PF prende ex-chefe do Ibama em operação contra grilagem e desmate

Ex-superintendente do Ibama no Acre, Carlos Gadelha havia declarado apoio a Bolsonaro e criticado aparelhamento do órgão

Fabiano Maisonnave
Lima

A Polícia Federal e o Ministério Público Federal deflagraram nesta quarta-feira (8) uma operação contra um grupo criminoso acusado de fraudar a fiscalização de desmatamento e grilagem no sul do Amazonas, perto da divisa com o Acre. Um dos presos é o ex-superintendente do Ibama no Acre Carlos Gadelha.

Os crimes teriam sido praticados na região de Boca do Acre (AM), município na divisa com o Acre e atualmente um dos principais focos de desmatamento da Amazônia. A área grilada ou desmatada chega a 86 mil hectares, o equivalente a 389 parques Ibirapuera.

Foram expedidos 18 mandados de prisão e 36 mandados de busca e apreensão no Amazonas, no Acre e em Minas Gerais, com a participação de cerca de 180 policiais. 

O servidores públicos recebiam suborno para deixar de lavrar autos de infração por desmatamento, multar "laranjas" em vez dos verdadeiros responsáveis, repassar informações privilegiadas acerca das datas e locais das fiscalizações ambientais e deixar de apreender maquinário utilizado para desmatamentos, segundo a PF. 

Os investigados incluem fazendeiros, policiais, advogados, que responderão pelos crimes de associação ou organização criminosa, invasão de terras públicas, formação de milícia, desmatamento ilegal, lavagem de dinheiro, corrupção passiva, ameaça e furto qualificado de madeira da União, entre outros.

Gadelha foi superintendente do Ibama no Acre durante o governo Michel Temer (MDB) por indicação do deputado federal Flaviano Melo (MDB-AC). Ele foi exonerado em março pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.

Em novembro, Gadelha foi um dos autores de uma carta de quatro superintendentes do Ibama na Amazônia que declararam apoio às críticas do então presidente eleito Jair Bolsonaro contra o Ibama. Eles afirmaram que o órgão estava aparelhado e que não tinham poder de voz e decisão por causa do modelo “opressor e ditatorial do poder central”.

Outro signatário dessa carta é o então superintendente do Ibama no Amazonas, José Leland Barroso, também por indicação política. Segundo a Folha apurou, o padrinho é o deputado federal Átila Lins (PP-AM), que teria entregue o texto dos superintendentes a Bolsonaro. 

Em março, Barroso também foi exonerado. Em 25 de abril, o ex-superintendente foi um dos presos durante operação da PF e do MPF contra roubo de madeira.

Ex-presidente do Ibama no governo Temer, Suely Araújo afirmou à Folha que a indicação dos dois ex-superintendes vieram da bancada estadual e que esse cargo é responsabilidade do ministro do Meio Ambiente —na época, ocupado por Zequinha Sarney (PV).

“No período de minha gestão no Ibama, havia superintendentes de minha escolha e estrita confiança, mas também casos em que os titulares desse cargo eram mantidos contrariamente à minha vontade”, disse. 

“Cabe registrar que os referidos superintendentes manifestaram publicamente seu posicionamento de forte oposição à minha atuação no Ibama e às atividades de fiscalização como planejadas pela Diretoria de Proteção Ambiental”, completou.

Sobre a operação desta quarta-feira, Araújo disse que “o Ibama tinha conhecimento da investigação nos dois casos, e colaborou com a PF, como faz em várias situações”. 

Procurado pela reportagem, o deputado Melo afirmou, via assessoria de imprensa: “Nunca chegou ao meu conhecimento qualquer tipo de irregularidade envolvendo Gadelha. Eu chancelei, junto aos parlamentares acreanos, a indicação dele ao órgão, porque ele é um servidor de carreira e recebi um abaixo-assinado dos funcionários do Ibama apoiando a indicação dele para a função.”

O deputado Lins não respondeu aos pedidos de esclarecimento até a publicação deste texto.

A reportagem não conseguiu localizar os advogados de defesa dos ex-superintendentes. 

O nome da operação, Ojuara, é uma referência ao livro “As Pelejas de Ojuara”,  de Nei Leandro de Castro, em que o personagem do título —também codinome de um dos investigados—enfrenta o diabo.

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