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Serafina

Criador da Muji, Kenya Hara projeta centro cultural japonês em SP

Mizuho Takamura
Foto do designer japonês Kenya Hara, publicada na revista serafina de dezembro de 2016
Foto do designer japonês Kenya Hara, criador da grife Muji e defensor do minimalismo
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Renovar o olhar do mundo sobre o Japão é a tarefa diante de Kenya Hara, o mais influente – e modesto – designer japonês da atualidade. Para começar, ele terá de apresentar uma versão contemporânea e multifacetada de seu país a um povo já familiarizado com a cultura popular japonesa há pelo menos um século.

O homem que só veste preto é o responsável pelas diretrizes da Japan House, projeto ambicioso do Ministério das Relações Exteriores do Japão que conciliará arte, tecnologia e negócios em um mesmo espaço a ser inaugurado na avenida Paulista, em São Paulo, no primeiro semestre de 2017. Duas outras unidades serão abertas nos próximos anos em Los Angeles (EUA) e Londres.

"Os brasileiros pensam em um Japão diferente daquele que queremos mostrar. E resolver esta equação é difícil, muito por conta do distanciamento geográfico. O que queremos é ultrapassar esta barreira e promover um intercâmbio cultural mais direto entre os dois países", diz ele, reconhecido por seus livros de teoria do design e pela direção criativa da Muji, rede japonesa de utensílios de desenho minimalista que recusa o culto aos logotipos.

A escolha de São Paulo como primeiro endereço da Japan House se deu, entre outros motivos, pelo fato de a cidade concentrar a maior população de origem japonesa fora do Japão.

A construção de 2.500 metros quadrados no coração da capital paulista ficou a cargo do premiado arquiteto japonês Kengo Kuma e combinará elementos nipônicos e brasileiros, com o uso de materiais naturais, para abrigar exposições, palestras e seminários, além de um restaurante de gastronomia nipônica, uma biblioteca e uma loja de manufaturas japonesas.

DESIGN E O VAZIO

Até 2019, o governo do Japão terá investido US$ 30 milhões (cerca de R$ 102 milhões) no projeto.

Hara explica a distorção entre o Japão e sua imagem projetada no mundo a partir da na era Meiji, no final do século 19, quando o país se aproximou rápida e intensamente do Ocidente.

"Nesta ocasião, os japoneses deram mais importância a se mostrarem familiarizados com a cultura ocidental do que a apresentarem sua própria cultura, que ficou na penhora. Com isso, a visão sobre o Japão é parcial, incompleta."

"Mas o Japão vem acumulando cultura por mais de mil anos e esta tradição funciona como recurso para o futuro da humanidade. Então, precisamos expressar o que há de mais interessante na nossa cultura para que o Japão possa funcionar dentro do mundo", explica o designer de 58 anos, que vive em Tóquio com a mulher, Yumiko, com quem desenhou a própria casa.

Parte desta identidade japonesa está presente no fundamento do design de Hara: o vazio. É no vazio -em que operam noções de simplicidade, beleza e potencialidade – que se baseia o minimalismo japonês, movimento que traduz boa parte da cultura daquele país.

"Enquanto o minimalismo Ocidental surgiu há cerca de 150 anos com o advento da modernização da sociedade e sua racionalização, o minimalismo japonês surgiu no final do século 15 e nasceu do vazio", explica ele.

A história de como ter pouco virou um estilo de vida no país passa pela destruição de acervos artísticos vindos de várias partes do mundo e da decisão de um membro da elite de morar numa casa simples e pequena, que construiu e manteve vazia (veja ao lado).

Assim foi inaugurada uma cultura nacional chamada Higashiyama, que passou a considerar mais agradável o espaço vazio que aquele carregado. "A inexistência de elementos que falem alto deixa a imaginação livre", avalia ele.

É assim na própria bandeira do Japão, em que a simplicidade da bola vermelha sobre o fundo branco abre espaço para muitas interpretações.

Essa flexibilidade, segundo Hara, faz parte do espírito da celebrada anti-grife Muji -flexão de Mujirushi Ryohin, ou "bens de qualidade sem marca", em tradução livre. A rede, criada em 1980 com um catálogo de 40 produtos, hoje conta com 7.000 objetos, entre roupas, artigos para viagem, utensílios domésticos, papelaria e móveis, desenvolvidos em cores serenas e privilegiando as matérias-primas naturais e recicladas.

"Ao retirarmos aquilo que é supérfluo, desenvolvemos objetos inspiradores que podem corresponder a muitos contextos", elabora. "E por trás da valorização da flexibilidade está o valor que damos ao vazio como expressão do belo no design."

Ele mesmo é expoente dessa lógica: discreto, é sempre visto vestindo uma espécie de uniforme: blazer preto sobre uma camiseta igualmente preta. Os óculos ovalados são outra marca registrada. Seu objeto favorito da Muji é chinelo atoalhado para ficar em casa.

O DESENHO DAS PALAVRAS

Diretor do Hara Design Institute, um think tank do desenho gráfico japonês, e professor de ciência do design na Universidade de Artes de Musashino, em Tóquio, Kenya Hara costuma dizer que as palavras são como materiais de desenho. "Design é a sabedoria acumulada por trás de objetos e ambientes. Para entender essa sabedoria, no entanto, precisamos de palavras. Portanto, design e palavra não são muito diferentes."

Hara defende a disseminação do design como instrumento de desenvolvimento humano e social. "Tudo o que temos ao redor nasce do desejo e do design", diz.

"Há sabedoria por trás de um botão bem feito ou de um rolo de papel higiênico. E, quando descobrimos essa sabedoria por trás dos objetos, passamos a ver o mundo de uma maneira diferente, alterando a qualidade do nosso desejo."

É por isso, diz ele, que aquilo que é mais importante no design são as pessoas. "Quanto mais elevada for a qualidade do desejo das pessoas, maior será nosso desenvolvimento." A Japan House serve para colocar o design como instrumento de educação do desejo.

"Um bom design cria surpresa e as pessoas pensam: 'Uau, que bonito!'. Mas este 'uau' não perdura. É apenas instantâneo. Mas existe um outro tipo de 'uau' que pode vir num segundo momento, de um lugar mais profundo, e que, portanto, é mais duradouro", explica. "O que eu busco ao mostrar o que há de mais interessante no Japão contemporâneo é evocar este segundo tipo de 'uau' nas pessoas."

*

MINIMALISMO JAPONÊS

Até a segunda metade do século 15 - convergência cultural
Japão recebia influências estéticas de toda a Eurásia a partir de objetos e obras de arte vindos de centros da Antiguidade e Idade Média

Arte Folha
Infografico migração japonesa, sobre design minimalista, serafina de dezembro de 2016, MINIMALISMO

1467-1477 - Guerra de Onin
Sangrenta disputa pelo poder no Japão que evoluiu para uma guerra civil e destruiu a maior parte dos acervos artísticos e arquitetônicos importados para o país

Mizuho Takamura
*** REVISTA SERAFINA*** kenya hara. Foto Mizuho Takamura ***DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM***

1482 - Shogun Yoshimasa (1436-1490)
Frustrado com a destruição da guerra, ele se retira para Kyoto, onde constrói uma casa simples, considerada marco fundador de uma ruptura na cultura japonesa, que deixa o luxo e passa a adotar o vazio como belo

Mizuho Takamura
*** REVISTA SERAFINA*** kenya hara. Foto Mizuho Takamura ***DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM***
Mizuho Takamura
*** REVISTA SERAFINA*** kenya hara. Foto Mizuho Takamura ***DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM***

1490 - Cultura higashiyama
O Shogun Yoshimasa comissiona obras nos jardins de sua casa, além de ikebanas (arranjos florais), peças de teatro nô, pinturas em tinta preta e os primórdios da cerimônia do chá, todos baseados no conceito wabi-sabi (beleza na simplicidade)

Mizuho Takamura
*** REVISTA SERAFINA*** kenya hara. Foto Mizuho Takamura ***DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM***
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