Até que ponto você deve se sentir culpado pelos gases-estufa de seus voos?

Maior parte da emissão de poluentes por aviões está relacionada a pequeno grupo de viajantes frequentes

Hiroko Tabuchi Nadia Popovich
Nova York | The New York Times

Os suecos usam a expressão “flygskam”, ou “vergonha de voar”, para um movimento que encoraja as pessoas a deixarem de viajar de avião a fim de reduzir seu impacto sobre o meio ambiente.

Mas será que a maioria dos americanos deveria mesmo sentir vergonha por tomar um avião para visitar a vovó durante os feriados?

A resposta resumida é: provavelmente não. No entanto, se os voos que você realiza são puramente um luxo, é hora de repensar.

Um pequeno grupo de viajantes frequentes, os 12% dos americanos que fazem mais de seis viagens aéreas de ida e volta por ano, responde por dois terços de todas as emissões de poluentes relacionadas ao transporte aéreo, e, com isso, por dois terços das emissões de poluentes geradas pelo setor de aviação, segundo uma nova análise do Conselho Internacional para o Transporte Limpo, uma organização de pesquisa sem fins lucrativos.

Avião no ar com cidade de Nova York ao fundo
Os 12% dos americanos que fazem mais de seis viagens aéreas de ida e volta por ano respondem por dois terços de todas as emissões de poluentes relacionadas ao transporte aéreo - George Etheredge/The New York Times

Cada um desses viajantes emite em média mais de três toneladas de dióxido de carbono ao ano, uma quantidade substancial, especialmente ante os padrões mundiais. E os viajantes mais frequentes, aqueles que realizam mais de nove viagens de ida e volta a cada ano, respondem pela maior proporção dessas emissões.

Se todos os americanos voassem mais de seis vezes por ano, o uso de combustível de aviação aumentaria em cerca de 600%, e os aviões ultrapassariam facilmente os carros de passageiros como maior fonte de emissões de dióxido de carbono, estima o Conselho Internacional Para o Transporte Limpo.

“O clima do planeta simplesmente não tem como tolerar voos frequentes por proporção muito grande da população”, disse Dan Rutherford, que dirige o programa de aviação do conselho. “Temos de determinar, em cada dado nível e coletivamente, quais voos são necessários e quais constituem luxo.”

Voar não é grande parte do impacto dos americanos sobre o ambiente. Na verdade, cerca de metade dos americanos não voam. Um terço deles voa até cinco vezes por ano, e responde por cerca de um terço das emissões totais de poluentes.

Isso significa que a maioria dos americanos deveria se preocupar mais com as emissões de poluentes relacionadas ao uso de carros ou ao aquecimento e refrigeração de suas casas.

Os dados oferecem um quadro mais claro sobre quem é responsável pelas emissões causadas pelo transporte aéreo nos Estados Unidos, que respondem, por cerca de um quarto das emissões mundiais de poluentes do setor de aviação, o maior total entre todos os países do planeta.

Uma observação: porque tantos americanos não fazem viagens aéreas, as emissões de poluentes per capita dos Estados Unidos ficam muito abaixo das registradas por outros países desenvolvidos como Cingapura, Finlândia e Islândia, e ocupam o 11º posto do ranking. E parte do crescimento recente vem acontecendo em países em desenvolvimento com a China e a Índia, onde a renda está crescendo e a probabilidade de que a classe média faça viagens aéreas vem aumentando.

As emissões de poluentes por empresas de aviação poderiam ser reduzidas caso o consumo de combustível dos aviões fosse menor, é claro. Fabricantes de aviões como a Boeing e a Airbus estão competindo para reduzir o consumo de combustível de seus modelos.

O problema é que as viagens aéreas vêm registrando crescimento muito mais rápido que o avanço da eficiência dos aviões em termos de consumo de combustível, o que mais do que compensa os avanços nesse sentido. Enquanto isso, a adoção de combustíveis com menor teor de carbono, capazes de reduzir as emissões de poluentes, como os biocombustíveis, é lenta.

Por causa disso, as emissões de poluentes associadas a viagens aéreas estão crescendo mais rápido do que o previsto em projeções anteriores. A aviação civil do planeta respondeu pela emissão de 918 milhões de toneladas de dióxido de carbono em 2018, o equivalente às emissões nacionais combinadas da Alemanha e Holanda.

Assim, o que se pode fazer para reduzir os vos frequentes?

Uma ideia, proposta por uma organização britânica chamada A Free Ride, é tributar os passageiros de maneira progressiva. O primeiro voo anual de cada passageiro ficaria isento de impostos, e uma alíquota baixa seria cobrada pelo segundo. As alíquotas aumentariam a cada voo adicional por ano.

“Não estamos tentando impedir as pessoas comuns de aproveitarem suas merecidas férias”, disse Leo Murray, o fundador da organização. “As férias anuais da família não são a causa do problema. Temos a capacidade de enfrentar a mudança no clima sem mexer nas férias das pessoas”, ele disse. “Estamos falando sobre um grupo pequeno e rico de viajantes aéreos.”

Este mês, uma comissão sediada no Reino Unido recomendou acabar com os programas de milhagem e fidelidade das companhias de aviação, para que as empresas não “incentivem voos excessivos’. O relatório menciona dados que demonstram que os viajantes frequentes “tendem fortemente a ser mais ricos e menos sensíveis aos preços” e recomenda que eles “deveriam incorrer em tributação cada vez mais forte a fim de desencorajar voos adicionais”.

Organizações setoriais se opõem, a esse tipo de medida. “As companhias de aviação dos Estados Unidos têm o compromisso de reduzir as emissões de poluentes ainda mais”, disse Carter Yang, porta-voz da Airlines for America, uma organização setorial. ”Esse esforço seria prejudicado, e não beneficiado, por propostas que removeriam dos cofres públicos os fundos necessários a continuar investindo em novos aviões, mais eficientes em termos de consumo de combustível, combustíveis de aviação sustentáveis” e outras inovações, ele disse.

É claro que muitas pessoas precisam voar frequentemente por motivos de trabalho. Viagens de negócios respondem, por cerca de 30% dos trajetos aéreos nos Estados Unidos, de acordo com dados da Airlines for America.

Mas algumas empresas estão começando a questionar se todas essas viagens são de fato necessárias, na era do email, Slack e teleconferências. Na Europa, há companhias que concedem férias adicionais a empregados que optem por fazer suas viagens de férias de trem ou usando outros meios de transporte menos poluentes.

O relatório da comissão britânica também recomenda que as companhias de aviação sejam compelidas a revelar dados sobre emissões para cada voo, da mesma forma que muitos restaurantes informam os valores calóricos dos pratos de seus cardápios, para que os viajantes possam realizar escolhas informadas.

As companhias de aviação menos eficientes queimam entre 26% e 60% mais combustível do que as mais eficientes, em voos comparáveis, de acordo com pesquisas do Conselho Internacional Para o Transporte Limpo.

Por enquanto, mesmo os viajantes frequentes podem tentar minimizar seu impacto ambiental ao escolher rotas operadas por aviões mais novos. Eles podem optar por rotas operadas pelo A320neo, um modelo de consumo mais baixo de combustível introduzido pela Airbus em 2010.

Também deveriam ter em mente que uma passagem de primeira classe pode gerar muito mais emissões do que uma passagem de classe econômica, por conta das cabines mais espaçosas. Os viajantes também podem optar por compensar as emissões de poluente de seus voos.

E é claro que também podem pensar duas vezes se precisam realmente voar pela nona vez este ano.

Tradução de Paulo Migliacci

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