Emissões de gases-estufa ligadas ao desmatamento crescem 3,6% no Brasil

Entre 2017 e 2018, destruição na Amazônia cresceu 14%

São Paulo

As emissões brasileiras de gases-estufa ligadas ao desmatamento cresceram 3,6% em 2018. Entre 2017 e 2018, o desmatamento da Amazônia cresceu cerca de 14% e alcançou o maior valor desde 2008, o que fez o país patinar no objetivo de reduzir as emissões de gases do efeito estufa.

Os dados do Seeg (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa), projeto do Observatório do Clima, que reúne 47 organizações da sociedade civil, foram divulgados na manhã desta terça (5), em São Paulo.

No total, puxadas pelo desmatamento relacionado ao agronegócio, as emissões brasileiras entre 2017 e 2018 tiveram um leve aumento de 0,3%.

Sozinho, o setor do agronegócio respondeu por 69% das emissões do país em 2018. Levando-se em conta o período de 1990 até 2017, o agronegócio responde por cerca de 80% das emissões brasileiras.

Considerando somente a atividade agropecuária —que responde por emissões relacionadas a gases relativos à fermentação entérica (com a produção de metano na digestão de animais ruminantes), o manejo dos dejetos animais (que também produzem metano) e até mesmo o cultivo de arroz em áreas inundadas—, houve diminuição de 0,8% nas emissões. ​

O problema é que no Brasil a agropecuária ainda encontra-se associada ao desmatamento (o que no inventário de emissões aparece como mudança de uso da terra). E, nessa área, as emissões subiram pouco mais de 3%.

Gado bovino da raça Wagyu
Gado bovino da raça Wagyu - Código19/Folhapress

Tal aumento, de cerca de 6 milhões de toneladas de carbono equivalente, já era esperado, considerando os dados mais recentes de desmatamento, que mostram aumento em cerca de 14% e o maior valor desde 2008, com a derrubada de 7.900 km² de floresta, segundo o Prodes, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

Em 2018, o Ministério do Meio Ambiente associou o aumento da destruição a mudanças políticas, câmbio favorável ao agronegócio (o que estimula derrubada de mata para abertura de novas áreas para produção) e seca, o que leva ao aumento das queimadas.

O inventário de emissões anterior do Seeg (relativo ao ano de 2017) mostrava redução das emissões puxada pela diminuição no desmate.

A análise dos dados históricos, segundo Tasso Azevedo, coordenador-técnico do Observatório do Clima e do Seeg, mostra que, ao se retirar as mudanças de uso da terra do cálculo, as emissões cresceram até 2014, momento a partir do qual começa um período de queda, o que pode ser associado ao período de recessão no Brasil.

Com o aumento do desmatamento em 2019, é possível esperar um cenário mais pessimista para as emissões que serão anunciadas no ano que vem.

Na Política Nacional sobre Mudança do Clima, de 2009, o Brasil fez o compromisso de reduzir, até 2020, suas emissões em 36% a 39%.

Os pesquisadores do Seeg projetaram as emissões para 2020 e, mesmo considerando a tendência de aumento do desmatamento apontada pelos dados do Deter, do Inpe, o Brasil deve chegar perto de cumprir sua meta.

O mesmo não deverá ocorrer com a meta de redução de 80% do desmatamento na Amazônia (em relação à média entre os anos de 1996 a 2005), que, pelo que indicam os dados do Deter, provavelmente não será cumprida.

As taxas de desmatamento cresceram acentuadamente em diversos meses deste ano. Em junho, o desmate cresceu 90% em relação ao mesmo mês do ano anterior. Em julho, o aumento foi de 278%. Agosto teve crescimento de 222%, e setembro de 96%.

A situação das queimadas no país —que, segundo estudo do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), se concentram em propriedades privadas e em florestas públicas não destinadas, onde tanto desmate quanto uso de fogo é ilegal— também chamou a atenção nos últimos meses. Até 1º de setembro, o número de queimadas no Brasil bateu o recorde dos últimos nove anos, com concentração na Amazônia. 

As queimadas ganharam destaque internacional e o governo Jair Bolsonaro (PSL) enfrentou críticas pelo modo como lida com a questão ambiental.

Para controlar a situação, o presidente assinou um decreto de GLO (Garantia da Lei e da Ordem) que autorizava uso das Forças Armadas para combater os incêndios e outro que criava uma moratório de queimadas na Amazônia por dois meses.

A atitude parece ter surtido efeito. O número de queimadas em outubro foi o menor para o mês desde 1998.

As informações do Seeg mostram também crescimento de emissões associadas aos setores de processos industriais (como indústria química, produção de metais, e emissão de hidrofluorcarbonos, os HFCs) e resíduos, com aumento de 1,3% e 1,5% respectivamente.

Enquanto isso, o setor de energia teve diminuição de 5% nas emissões.

Segundo Felipe Barcellos e Silva, analista de projetos do Iema (Instituto de Energia e Meio Ambiente), a redução de emissões de gases-estufa no setor de energia está ligada ao crescimento no uso de etanol para transporte, à adição obrigatória de biodiesel ao diesel e também ao aumento da participação de fontes renováveis na geração de energia no Brasil e diminuição da atividade de termelétricas a combustíveis fósseis.

Além do aumento da geração em hidrelétricas, em 2018, pela primeira vez, fontes de energia eólica, solar e térmicas à biomassa ocuparam a segunda posição no ranking de geração de eletricidade.

O peso do desmate nas emissões brasileiras fica mais claro ao se observar os estados líderes em gases-estufa.

Em 2018, o Pará, que lidera a lista, emitiu 237.781.584 milhões de toneladas de carbono equivalente (CO2e, unidade que agrupa e soma todos os gases que podem provocar a intensificação do aquecimento global), o que representa 12% do total de gases brasileiros. A segunda colocação é de Mato Grosso, com 231 milhões de toneladas de CO2e.

Caso a mudança no uso de terra (em linhas gerais, desmatamento), não seja levada em conta, o Pará pula para a 8ª posição no ranking e o Mato Grosso para a 4ª. No primeiro, sem levar em conta o uso da terra, as emissões diminuem 78%. No segundo, 68%.

Nos dois estados, a atividade agropecuária em si é a segunda maior fonte de emissões.

No setor agropecuário, as emissões documentadas nos últimos inventários têm caído, principalmente pela redução do rebanho no país, provocada pelos aumentos do consumo de carne e da exportação --que vem batendo recordes.

A lógica é que quanto menor o rebanho no campo, menor são as emissões relacionadas ao setor.

Mas tal tendência de redução de emissões na atividade não é uniforme no país. Enquanto ela ocorre em estados do Sudeste e parte do Centro-Oeste, nos do Norte há aumento, o que está ligado ao aumento do número de cabeças de gado, segundo Ciniro Costa Junior, da ONG Imaflora.

A diminuição das emissões de gases de efeito estufa faz parte dos compromissos assumidos pelos países no Acordo de Paris. Bolsonaro chegou a ameaçar sair do acordo, da mesma forma que o presidente americano Donald Trump. Depois, o mandatário brasileiro recuou. 

Trump, por outro lado, deu início, na segunda (4), à formalização da saída americano do acordo, que é a iniciativa global central na tentativa de frear as mudanças climáticas. Para isso, criou-se o compromisso de manter o aquecimento da Terra abaixo de 2°C (em relação à era pré-industrial) até o fim do século, tentando limitá-lo a 1,5°C.

O inventário de emissões de 2018 teve participação de pesquisadores das ONGs Ipam, Imazon, Imaflora, Iema (Instituto de Energia e Meio Ambiente) e Iclei (Governos Locais pela Sustentabilidade).

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