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Redes sociais pegaram ditadores desprevenidos, diz especialista
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LUCIANA COELHO
DE WASHINGTON
As mídias sociais --Twitter, Facebook, YouTube e blogs-- desempenharam papel central na Primavera Árabe, conclui o especialista em comunicação Philip Howard.
Professor da Universidade de Washington, em Seattle, ele conduziu o primeiro estudo quantitativo abrangente sobre o uso de mídia digital nas revoltas que varreram o Oriente Médio e do Norte da África neste ano, analisando mais de 3 milhões de tuítes.
Os resultados, publicados pelo pITPI (Projeto sobre a Tecnologia da Informação e o Islã Político), podem ser conferidos nesta reportagem (clique aqui).
| Patrick Baz - 11.fev.2011/France Presse | ||
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| Manifestantes comemoram na praça Tahrir, no centro do Cairo, a queda do ex-ditador egípcio Hosni Mubarak |
Na rede, diz, os jovens organizadores das manifestações encontraram a ferramenta ideal para viabilizar os protestos de forma rápida, abrangente e irrefreável. Derrubaram assim duas ditaduras longevas: a de Zine Ben Ali na Tunísia e a de Hosni Mubarak no Egito.
Howard, autor de "The Digital Origins of Dictatorship and Democracy: Information Technology and Political Islam" (As origens digitais da ditadura e da democracia: tecnologia da informação e islã político), conversou com a Folha por e-mail nesta semana. Eis a entrevista:
*
Folha - Alguns analistas afirmaram que as redes sociais foram uma ferramenta, ou um catalisador, para as revoltas sociais no Oriente Médio e no Norte da África, mas não as geraram. Seu estudo, porém, sugere que a velocidade foi um ponto crucial. Qual o peso que teve a velocidade de comunicação viabilizada pela rede?
Philip Howard - A velocidade foi importante porque os ativistas conseguiram pegar os ditadores desprevenidos. De fato, a tecnologia em si não causa levantes políticos, mas nossa pesquisa mostra que ela pode ser usada por ativistas criativos para pegar governos autoritários com a guarda baixa.
Isso porque a maioria dos governos autoritários não tem uma compreensão mais sofisticada de como as mídias sociais funcionam.
Folha - Você afirma que o governo no Egito começou a usar as redes sociais para antecipar o próximo passo dos manifestantes. Examinando os dados usados no estudo, vocês acharam algum sinal de contrapropaganda dos regimes?
Howard - Boa questão. Os governos de fato usam a mídia digital para estratégias de contra-insurgência. É por isso também que eu não falo de Revolução do Twitter ou Revolução do Facebook.
Embora essas tecnologias tenham sido importantes neste ano, cinco anos atrás eram SMS e blogs que pegavam os ditadores desprevenidos, e no ano que vem pode ser outra coisa.
Sabemos, por nossos estudos em campo, que governos como o da Síria e o do Irã usam identidades falsas para convocar protestos em um dado lugar e hora e prender todo mundo que aparece.
Folha - É difícil não se empolgar com o que aconteceu na Tunísia e no Egito, mas a taxa de penetração da Internet nos dois países é muito baixa, embora eles tenham comunidades on-line bastante sofisticadas. Você vê algum risco de o uso político das redes sociais amplificar só a voz de uma elite intelectual?
Howard - Isso já é mais difícil de responder, porque eu acho que, em parte, foi a elite intelectual que cansou de um regime autoritário, de suas mentiras e da falta de oportunidades econômicas.
Pode ser que, como os usuários da internet são normalmente de classe mais alta, gente mais educada, que suas opiniões sejam mais liberais do que a da maioria dos egípcios.
Pode ser que haja um sentimento pró-islã mais forte entre a população offline, e se os liberais antenados dominarem o debate político, sim, será em detrimento dos conservadores islâmicos.
Folha - O estudo identifica uma série de condições no Egito e na Tunísia que ajudaram esse movimento on-line a crescer --população jovem e urbana, gente educada e sem oportunidade de emprego, blogosfera sofisticada. Apesar de protestos em outros lugares, porém, só ali as revoltas floresceram. Você identifica outros países com terreno fértil?
Howard - Jordânia e Marrocos são países onde poder haver manifestações populares pró-democracia.
O padrão parece ser que, em países com ativistas versados em tecnologia, mas sem governos autoritários que se amparam na riqueza do petróleo, há momentos-chave na política quando se frauda uma eleição.
É cada vez mais difícil fraudar uma eleição, e os governantes desses dois países logo fizeram concessões na Primavera Árabe - prometeram eleições na Câmara e reforma Constitucional.
Folha - Pouco antes de a Primavera Árabe começar, você havia publicado um livro sobre o uso da tecnologia da informação e da Internet em Estados islâmicos. Você se surpreendeu quando os movimentos eclodiram.
Howard - Meu instinto era que o Egito entraria em crise, mas que a crise viria na reeleição fraudada do Mubarak, que estava prevista para acontecer neste mês.
Eu não achava que ele sobreviveria [politicamente] com os ativistas digital ficando tão bons no que fazem.
O livro propõe uma receita para a democratização, e o que aconteceu nos últimos seis meses se encaixa nela.
Uma coisa que me surpreendeu, porém, foi a forma como os protestos políticos se espalharam para além da região --na Espanha, na China, em Israel etc.
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