Descrição de chapéu The New York Times

Morre o controverso antropólogo americano Napoleon Chagnon

Pesquisador desenvolveu teorias genéticas e de evolução relacionadas aos ianomâmis, o que atraiu críticas ao seu trabalho

Cornelia Dean
Nova York | The New York Times

Napoleon Chagnon, um antropólogo cultural cujos estudos do povo indígena ianomâmi, da floresta amazônica, o tornaram famoso mas cujos métodos geraram intensas disputas com outros antropólogos, morreu em 21 de setembro, em Traverse City, no estado do Michigan, aos 81 anos.

Sua morte, em um hospital, foi confirmada por sua neta Caitlin Machak. A causa específica não foi mencionada.

Chagnon se provou controverso em seu uso da genética e da teoria da evolução para explicar o comportamento dos ianomâmis, cujos hábitos os ocidentais consideram como no mínimo exóticos.

Em seu estudo "Histórias de Vida, Vinganças Sangrentas e Guerras em uma População Tribal", publicado pela revista Science em 1988, Chagnon —embora o nome seja francês, a família dele o pronuncia ao modo americano— afirmou que as sociedades tribais não eram tipicamente pacíficas, o que representava uma contestação à posição dominante de sua disciplina quanto a isso.

 
Napoleon Chagnon em proa de barco
O antropólogo Napoleon Chagnon - Chagnon family/The New York Times

Os antropólogos erram, ele escreveu, quando ignoram provas de que a agressão é tão fortemente recompensada, para os homens das sociedades tribais, que ela se torna um traço hereditário.

A vida dos ianomâmis envolvia "guerra incessante", escreveu o antropólogo. Os dados que ele recolheu ao longo de décadas, disse Chagnon, mostravam que 44% dos homens ianomâmis com mais de 25 anos de idade haviam participado da morte de alguém, que 25% dos homens ianomâmis eram mortos por outros homens ianomâmi, e que os homens que matavam eram mais respeitados e tinham mais mulheres e filhos do que os homens que não matavam.

Chagnon descartava como "marxista" a crença generalizada entre os antropólogos de que a guerra na vida tribal era provocada em geral por disputas sobre acesso a recursos escassos.

"O propósito e desenho da estrutura social tribal parece ter girado efetivamente em torno do controle do acesso sexual dos homens a mulheres núbeis em idade reprodutiva", ele escreveu em "Noble Savages" ("Nobres Selvagens: minha vida entre duas tribos perigosas - os ianomâmis e os antropólogos", publicado no Brasil pela Três Estrelas, selo editorial do Grupo Folha), seu livro de memórias publicado em 2014.

Outros antropólogos rejeitavam essas afirmações como exageradas e até mesmo racistas, afirmando que poderiam prejudicar a tribo ao retratá-la sob uma luz desfavorável. Muitos argumentavam que era mais exato explicar o comportamento humano não pela genética e evolução, e sim pelos ambientes naturais e sociais em que as pessoas vivem.

Mas Chagnon mesmo assim encontrou uma audiência ampla para suas opiniões. "Yanomamö: The Fierce People", um estudo etnográfico que ele publicou em 1968 e foi transformado em manual didático, costuma ser descrito como o livro de antropologia mais vendido de todos os tempos.

Em outros livros e em entrevistas ele descreveu suas pesquisas na Amazônia em termos aventurosos, falando sobre cobras ameaçadoras, onças e homens armados com flechas com pontas de madeira.

Ele passava meses a cada ano em visitas aos ianomâmis e aprendeu a se comunicar com eles. Membros da tribo o apelidaram de Shaki, que sua neta Machak traduz como "abelha incômoda" —alcunha que ele conquistou, ela disse, porque estava sempre incomodando as pessoas com perguntas. Seus amigos e colegas o conheciam como Nap.

À medida que o trabalho de Chagnon passou a receber mais e mais atenção, começou a atrair críticas cada vez mais severas de pessoas dispostas a discutir praticamente tudo que ele afirmava, até mesmo sua grafia do nome da tribo, "yanomamö".

O ataque mais sério surgiu em 2000, no livro "Darkness in El Dorado: How Scientists and Journalists Devastated the Amazon" [escuridão no Eldorado: como cientistas e jornalistas devastaram a Amazônia], do jornalista Patrick Tierney, que acusou Chagnon e um colega de ampla variedade de delitos, entre os quais agravar uma epidemia de sarampo na tribo para testar suas teorias genéticas e de fornecer aos ianomâmis armas que elevaram o nível de violência.

Alguns colegas antropólogos saíram em defesa de Chagnon. As acusações de Tierney eram "mentiras", disse Raymond Hames, professor de antropologia na Universidade do Nebraska em Lincoln, que estudou com Chagnon e muitas vezes trabalhou com ele em pesquisas de campo. Em entrevista por telefone, Hames disse que, longe de encorajar o surto, Chagnon levou vacinas à selva na esperança de impedir a doença.

E, recordou Hames, embora Chagnon "na prática introduzisse" itens que tornariam a vida dos ianomâmis mais fácil, tais como facões e machados de aço e panelas de alumínio, ele instruiu Hames a não lhes fornecer nada relacionado às espingardas que os pesquisadores levavam à selva.

"Nap disse que eu não deveria nem dar os chumbinhos para usar como pesos nas linhas de pesca", disse Hames.

Outros antropólogos também contestaram as acusações do livro de Tierney, que teve trechos publicados pela revista The New Yorker. Mas a Associação Antropológica Americana decidiu que as questões quanto ao trabalho de Chagnon mereciam investigação e em 2002 divulgou um relatório no qual criticava suas descrições dos ianomâmis e de suas relações com certos membros de governos.

Em 2005, porém —sem comentar os méritos das críticas—, a associação rescindiu o relatório, afirmando que a maneira pela qual a investigação foi conduzida não satisfazia seus padrões.

Em 2012, Chagnon foi eleito para a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, a mais prestigiosa organização científica do país —uma honraria que seus defensores celebraram como um desagravo.

Napoleon Alphone Chagnon nasceu em 17 de agosto de 1938 em Port Austin, Michigan, o segundo mais velho entre os 12 filhos de Rollin e Mildred Elizabeth (Cavanaugh) Chagnon. O pai dele era dono de uma funerária e sua mãe era dona de casa.

Ele se matriculou no Michigan College of Mining and Technology com o plano de estudar física, mas depois do primeiro ano se transferiu para a Universidade de Michigan, onde descobriu cursos de antropologia cultural. "Fiquei fascinado", ele disse em uma entrevista de 2014 publicada pela revista acadêmica Proceedings of the National Academy of Sciences.

Ele fez seu mestrado e doutorado no Michigan enquanto sua mulher, Carlene (Badgero) Chagnon cuidava do filho e filha do casal.

Chagnon começou suas pesquisas na Amazônia quando era aluno de pós-graduação, em 1964, e viajou à região de fronteira entre o Brasil e a Venezuela em uma expedição de 17 meses ao território dos ianomâmis na selva.

Em um email, sua filha, Lisa Chagnon Cheponis, recordou uma das primeiras viagens de pesquisa nas quais a família viveu em companhia dos ianomâmis. Chagnon construiu um abrigo de barro para sua família, ela disse, e "os membros da tribo entravam e saíam de lá livremente para nos ver, porque nós os fascinávamos, com nossas estranhas peles pálidas e roupas".

Chagnon por fim decidiu que sua família teria de deixar a selva, disse a filha dele, em parte porque os homens da tribo informaram ao antropólogo que "queriam trocar alguma coisa por mim e me manter lá".

Chagnon lecionou na Universidade de Michigan e na Universidade Estadual da Pensilvânia, na Universidade Northwestern e na Universidade da Califórnia em Santa Barbara, onde se aposentou em 1999. Depois de sua eleição para a Academia Nacional de Ciências, ele foi apontado para o posto de professor de pesquisa de antropologia na Universidade do Missouri, cargo que manteve até alguns meses atrás.

Além da mulher, da filha e da neta, Machak, Chagnon, que morava em Traverse City, deixa um filho, Darius; quatro outros netos; e três netos adotivos.

Machak é cineasta e disse que estava trabalhando com a Smithsonian Institution para arquivar e preservar anos de filmes que seu avô registrou na Amazônia, alguns dos quais ainda são considerados como clássicos do cinema antropológico. 

Tradução de Paulo Migliacci

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