Mascote da Copa América, capivara tem contaminação por metais pesados no RS

Estudo de universidade gaúcha avaliou tecidos do animal, típico do continente sul-americano

Paula Sperb
Porto Alegre

Maior roedor do mundo e natural da América do Sul, a capivara está contaminada por metais pesados residuais de agrotóxicos e fertilizantes químicos, segundo estudo da Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Conhecido como carpincho em países como Argentina e Uruguai, o animal foi escolhido para simbolizar a Copa América deste ano justamente por habitar a região.

A capivara também tem importância cultural, sendo citada nas tradicionais pajadas, poesias improvisadas e musicadas. Desde o mês passado, a mascote dentuça Zizito anima os estádios das cinco cidades brasileiras que sediam o campeonato. 

Mas, no sul do continente, justamente onde deveriam estar protegidas, na Estação Ecológica (Esec) do Taim, no Rio Grande do Sul, as capivaras apresentam elementos tóxicos em amostras de tecidos de órgãos como fígado, rim, gordura e músculo, além dos pelos e conteúdo estomacal. O Taim fica no bioma pampa, que já perdeu 43,7% de sua vegetação nativa, conforme revelado pela Folha

A pesquisa analisou tecidos de 127 capivaras que morreram atropeladas na BR-471, que atravessa a área de preservação entre as cidades de Santa Vitória do Palmar e Rio Grande, entre janeiro de 2013 e janeiro de 2014. 

Percorrendo a rodovia com um carro da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), a uma velocidade de 30 km/h, a pesquisadora Cíntia Ramm, do Programa de Pós-Graduação em Biologia de Ambientes Aquáticos Continentais procurava por capivaras vítimas de atropelamentos.

“As amostras de tecido foram coletadas em tubos e congeladas para análise no laboratório. O que descobrimos é que até mesmo os filhotes estavam contaminados”, explica a autora do estudo, realizado durante seu mestrado. 

Ramm explica que os metais encontrados são principalmente resquícios de agrotóxicos e fertilizantes químicos usados nas lavouras das proximidades. Mesmo sendo uma área protegida, o Taim tem predomínio de ecossistemas de banhados e fica entre as lagoas Mirim e Mangueira. 

“É uma zona de inundação, então tudo escoa para o Taim. A contaminação das capivaras pode ser tanto pela água, onde ela também vive, como por meio da alimentação, já que elas comem gramíneas e plantas aquáticas, em um processo de bioacumulação”, diz a bióloga. 

Entre os metais pesados detectados estão a prata, chumbo e cádmio. Outros metais como zinco e cobre, que participam de funções biológicas, também foram encontrados em doses tóxicas.

“O acúmulo dos metais nos órgãos as prejudica. O rim é um órgão de excreção, mas o metal não essencial não é metabolizado, vai sedimentando e pode gerar uma falência de rim e do fígado”, diz Ramm. 

A Esec do Taim tem 33 mil hectares e foi criada por decreto do ex-presidente José Sarney, em 1986. 
Os planos para instituí-la, porém, são anteriores, já que essa é uma das primeiras áreas do Brasil estudadas para criação de uma unidade do tipo. Publicação oficial de 1975 acessada pela Folha mostrava o plano para realizá-la. Em 2017, um decreto do ex-presidente Michel Temer ampliou a área da Esec.

Um documento de 1997 do Ministério do Meio Ambiente (MMA), na gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, já expunha a contaminação da água no Taim. 

“Os frequentes conflitos de limites com plantadores de arroz da região, a contaminação das águas por pesticidas, o impacto da canalização dos lagos, a substituição da vegetação natural, do tráfico viário na rodovia que a atravessa, também representam sérias ameaças à integridade da Estação Ecológica”, 
afirma o relatório. 

A Esec é administrada pelo ICMBio  (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), subordinada ao MMA. Procurados para comentar sobre a fiscalização da área, os órgãos não responderam até o fechamento da reportagem. 

O presidente do ICMBio se demitiu após o ministro Ricardo Salles ameaçar investigar servidores ausentes em um evento com críticos ao órgão e para o qual não foram convidados, em Mostardas (RS). Após a polêmica, a cúpula do instituto foi assumida por militares.

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