Antártida derrete quase 3 vezes mais rapidamente do que em 2012, diz estudo

Pesquisa da Nature aponta que taxa anual de perda de gelo triplicou de 1992 a 2017

Equipe de cientistas navega pela Antártida, entre o gelo que derrete AP

Kendra Pierre-Louis
New York

Entre 60% e 90% da água doce do mundo está congelada nas camadas de gelo da Antártida, continente do tamanho dos EUA e México juntos. Se todo esse gelo derretesse, o nível do mar aumentaria mais de 60 metros. 

Isso não acontecerá da noite para o dia, mas o derretimento já ocorre, e, segundo estudo publicado nesta quarta (13) na revista Nature, cada vez mais rápido. 

A taxa com que o continente está perdendo gelo mais do que dobrou desde 2012. A Antártida está derretendo tão rapidamente que fará o nível do mar aumentar 15 centímetros até 2100. 

Mesmo sob condições normais, a paisagem da Antártida está em constante mudança com o derretimento do gelo na superfície. Mas o que preocupa os cientistas é o saldo final da quantia de neve e gelo que se acumulam em um ano e da quantidade que é perdida. 

Entre 1992 e 2017, a Antártida perdeu 3 trilhões de toneladas de gelo, o que levou a um aumento nos níveis do mar de cerca de 8 milímetros, o que pode não parecer muito. Mas 40% desse aumento se refere aos últimos cinco anos do estudo, de 2012 a 2017, quando a perda de gelo cresceu 165%.

A península antártica não é o único fator de aumento do nível do mar. A perda da Groelândia está estimada em 1 trilhão de toneladas entre 2011 e 2014. Com o aquecimento dos oceanos, a água se expande e ocupa mais espaço, também contribuindo para esse aumento. O derretimento do gelo e o aquecimento das águas são causados, principalmente, pelas emissões humanas de gases do efeito estufa.

O estudo também ajuda a esclarecer questões sobre as diferenças regionais na Antártida. Sabe-se que o oeste do continente e a península antártica estão perdendo gelo. No lado leste, a figura é mais confusa, já que as camadas de gelo por lá aumentaram em alguns anos.

O leste, inclusive, tem sido alvo de atenção das pessoas que negam a ciência do aquecimento global.

Correspondente a dois terços do continente, é uma região remota de uma área já remota, com dados escassos porque há menos estações de monitoramento. Cientistas, então, precisam extrapolar uma quantia menor de dados, o que pode tornar a análise menos precisa. 

Para contornar o problema, mais de 80 cientistas reuniram dados de cerca de 12 medidas de satélites desde o começo dos anos 1990.

Os cientistas concluíram que as mudanças no leste da Antártida não chegavam nem perto de compensar a perda rápida observada no oeste e na península. No saldo, a Antártida está perdendo gelo e aumentando os níveis do mar.

Andrew Shepherd, pesquisador da Universidade de Leeds, fez cálculos semelhantes há cinco anos, usando dados de 20 anos, mas não conseguiu dizer muito além de que a Antártida parecia estar perdendo gelo em ritmo estável. 

No novo estudo, ele e colegas descobriram a aceleração desse ritmo de perda.

"Agora podemos realmente ver que os sinais são diferentes do que vimos antes", disse. O ritmo de aumento do nível do mar triplicou desde 2012. 

Avanços nos satélites de observação da Terra permitiram que os pesquisadores entendam melhor as regiões polares. Muitos cientistas pensavam que essas regiões poderiam ganhar gelo com o aquecimento global, porque temperaturas mais altas levariam a maior umidade na atmosfera, o que causa mais chuvas e, pensavam, mais neve nos polos. Observações dos satélites derrubaram essa visão.

Os satélites também mostraram as causas da perda de gelo. "O estudo mostra que estamos perdendo mais massa nas beiradas das camadas de gelo, onde há contato com o oceano, e que as águas mais quentes estão derretem o gelo", diz Michele Koppes, glaciologista da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá.

The New York Times

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