Em cúpula do G7, Macron quer convencer potências a agirem pela Amazônia

Alemanha e Reino Unido já mostraram abertura a uma ação colegiada; plano deve eriçar Bolsonaro

Lucas Neves
Paris

A comoção provocada pelos incêndios na Amazônia oferece ao presidente da França, Emmanuel Macron, a chance de arrancar resultados concretos da cúpula do G7, da qual ele é anfitrião, a partir deste sábado (24).

Além de posar na cidade de Biarritz (sul francês) como líder sensível à causa ambiental, ele espera anunciar na segunda-feira (26), ao fim do encontro, iniciativas conjuntas para a crise amazônica.

Alemanha e Reino Unido já mostraram abertura a uma ação colegiada –ainda que o clube dos países industrializados, é bom frisar, seja um fórum, não um órgão executivo.

Se concretizado, o plano deve eriçar o presidente brasileiro. Jair Bolsonaro reclamou da "instrumentalização de uma questão interna do Brasil" e "mentalidade colonialista" nas menções de Macron a uma "crise internacional" e a uma "urgência" que precisaria ser discutida na cúpula do G7, sem o Brasil.

"Nossa casa arde. Literalmente. A Amazônia, o pulmão do nosso planeta, que produz 20% de nosso oxigênio, está em chamas", escreveu Macron duas vezes em uma rede social (com erro, aliás, já que a própria floresta consome quase todo o oxigênio que produz).

À acusação de que havia rompido seu compromisso ambiental, Bolsonaro respondeu ao francês: "Lamento a posição de um chefe de Estado, como o da França, se dirigir ao presidente brasileiro como mentiroso", disse. "Nosso país, verde e amarelo, mora no coração de todo o mundo."

Na sexta (23), uma fonte do governo francês disse à agência Reuters que conselheiros já trabalhavam numa proposta a ser submetida aos chefes de Estado e governo na cúpula.

Em entrevista a um site de seu país publicada na noite de sexta, Macron disse esperar mobilizar seus convidados para uma arrecadação urgente de fundos destinados ao reflorestamento da Amazônia.

Também afirmou que vai debater com eles o desenvolvimento de mecanismos de prevenção de queimadas "muito mais potentes".

Por fim, observou que é preciso "encontrar o que eu chamaria de boa governança da Amazônia", com uma participação mais intensa de povos indígenas e de organizações não governamentais.

"É preciso interromper esse processo de desmatamento industrial [...] em que há um verdadeiro 'ecocídio' Amazônia afora, não só no Brasil", disse o francês. "O presidente brasileiro se esquece. A mais extensa fronteira da França é a da Guiana com o Brasil, então nós estamos [presentes] lá."

Mais cedo, Macron anunciara que proporia aos participantes da cúpula a assinatura de um estatuto sobre a proteção da biodiversidade.

Ele afirmou que pressionaria o presidente americano, Donald Trump, avesso à pauta ambiental, a endossar o documento – o americano, mais tarde, declarou apoio a Bolsonaro em redes sociais e ofereceu ajuda para apagar o fogo.

"Somos todos corresponsáveis por isso, nas escolhas que fazemos ao comprar roupas e comida, na maneira como reciclamos o lixo. O G7 [e o que se decidir ali] é uma coisa, mas nosso comportamento no cotidiano é tão importante quanto", concluiu ele.

Um relatório divulgado em maio deste ano pela Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade mostrou que 1 milhão de espécies animais e vegetais correm risco de extinção por causa das atividades extrativistas humanas.

Também na sexta, o presidente da França disse que não ratificaria o recém-concluído acordo comercial entre União Europeia e Mercosul enquanto o Brasil não respeitasse compromissos ambientais.

Além de Macron, o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, sinalizou disposição em agir para remediar os estragos do fogo na região amazônica. "Os incêndios que agora destroem a floresta tropical não são apenas desoladores, eles constituem uma crise internacional", publicou em uma rede social.

"Estamos a postos para fornecer qualquer auxílio possível para controlá-los e ajudar a proteger uma das maiores maravilhas da Terra."

Mais cedo, uma porta-voz do governo britânico mencionara uma "preocupação profunda" em Londres com a situação na Amazônia.

Em Berlim, um porta-voz da chanceler Angela Merkel destacou a urgência do quadro no Brasil e a pertinência de debatê-lo no âmbito do G7.

"A magnitude das queimadas é preocupante e ameaçadora, não só para o Brasil e outros países afetados, mas para todo o mundo", afirmou.

Atuação conjunta

Em vídeo divulgado neste sábado (24) a horas do início do encontro, Macron reforçou as sinalizações anteriores e pediu que os parceiros do G7 ajam em conjunto pela Amazônia.

"Vocês sabem das discordâncias entre alguns países, especialmente com os Estados Unidos", disse ele. "Mas quero que este G7 seja útil e por isso temos que responder ao apelo do oceano e ao apelo da floresta que está queimando hoje na Amazônia de uma forma muito concreta", declarou.

Com Gustavo Uribe e Talita Fernandes e AFP

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