Para criador do Corredor Triplo A na Amazônia, preservação se sobrepõe à soberania brasileira

Antropólogo Martin von Hildebrand diz que projeto temido por Bolsonaro ganhou publicidade graças ao presidente

Patrícia Campos Mello
Medellín

Não se pode simplesmente invocar a soberania brasileira sobre a Amazônia para rechaçar críticas a políticas ambientais, como vem fazendo o presidente Jair Bolsonaro, porque a floresta amazônica funciona como a bomba d’água de todo o continente sul-americano, garantindo as chuvas desde Roraima até a Argentina.

Quem diz isso é o antropólogo Martin von Hildebrand, que idealizou o projeto que se transformou num grande bicho-papão dos militares e de Bolsonaro: o Corredor Triplo A.

Trata-se de um corredor ecológico-sociocultural que une os Andes, a Amazônia e o Atlântico (daí os três As), atravessando oito países e protegendo um terço da Amazônia ao conectar as diversas áreas de preservação. Dessa maneira, haveria maior articulação entre povos indígenas e entidades de proteção dos diversos países para recuperar a conectividade entre as áreas.  

 

“Soberania não é isolamento, soberania é solidariedade. Todos os países precisam usar suas capacidades e políticas para proteger a Amazônia”, disse à Folha Hildebrand, 76, um americano naturalizado colombiano que trabalha há 50 anos na Amazônia com demarcação de terras indígenas e áreas de preservação. “Ao dizer que a vida da floresta pertence a todo o planeta não estamos dizendo que a terra do Brasil é de todo o planeta. Há autonomia do Brasil sobre seu território, mas o governo tem de ser solidário, não se isolar.”

O projeto foi encampado em 2015 pelo então presidente colombiano Juan Manuel Santos. E, no Brasil, o então ministro do meio Ambiente, Sarney Filho, lançou em 2016 o projeto Corredores Ecológicos, que se integrava ao Corredor Triplo A.

Martin von Hildebrand no Fórum Econômico Mundial de 2016
Martin von Hildebrand no Fórum Econômico Mundial de 2016 - Divulgação

Para Bolsonaro, o Triplo A é a mais perfeita encarnação da tentativa de ONGs estrangeiras, mancomunadas com brasileiras, de invadir a Amazônia.

“Gigantesco 'corredor ecológico' de 130 milhões de hectares é a nova ameaça à soberania brasileira na Amazônia. Sob o pretexto de 'deter mudanças climáticas' escondem-se interesses mundiais na mais rica região do mundo”, escreveu Bolsonaro no Twitter em 2015.

Em novembro de 2018, o então presidente-eleito Bolsonaro quase tirou o Brasil do Acordo do Clima de Paris, alegando que o tratado incluía o Corredor Triplo A. “Até porque está em jogo o Triplo A nesse acordo. O que é o Triplo A? É uma grande faixa que pega do Andes, a Amazônia e Atlântico, de 136 milhões de hectares, que poderá fazer com que percamos a nossa soberania nessa área”, disse Bolsonaro. O Acordo de Paris não inclui o corredor Triplo A.

Hildebrand afirma que tudo isso não passa de teoria da conspiração.

“O governo brasileiro e Bolsonaro estão usando qualquer coisa, seja o Triplo A, o presidente Emmanuel Macron ou a ativista Greta Thunberg, para lançar acusações de violação da soberania brasileira e inventar inimigos do Brasil”, disse Hildebrand, que é diretor-fundador da Fundação Gaia Amazonas.

Segundo ele, a melhor maneira para um inimigo acabar com o Brasil é acabar com a água. “E como se faz isso? Com uma máquina de matar nuvens. Se eu corto as árvores, não há evapotranspiração, não há rios voadores, não há chuva, não há água. E o Brasil foi atacado por um inimigo terrível: Bolsonaro e a política de seu governo.”

Segundo o antropólogo, Bolsonaro fez um favor aos ambientalistas ao transformar o chamado “Corredor Triplo A” em bicho-papão. “Ninguém fez tanta publicidade do projeto como Bolsonaro. Se não fosse por ele, só um grupo pequeno de ambientalistas conheceria a iniciativa”, disse. “E também nos fez outro favor: ele já mostrou suas cartas. Há muitos governos que pensam como ele, talvez não de forma tão extrema, mas não revelam, ficam se maquiando de ‘verdes’”.

Ele afirma que a ideia do corredor é ampliar o que cada país já fez. “A partir da política de cada país, da autonomia e soberania de cada país, façamos um esforço conjunto para poder conectar essas áreas protegidas.”

E admite que não se trata de empreitada fácil, dadas as resistências dos governos, mas diz que o projeto avança com a sociedade civil. “Temos uma aliança de ONGs de todos os países, um sistema de tomada de decisões e um plano estratégico. Governos não estão envolvidos diretamente neste momento, mas o fato é que os governos passam e a agenda ambiental está ganhando cada vez mais força.”

Hildebrand ecoa o governo Bolsonaro ao reconhecer que os incêndios que afetaram a Amazônia brasileira e boliviana nas últimas semanas não são novos nem mais graves ou maiores que os de 2005, quando houve uma ação forte do El Niño.

Mas, segundo ele, desta vez houve uma “tempestade perfeita”: o relatório do IPCC traçando um cenário muito alarmante de que temos apenas 12 anos para impedir a savanização da Amazônia; o grande impulso do movimento ambiental na Europa, simbolizado pela ativista sueca Greta Thunberg, e o presidente Bolsonaro adotando abertamente políticas que prejudicam o meio ambiente, dando sinal verde a pecuaristas, grileiros, desmatadores e desautorizando o Ibama.

“O grande problema é a acumulação do desmatamento. Se chegarmos a um desmatamento de 25% da Amazônia, será irreversível. No momento, estamos em 20%.”

A jornalista viajou a convite do Festival Gabo

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