África do Sul amplia permissões de caça de rinocerontes ameaçados em tentativa de salvá-los

Medida, que define de forma estrita quais animais podem ser caçados, divide defensores da vida natural

Katie Mettler
The Washington Post

Em nome da conservação, a África do Sul está adotando uma nova política que permitirá a caçadores de troféus matar mais, e não menos, rinocerontes-negros ameaçados, medida que divide defensores da vida natural enquanto a preocupação com a caça ilegal persiste.

Na Convenção sobre Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas, em Genebra (Suíça), delegados do mundo todo votaram na última semana a favor da proposta de caça da África do Sul, que aumenta ligeiramente o número anual de permissões de caça disponíveis ao público e define de forma estrita quais rinocerontes-negros podem ser caçados: machos mais velhos, não reprodutores e agitados.

Atualmente, o país permite que cinco animais sejam abatidos por caçadores de troféus por ano. A nova política mudaria o cálculo de uma cota fixa para 0,5% da população de rinocerontes-negros, o que, segundo números de hoje, equivale a nove machos adultos.

Rinoceronte-negro em zoológico no Reino Unido - Rebecca Naden/Reuters

Embora seja confusa à primeira vista, a lógica da África do Sul é baseada em um precedente. Um aumento nas permissões de caça ajudou a salvar o rinoceronte-branco, segundo relatório da Traffic, organização de monitoramento do comércio de animais silvestres.

Rinocerontes machos velhos podem ser territoriais e interferir no acasalamento de fêmeas com machos mais jovens e viáveis, impedindo o crescimento populacional.

Autoridades do país argumentaram que, ao permitir que os caçadores de troféus visem apenas o subgrupo problemático, a política tem potencial de não só subir as probabilidades de reprodução saudável, mas também de aumentar a receita discricionária com a venda de licenças de caça.

"Aumentar a cota de caça de troféus numa época em que a caça ilegal de rinocerontes na África do Sul é desenfreada pode parecer uma medida precipitada, e a redução da caça indiscriminada deve continuar sendo uma prioridade", afirma Richard Thomas, porta-voz da Traffic. 

"Mas há razões biológicas sólidas para que a remoção cuidadosa e seletiva de machos mais velhos e pós-reprodutores --processo que também pode aumentar os fundos da conservação com a venda dos direitos de caça-- permita que machos mais jovens e vigorosos aumentem o êxito geral da criação e produtividade de uma população."

Mas os céticos da política argumentaram durante a convenção que não há necessidade demonstrável de mais permissões de caça, já que nos últimos anos nem a cota de cinco animais foi alcançada.

A Save the Rhino, organização de conservação contra a caça ilegal, escreveu em seu site que a parte chave da proposta da África do Sul "não é a caça em si, mas os cálculos baseados no tamanho da população". A caça ilegal torna a população de rinocerontes-negros inconsistente, o que pode tornar o sistema de porcentagem complicado, diz o texto.

Hoje há cerca de 5.000 rinocerontes-negros no mundo, sendo quase 2.000 na África do Sul --um aumento de uma população que foi devastada pela caça ilegal por um período de 20 anos. De 1970 a 1992, a população diminuiu 96% em todo o continente africano --de 65.000 para 2.300, de acordo com estatísticas da International Rhino Foundation.
 

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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