Bolsonaro pediu para não haver conferência do clima no Brasil em 2019

Ministros e presidente divergem sobre importância de seguir o Acordo de Paris

José Marques Talita Fernandes Ana Carolina Amaral
Brasília e São Paulo

A retirada da candidatura do Brasil da sede da COP-25, a conferência anual da ONU para negociar a implementação do Acordo de Paris, provocou divergências entre o presidente eleito Jair Bolsonaro e dois futuros ministros nesta quarta-feira (28).

Já era esperado que o país sediasse o evento, mas o Itamaraty comunicou a retirada em nota nesta terça-feira (27), decisão lamentada por órgãos ambientais.

Durante a tarde, o chefe da Casa Civil do próximo governo, Onyx Lorenzoni, afirmou ao lado de Bolsonaro que o governo não teve "nada a ver com isso". "Esta é uma decisão do Itamaraty", afirmou, mas foi cortado pelo presidente eleito.

"Houve participação minha nessa decisão. Ao nosso futuro ministro, eu recomendei que se evitasse a realização desse evento aqui no Brasil. Até porque eu preciso que vocês nos ajudem, está em jogo o 'triplo A' nesse acordo", afirmou Bolsonaro, em referência ao futuro chanceler Ernesto Araújo, que tem posicionamento crítico em relação às previsões de aquecimento global.

Triplo A, segundo ele, seria uma faixa que envolve a cordilheira dos Andes, a Amazônia e o oceano Atlântico. O Acordo de Paris, para o presidente eleito, colocaria em risco a soberania nacional dentro desse território. Não há menção ao chamado Triplo A no acordo, porém.

"Não quero anunciar uma possível ruptura dentro do Brasil. Além dos custos que seriam, no meu entender, bastante exagerado tendo em vista o déficit que nos já temos no momento", acrescentou.

Como a Folha revelou, no entanto, a questão orçamentária já estaria resolvida desde outubro, segundo membros do alto escalão do Ministério do Meio Ambiente. Eles afirmaram que havia reserva de recursos do Fundo Clima para garantir a realização da COP-25 e que também teve seu orçamento aprovado em junho pelo Congresso, em emenda da Lei de Diretrizes Orçamentárias. 

Folha apurou que a ordem de desistência teria vindo diretamente do presidente Temer, como 'um favor' ao governo eleito. O presidente agiu após ser comunicado pelo Itamaraty sobre a posição contrária do novo governo à realização da COP no Brasil. 

O chanceler indicado por Bolsonaro, Ernesto Araújo, declarou diversas vezes ser contrário ao "alarmismo climático" e que as mudanças climáticas seriam um "dogma marxista". Como ministro das Relações Exteriores, ele seria o responsável por presidir as negociações para a implementação do Acordo de Paris, caso a COP acontecesse no Brasil no próximo ano. 

Com a retirada da candidatura brasileira, agora cabe ao Grupo de Países Latino-americanos e Caribenhos (Grulac) indicar à ONU outro país da região, onde é esperada a realização da COP de 2019. 

Menos de uma hora depois, também em entrevista, o recém-anunciado ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio (PSL-MG), disse que a COP é "de grande importância" para discutir a questão climática e "todos os outros temas que estão relacionado ao turismo".

Questionado sobre a posição de Bolsonaro, porém, Álvaro Antônio titubeou. "Não conversei com o presidente ainda. Se a posição dele é essa, obviamente a gente respeita a posição do presidente, mas vou conversar com ele para a gente ter o alinhamento das ideias."

"A gente ainda precisa se aprofundar mais e entender melhor qual o impacto da não realização do evento nessa visibilidade do Brasil aqui dentro e também no exterior."

A sinalização do novo governo a respeito do Acordo de Paris vai na direção contrária do papel que o Brasil tem representado nas negociações de clima da ONU. A própria Tereza Cristina (DEM-MS), indicada para o Ministério da Agricultura, já disse que “o Acordo de Paris é importante para a agricultura brasileira, pois o produtor brasileiro é reconhecido lá fora como preservador".

A próxima conferência do clima (COP-24) começa na próxima semana, em Katowice, na Polônia.

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