições locais e costumes, suas ações alimentavam oposição ao seu próprio regime. E, justamente por isso, sempre esteve atrelada a polêmicas e sob o escrutínio da população e do parlamento britânico.

"Eu acho que vai ser uma imagem difícil de mudar, especialmente no próprio subcontinente indiano. Será interessante ver se os sul-asiáticos estão interessados em comprar produtos da verão moderna da Companhia", observa o pesquisador Josh Erlich, professor de Harvard.

Estudioso da Companhia das Índias Orientais, Erlich pondera que os indianos sempre estiveram envolvidos em atividades ligadas à condução da antiga empresa. Ele ressalta que a história da companhia é crucial para entender não apenas o surgimento do Estado moderno como das corporações multinacionais.

Como se quisesse honrar a tradição do passado, a versão moderna da empresa está expandindo rápido. Em seis anos, além de contar oito lojas na Inglaterra, já está na Escócia, Kuwait, Abu Dhabi e Qatar. Por ora, contudo, não há planos de se abrir uma loja na Índia.

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