Temos que mudar narrativa do desenvolvimento, diz brasileiro autor de estudo sobre extinção

Eduardo Brondízio diz que degradação ambiental e desigualdade social não precisam ser produtos do crescimento econômico

Lucas Neves
Paris

É preciso reescrever a narrativa segundo a qual degradação ambiental e desigualdade social são produtos lamentáveis, porém inevitáveis do crescimento econômico.

A opinião é do professor brasileiro Eduardo Brondízio, um dos coordenadores do amplo estudo da ONU que mostrou, entre outras coisas, que cerca de 1 milhão dos 8 milhões de espécies animais e vegetais repertoriadas na Terra estão ameaçadas de extinção –em alguns casos, o desaparecimento seria uma questão de décadas.

Segundo o pesquisador, que se divide entre o departamento de antropologia da Universidade de Indiana (EUA) e o Núcleo de Estudos Ambientais da Unicamp, “os ideais de desenvolvimento e de qualidade de vida precisam levar mais em conta os benefícios oferecidos pela natureza”. 

“Temos que ser realistas. Há muito interesse econômico envolvido nessa área e, por isso, se vê uma calcificação de certos modelos mentais”, afirma Brondízio, que destaca a participação de sete pesquisadores brasileiros (de origens como USP, PUC-Rio e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) na elaboração do relatório. 

“Mas é possível mudar. As redes sociais oferecem a possibilidade de mobilizar rapidamente e de normalizar outros comportamentos.” 

Para o professor, confrontadas com evidências incontestáveis, as pessoas estão começando a se sentir impelidas a agir. “Temos o conhecimento, a tecnologia, o método. O desafio é [fazer com] que a eles se juntem vontade e conscientização.”

Nesse sentido, diz Brondízio, é imperativo buscar o know-how de populações indígenas, que detêm ou ocupam 25% das terras totais e 35% das tidas como pouco afetadas pela intervenção humana. 

“Muitas manejam grandes bacias hidrográficas e ecossistemas, com implicações em pontos muito distantes daqueles onde vivem. Contribuem para a qualidade da água e para a diversidade de habitats, lideram o esforço por reflorestamento e monitoram atividades ilegais”, explica o pesquisador. 

“Estamos em um momento crítico, não só não reconhecendo populações indígenas como, em alguns casos, condenando seu modo de vida. Esquecemos o potencial do conhecimento local.”

Ele dá como exemplo a lucrativa indústria do açaí na Amazônia, “que saiu do conhecimento de pequenos produtores sobre manejo florestal e virou uma floresta produtiva que gera bilhões”. 

O problema aqui, sublinha Brondízio, é que a agregação de valor ao produto não ocorre em benefício das populações da região, pois se dá a milhares de quilômetros de distância de lá. “Temos que mudar isso, para gerar riqueza e emprego nesta e em outras regiões pobres.” 

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