Parte de óleo recolhido em praias do Nordeste vai virar cimento e carvão

Estados tomam iniciativa própria sobre destinação do material retirado de praias

Marcel Rizzo
Fortaleza

As dez toneladas do óleo que apareceram nas praias do Ceará desde o início de setembro se transformaram em combustível alternativo para a fabricação de cimento. Na Bahia, testes realizados por pesquisadores na UFBA (Universidade Federal da Bahia) já transformaram alguns quilos de óleo em carvão que poderia ser usado em asfaltamento. 

Em Pernambuco, mais de 1,6 mil toneladas do produto foram enviadas para o Ecoparque Pernambuco, empresa privada especializada em tratamento e destinação final de resíduos sólidos. A ideia é que esse material, no futuro, se transforme em combustível para cimenteiras.

Essas são algumas das alternativas já encontradas para o descarte do material que, segundo o Ibama, já afetou mais de 500 locais nos noves estados do Nordeste e no Espírito Santo. A origem do óleo ainda é desconhecida.

A orientação do Ibama é que as prefeituras das cidades atingidas cuidem do armazenamento do óleo por ora —posteriormente, deverá ser feita uma avaliação sobre a quantidade do material e a melhor destinação, como aterro para produtos perigosos ou incineração em fornos de cimenteiras. Não há, porém, restrição de que já seja feito esse envio a cimenteiras que tenham licença para realizar o procedimento, caso do Ceará.

No estado, a Semace (Superintendência Estadual do Meio Ambiente) decidiu fazer uma parceria com uma cimenteira para o descarte do óleo. Até agora dez toneladas foram enviadas à fábrica da empresa em Quixeré, cidade a 180 km de Fortaleza. 

A Semace é a responsável pelo recolhimento do material. Na última semana, por exemplo, coletou óleo de uma das praias mais frequentadas por turistas no litoral cearense, a de Cumbuco, em Caucaia (região metropolitana de Fortaleza).

A transformação do petróleo em combustível alternativo é realizada por meio de coprocessamento, uma tecnologia de destinação final de resíduos em fornos de cimentos. Segundo João Butkus, diretor Industrial da Apodi, a empresa responsável pelo processo, todo o material coletado serve como combustível alternativo porque tem poder calorífico e é capaz de substituir os combustíveis tradicionais. “Essa é a melhor solução para destinação ambientalmente correta desses materiais”, afirma Butkus.

Em outubro, a ABCP (Associação Brasileira de Cimento Portland) emitiu nota informando o interesse do setor em receber óleo recolhido para transformação em matéria-prima e combustível alternativo. 

Na Bahia, o Instituto de Química da UFBA elaborou uma técnica para transformar o óleo encontrado nas praias em carvão. Nesse caso, não há ajuda governamental para o envio de material até a universidade nem uma estrutura, como a de uma empresa, para que uma grande quantidade do resíduo tenha a estrutura modificada. O processo foi feito em pequena escala.

"Nossa especialidade é fazer fertilizantes orgânico composto a partir de resíduos de comida ou da casca do coco verde. Com essa fatalidade, resolvemos testar se o óleo encontrado se degradava, e conseguimos uma degradação de 80%”, disse a professora Zenis Novais da Rocha, responsável pelo projeto.

Parte do material usado por pesquisadores veio da Prefeitura de Salvador, após pedido, mas a maioria chegou por meio de voluntários. A própria pesquisadora foi à praia de Ondina, na capital baiana, e recebeu baldes cheios do material.

"Bioativadores criados aqui no instituto aceleram a degradação da matéria orgânica, e o petróleo é degradado e transformado em carvão. A ideia é que esse carvão possa ser utilizado por empresas como as cimenteiras ou até mesmo para asfalto", diz Rocha.

Em Salvador, o óleo prioritariamente tem sido armazenado na Limpurb (Empresa de Limpeza Urbana), seguindo as orientações do Ibama.

Em nota, o Ibama informou que o material encontrado em cada uma das praias é afastado da faixa de areia sob influência da maré e está sendo acondicionado em recipientes apropriados, de forma a evitar quaisquer contaminações em solo ou subsolo. Os resíduos não podem ser colocados em lixo comum.

O órgão também afirma que parte deste material foi recolhido para a Petrobras e outra parte para empresas de tratamento de resíduos dos governos estaduais e municipais atingidos pelo óleo.

No entanto, reportagem da Folha de outubro apontou que em muitas praias os sacos com óleo recolhido de praias foram armazenados a céu aberto e abandonados e que faltavam informações sobre a destinação correta aos voluntários que trabalham na retirada do material.

Um profissional que acompanhou os trabalhos de limpeza e preferiu não se identificar disse que viu o óleo coletado em Cabo de Santo Agostinho (PE) ser enterrado, com ajuda de um trator, em um buraco na praia afastado do mar. 

A reportagem também ouviu relatos de que muitos sacos de plástico com óleo se rasgaram e despejaram o material no solo.

Um porta-voz da Marinha afirmou que, apesar da atuação do Ibama, os estados estavam buscando caminhos próprios.

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