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Carlos Nobre

Governos democráticos divulgam tanto as boas como as más notícias

Marcos Pontes certamente viu com os próprios olhos, do espaço, a extensão dos desmatamentos da Amazônia

Carlos Nobre

Entre 1987 e 1989, a detecção de focos de calor na Amazônia a partir de satélites meteorológicos, fatores indicativos de desmatamentos e queimadas, atingiu valores muito altos. O assunto tornou-se preocupação mundial retratado na capa da revista Time de 19 de setembro de 1989 com o título “Amazônia em Chamas”. 

Questionado pela imprensa internacional no início de 1989, o então presidente Sarney declarou que o total de desmatamento na Amazônia brasileira era inferior a 5% e ordenou ao Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) que desenvolvesse um sistema de mapeamento das áreas desmatadas.

Incêndio na Amazônia
Incêndio na Amazônia - Caio Guatelli - 25.set.2005/Folhapress

Nascia, assim, o sistema Prodes a partir de imagens do satélite Landsat, que fornecia à época dados de mais alta resolução espacial. Os primeiros dados mostraram que até meados de 1988 o total de desmatamento da Amazônia brasileira havia atingido cerca de 8% da área de floresta. 

Esse sistema vem sendo continuamente aperfeiçoado pelo Inpe e registra uma margem de erro de somente 5% a 6%. Sistemas completamente automáticos a partir de algoritmos de inteligência artificial apresentam margens de erro acima de 20%, o que demonstra a qualidade das análises do Inpe, inclusive para estimativas das emissões de gases de efeito estufa por desmatamentos.

Até meados de 2018, o Prodes registrou cerca de 800 mil km2 desmatados na Amazônia brasileira, ou 20% da área de floresta.

Do surgimento do Prodes em meados de 1989 até 2001, somente se divulgava o total anual da área desmatada na Amazônia quando o governo julgasse conveniente, e não era tornado público o padrão espacial das alterações dos usos da terra.

Isso veio ao domínio público a partir de 2002, por uma sábia decisão do então ministro de Ciência e Tecnologia, o embaixador Sardenberg. A disponibilização dos padrões espaciais permitiu um enorme avanço científico sobre a dinâmica e causas do desmatamento, orientando políticas públicas para coibir o desmatamento ilegal, que responde historicamente por 70 a 80% da área total desmatada da Amazônia.

Entretanto, o sistema Prodes produzia um único conjunto de dados por ano, normalmente divulgado em outubro ou novembro, cobrindo o período de agosto do ano anterior até julho do ano corrente. O enorme acréscimo na taxa de desmatamento anual em 2004, chegando perto de 30 mil km2, mostrou que se fazia necessário algo que captasse os desmatamentos com muito maior frequência temporal.

A pedido do Ministério do Meio Ambiente, o Inpe desenvolveu o sistema Deter, utilizando informações de satélites que permitiam um monitoramento quase diário, ainda que com menor resolução espacial. O principal usuário das informações deste sistema tem sido o Ibama. Essa ferramenta que detecta muitas vezes o início de um processo de desmatamento —na maioria das vezes ilegal— foi fundamental para a implementação de políticas públicas e ações de contenção do desmatamento, um dos fatores principais para a grande queda da perda de floresta entre 2004 e 2012. A margem de erro do sistema Deter é de cerca de 10%.

Diferentemente de regimes autoritários, governos democráticos se caracterizam por divulgar tanto as boas como as más notícias. Sim, todos indícios são que o desmatamento dos últimos 12 meses na Amazônia vem aumentando significativamente e tal informação deve balizar ações contundentes contra os desmatamentos ilegais por parte dos governos.

Tenho confiança que o Ministro de Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, ao qual o Inpe é subordinado, encaminhará soluções sensatas e baseadas em ciência, inclusive apoiando o Inpe no contínuo aperfeiçoamento dos sistemas de monitoramento a partir do espaço e na disponibilização pública destas informações.

Afinal, ele é o único astronauta brasileiro e teve a oportunidade histórica de observar o esférico planeta Terra do espaço por dez dias na Estação Espacial Internacional, em março de 2006, e certamente viu com os próprios olhos a extensão dos desmatamentos da Amazônia e também a beleza espetacular da floresta e sua fundamental importância para a estabilidade ambiental do planeta Terra.

Carlos Nobre é pesquisador aposentado do Inpe e membro da Academia Brasileira de Ciências

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