Óleo se espalha por rios e mangues e ameaça vilas da Bahia e de Sergipe

Folha percorreu oito praias em cinco cidades do litoral do Nordeste; moradores temem o fim da pesca

Praia de Sítio do Conde, na Bahia, sofre com a chegada de óleo

Praia de Sítio do Conde, na Bahia, sofre com a chegada de óleo Raul Spinassé/Folhapress

João Pedro Pitombo
Bahia e Sergipe

“Foi Deus quem fez esse óleo para lubrificar os eixos da Terra. O homem inventou de mexer e ele veio dar aqui na praia para matar nossos peixes”, diz o pescador Givaldo Batista dos Santos, 57, 

Em cima de um barco de fibra de vidro, ele olha para o horizonte enquanto percorre o Itapicuru, rio que nasce no sertão e deságua quase na fronteira entre Bahia e Sergipe.

A paisagem é paradisíaca: o rio encontra com o mar em meio a mangues e coqueirais na praia de Siribinha, pequena vila de 500 moradores no município de Conde (181 km de Salvador).

Mas há um elemento estranho entre conchas e caranguejos nas margens do mar e do rio: o mesmo óleo que já atingia praias de oito estados do Nordeste chegou com força no litoral baiano.

A Folha visitou oito praias em cinco cidades do litoral da Bahia e Sergipe e encontrou um cenário desolador. Nas pequenas vilas que se espalham nas margens das praias, moradores vivem um misto de impotência, raiva e revolta.

A presença de óleo já foi registrada em 139 praias de 63 municípios nordestinos, segundo o Ministério do Meio Ambiente. E, aos poucos, começou a entrar em rios como o Itapicuru, o Vaza-barris e até mesmo o São Francisco, atingindo estuários que são berçário de espécies de plantas e animais.

Em Conde, na Bahia, o óleo se espalha pelas praias de Siribinha, Poças e Sítio do Conde. Nessa última, o material viscoso acumulou-se entre as pedras formando poças com mais de um metro. Águas-vivas mortas foram encontradas na faixa de areia e animais como garças, patos e cachorros sujaram-se de óleo.

Em Siribinha, as manchas chegaram nas margens dos rios, nos manguezais e nas patas dos siris e caranguejos. Até o momento, nenhum tipo de contenção foi feita na foz do rio Itapicuru, a despeito dos moradores terem participado no início deste ano de um treinamento para ajudar em uma possível operação de isolamento do rio.

Receosos, os pescadores não vão ao mar desde a última sexta-feira (4), quando o óleo começou a chegar à região. E temem pelo futuro da pesca e da mariscagem, principal atividade de cerca de 2.000 moradores do balneário.

“Com esse tanto de óleo, ninguém vai querer comer o peixe da nossa região. É a nossa sobrevivência que está em jogo”, afirma Givaldo Batista, que é presidente da Colônia de Pescadores de Sítio do Conde.

Até mesmo a pesca de subsistência tem sido evitada diante do risco de contaminação. “Sem peixe, nós vamos comer de quê? Pirão de betume?”, reclama a pescadora Maria da Josefa dos Santos, 35.

Mesmo com os riscos, ainda há quem se arrisque ir para a beira do mar e tentar o peixe de cada dia. Na praia do Viral, que fica em uma área isolada na saída de Aracaju, um grupo de sete pescadores usou uma rede de arrasto para trazer os peixes para a faixa de areia.

Mantiveram a rotina a despeito do cenário dantesco da praia: toneladas de óleo se espalhavam pela areia, criando uma faixa negra quase contínua na beira do mar. 

Além da pesca, o turismo é uma das principais fontes de renda do litoral nordestino e também tem sido diretamente afetado pela chegada das manchas. Em pousadas de Sítio do Conde, visitantes que viriam para o feriado de 12 de outubro cancelaram suas reservas.

Em Baixios, vila no município de Esplanada que tem sido alvo de grupos hoteleiros, pousadas e restaurantes temem uma debandada de turistas, caso o óleo chegue com mais força.  

A região chegou a ser atingida, mas as manchas foram retiradas por funcionários da prefeitura. O temor é de que elas voltem nas próximas semanas. “Estamos a mercê da natureza, das correntes marítimas”, afirma Peperdigno Araújo, gerente de uma pousada.

Na Praia do Forte, balneário mais badalado do litoral norte da Bahia, pequenas poças de óleo têm sido encontradas na faixa de areia desde terça-feira (8). 

A situação da praia, contudo, ainda é melhor do que a de outras da região. Por isso, ainda está sendo usada para a soltura de filhotes de tartarugas marinhas. Na manhã de quarta-feira (9), filhotes foram trazidos de carro da cidade de Conde, a 105 quilômetros, para serem soltos no local.

Mas há apreensão quanto à possível chegada de mais óleo. “Temos mais de mil desovas com tartarugas na iminência de nascer. Se uma delas entrar em uma mancha desta, pode acabar morrendo”, diz Neca Marcovaldi, da Fundação Pró-Tamar.

Nesta quinta-feira (10), as manchas continuaram a avançar no sentido sul e já chegaram às praias de Guarajuba e Arembepe, dois balneários movimentados no litoral e Camaçari. Banhistas também informaram pequenas manchas no mar da praia do Flamengo, em Salvador.

A Marinha do Brasil está investigando as causas das manchas.

Uma análise feita pela Petrobras e outra realizada pela Universidade Federal da Bahia apontam que o óleo tem origem na Venezuela. O governo da Venezuela negou nesta quinta-feira que seja responsável pelo petróleo derramado.  

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