Descrição de chapéu The New York Times

Irlanda deve ser primeiro país a deixar de investir em combustíveis fósseis

Lei aprovada na última semana deve ser sancionada pelo primeiro-ministro

Somini Sengupta
Nova York

Embora a Noruega, a maior produtora de petróleo da Europa, ainda não tenha decidido se acatará a recomendação de desinvestimento, a sugestão mesma é um sinal de que a confiança no futuro do negócio do petróleo está em baixa mesmo em um dos principais produtores da commodity.

Na última quinta (12), a Irlanda votou em favor da retirada de seus investimentos públicos em combustíveis fósseis, desdobramento que representa o mais significativo avanço até hoje na campanha mundial dos ambientalistas pelo desinvestimento.

A câmara baixa do Legislativo aprovou um projeto de lei que requer que o fundo nacional de investimento irlandês, que administra € 8,9 bilhões (R$ 40 bilhões) em capital público para investimento, retire seu investimento do segmento de combustíveis fósseis “o mais cedo possível”.

Grande tanque de combustíveis em Dublin da empresa Top Oil, uma das líderes de mercado na Irlanda
Grande tanque de combustíveis em Dublin da empresa Top Oil, uma das líderes de mercado na Irlanda - Eric Jones

Um assessor de Thomas Pringle, parlamentar que propôs a medida, disse que o projeto tem o apoio do primeiro-ministro Leo Varadkar e que deve se tornar lei. Quando o fizer, a Irlanda se tornará o primeiro país a assumir formalmente o compromisso de retirar seus investimentos no setor de combustíveis fósseis.

A votação do Parlamento irlandês surge depois de uma recomendação do banco central norueguês, no final de 2017, para que o fundo nacional de investimento do país, que detém US$ 1 trilhão (R$ 3,85 trilhões) em capital, abandonasse seus investimentos em companhias petroleiras.

Embora a Noruega, a maior produtora de petróleo da Europa, ainda não tenha decidido se acatará a recomendação de desinvestimento, a sugestão é um sinal de que a confiança no futuro do negócio do petróleo está em baixa mesmo em um dos principais produtores da commodity.

Neste mês, a Igreja Anglicana votou pela venda de seus ativos em companhias petroleiras que não tenham alinhado seus planos de negócios ao Acordo de Paris para reduzir o aquecimento global. 

E poucos dias antes disso, o Papa convocou os líderes de algumas das maiores companhias de petróleo do planeta e instou que ajam com urgência para atenuar a mudança do clima.

O projeto de lei original pedia que o desinvestimento fosse concluído em cinco anos, mas uma emenda posterior introduziu mais flexibilidade quanto ao prazo.

O texto agora será encaminhado ao Senado da Irlanda, que pode postergar sua implementação, mas não tem poderes para reverter a decisão da câmara baixa.

O movimento mundial pelo desinvestimento insta universidades, fundos de pensão e fundos nacionais de investimento a tirar seu dinheiro de empresas que lidem com carvão, petróleo e outros combustíveis que contribuem para a emissão dos gases responsáveis pelo efeito estufa, causador do aquecimento global. 

A ideia é semelhante a uma campanha conduzida por universitários nos anos 80 para convencer os fundos mantenedores das universidades a retirar seus investimentos da África do Sul, que na época vivia sob o apartheid.

Uma pesquisa recente da rede de ONGs Climate Action Network constatou que só a Polônia estava abaixo da Irlanda na lista de países europeus que menos fizeram para combater o aquecimento global.

Varadkar, que assumiu em junho, disse que deseja fazer da Irlanda “uma líder nas ações quanto ao clima”.
 

Tradução de Paulo Migliacci

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