Fez mais frio na Europa do que no polo Norte. Como isso é possível?

Calor no Ártico e frio europeu podem estar relacionados à mudança climática

Kendra Pierre-Louis

Na semana passada, temperaturas abaixo do ponto de congelamento se espalharam por toda a Europa, da Espanha à Polônia. Nevou em Roma pela primeira vez em seis anos. A Noruega registrou as temperaturas mais baixas da frente fria: -42°C na porção sudeste do país, na quinta-feira (22).

E na sexta (23), o Reino Unido e a Irlanda foram varridos por uma tempestade que levou neve e ventos fortes a ambos os países.

Se a Europa está parecida com o Ártico, no momento, este, em contraste, registra temperaturas amenas. O polo Norte vem registrando temperaturas acima de zero, em pleno inverno. Não existe medição direta de temperatura por lá, mas a combinação de imagens de satélites e outros dados sobre a região demonstra que na semana passada a temperatura da área polar subiu para 2°C.

Isso representa 10°C acima da temperatura normal para o período, e cerca de 25°C a mais do que a temperatura registrada recentemente em certas áreas da Noruega.

O relativo calor no Ártico e a frente fria na Europa trouxeram questões sobre uma possível relação entre os dois fenômenos e a mudança no clima. Abaixo, respostas para algumas das dúvidas quanto a isso.

Os padrões climáticos da Europa e do Ártico estão conectados?

Provavelmente, de acordo com Judah Cohen, climatologista e diretor de previsões climáticas sazonais na Atmospheric and Environmental Research, uma empresa de avaliação de riscos climáticos. Cohen é o autor de um estudo publicado no ano passado que vinculava o aquecimento na região do Ártico às rajadas frias que os moradores do Hemisfério Norte vieram a conhecer como "vórtices polares".

O vórtice polar é um sistema de baixa pressão que, como seu nome sugere, em geral repousa sobre o polo Norte. (Também existe um vórtice polar na Antártida.)

Quando se comporta normalmente, o vórtice polar ajuda a aprisionar o ar frio no Ártico.

"O vórtice aprisiona aquele ar frio nas latitudes elevadas da região ártica", disse Cohen, comparando o vórtice polar a uma barragem que impede o gélido ar do Ártico de se espalhar pelo restante do hemisfério norte.

Mas, às vezes, surge uma rachadura na barragem, quando o vórtice polar se enfraquece e permite que o ar frio escape do Ártico em direção a climas mais temperados.

Isso sempre aconteceu, de tempos em tempos, mas mais e mais pesquisas vêm indicando que, por conta da mudança no clima, o aquecimento do Ártico está enfraquecendo o vórtice polar.

Por que o vórtice polar está enfraquecendo?

Os pesquisadores ainda não determinaram de que maneira o aquecimento do Ártico causa o comportamento aberrante do vórtice polar.

Alguns deles, como Cohen, apontam como causa o derretimento do gelo no Oceano Ártico, causado pelo aquecimento global. Cohen afirma que a perda de gelo cria padrões de alta pressão perto do Mar de Barents e do Mar de Kara, ao norte da Rússia. A pressão alta bloqueia o sistema de baixa pressão do vórtice polar, e o enfraquece no processo.

Até agora não existe consenso científico sobre a causa primária do enfraquecimento do vórtice polar. Seria apropriado afirmar que as avaliações sobre o que o causa não são tão definitivas quanto as provas de que a mudança no clima é causada por atividades humanas, uma teoria sobre a qual 97% dos pesquisadores do clima concordam.

Mas vale apontar que, em janeiro, a dimensão da camada de gelo no oceano Ártico foi a menor já registrada no primeiro mês do ano. Em algumas partes do Ártico, a camada de gelo do mar já está começando a se romper antes do final do inverno. E a extensão do gelo no Ártico vem se reduzindo pelo menos desde o final dos anos 70.

O que acontece quando o vórtice polar enfraquece?

Quando o vórtice polar enfraquece, ele permite que o ar frio escape para o sul. É isso que Cohen suspeita que tenha acontecido no final de dezembro e começo de janeiro, quando o nordeste dos Estados Unidos registrou algumas das temperaturas mais gélidas já medidas.

Outros pesquisadores que conduziram uma análise rápida do evento climático não estão tão certos, ainda que enfatizem ter conduzido apenas um estudo preliminar dos dados.

Nos dias que antecederam a frente fria na Europa, o vórtice polar não só perdeu força como se dividiu em dois, segundo Cohen.

Metade dele se encaminhou para o norte da Eurásia e de lá rumo a oeste, para a Europa, o que lhe valeu o apelido "a besta do leste". A outra metade se dirigiu ao noroeste do Canadá, causando um resfriamento na região oeste dos Estados Unidos depois de um período de calor incomum.

Enquanto isso, alguns países nada acostumados ao frio, como a Espanha, estão congelando.

Isso explica o frio gélido na Europa, mas por que o Ártico está tão quente agora?

Cohen compara o Ártico a um refrigerador. Quando a porta da geladeira está fechada, o frio interior é 
preservado e a cozinha fica quente. Contudo, se a porta for mantida aberta, todo o 
ar frio sairá. 

Como o ar está saindo, ele precisa ser substituído, no caso pelo ar do ambiente —mais quente—, que fluirá para dentro do refrigerador ou, no caso, para o Ártico.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

The New York Times

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