Turista mantém viagem ao Nordeste, mas troca o peixe pela carne de sol

Piscina é opção a praias com óleo; comerciantes sentem movimento cair, e recuperação é lenta

João Valadares João Pedro Pitombo
Recife e Salvador

A chegada de manchas de óleo nas praias do litoral nordestino desde o dia 30 de agosto mudou os hábitos dos turistas.

Em boa parte dos locais atingidos com maior intensidade pelo petróleo, os mergulhos de mar foram trocados por banhos de piscina nos hotéis e pousadas, e o cardápio de peixes e outros frutos do mar foi substituído por carnes e aves.

No último dia 25, o resort Iberostar, em Praia do Forte, no litoral norte da Bahia, registrava 98% de ocupação, mas eram raros os hóspedes que arriscavam mergulhar no mar, atingido por óleo dias antes.

O educador físico Artur Margalho, 34, chegou a fazer uma caminhada na beira do mar, mas voltou com a sola de um dos pés manchada de óleo. No dia seguinte, preferiu ficar na piscina.

Na ilha de Boipeba, em Cairu (a 176 km de Salvador), turistas evitavam o mar mesmo sob um calor de 30°C, e andavam com garrafa de água nas mãos para tirar os resquícios de óleo da pele.

Na sexta-feira (1º), a as praias Pontal de Maracaípe, Cupe e de Muro Alto, em Pernambuco, atingidas por fragmentos de petróleo há 15 dias, ainda registravam movimento abaixo do normal.

“Não adianta mentir. O movimento caiu, sim. É só olhar em volta. As pessoas ficam com medo por causa das notícias”, diz Juvenal dos Santos, dono de um bar e restaurante na praia de Maracaípe, frequentada por surfistas.

Pertinho de lá, o jangadeiro Reginaldo Júnior, que ganha a vida levando turistas para fazer o famoso passeio dos cavalos marinhos, no rio Maracaípe, reclamava do movimento. “Teve dia que não fiz um passeio aqui. Mas eles estão voltando aos poucos”, diz.

Em Porto de Galinhas, cercada por praias onde o óleo chegou com força há 15 dias, o mar estava cheio na sexta-feira (1°). Nas piscinas naturais, ponto famoso da região, o clima era de normalidade.

Em Jacuípe, no litoral norte da Bahia, os barraqueiros sentiram um baque nas vendas de pratos com frutos do mar.

“Até o pobre do caranguejo que era o carro-chefe de Jacuípe não está saindo nada. Por enquanto, está saindo só prejuízo”, diz Anderson Carvalho, 22, comerciante e pescador.

A situação é a mesma em Itapuama, no litoral sul de Pernambuco, onde os clientes sumiram depois que o óleo chegou .“São 16h e só uma pessoa sentou aqui na minha barraca. Parou tudo. Faz oito dias que o movimento é zero”, conta o barraqueiro Luciano José de Souza, que ganha a vida vendendo peixe e cerveja na praia.

Em Porto de Galinhas, a comerciante Conceição Nunes, que veio de Brasília para descansar no litoral pernambucano, não comeu peixe. “Eu amo peixe, mas não posso arriscar. Pedi carne de sol com batatinha mesmo.”

O presidente da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) em Pernambuco, André Luiz Araújo, diz que há uma mudança de comportamento dos consumidores, que trocaram o peixe pela carne ou ave. A mudança aconteceu a despeito de 70% dos peixes consumidos em Pernambuco serem da região Norte. “Os produtos vendidos em restaurantes têm selo de inspeção federal”, alegou.

Em geral, não houve um movimento forte de cancelamentos de reservas em hotéis e pousadas, relatam as associações do setor. Os hotéis de Salvador fecharam outubro com 67% de ocupação. No mesmo mês do ano passado, a ocupação era de 61%.

Pousadeiros de Alagoas e Pernambuco relatam cancelamentos pontuais de reservas: “A perda não é expressiva. Percebemos que o nosso público está sabendo filtrar as informações”, diz Luiz Cláudio Gonçalves, dono de uma pousada em Maragogi (AL).

O empresário Felipe Pires, dono de 16 apartamentos de aluguel na praia dos Carneiros, no litoral sul de Pernambuco, conta que perdeu apenas uma das 40 reservas que tinha antes da chegada do óleo.

Ele diz, porém, que nos últimos oito dias houve uma diminuição na procura. “O telefone não toca mais.”
Liana Freiberger, coordenadora de marketing do Nannai Resort, um dos mais luxuosos de Pernambuco, em Muro Alto, diz que a falta de articulação das informações oficiais prejudica o setor. A mancha de óleo atingiu, há duas semanas, a praia em frente ao hotel. “Alguns hóspedes nos ajudaram na remoção”, conta.

Em geral, os turistas têm optado por manter a programação, mas adotado certa cautela nas regiões atingidas.

É o caso de Adauto Gonçalves, 34, e Mônica Miranda, 34, que foram na sexta (1º) para a praia de Barra Grande, sul da Bahia. Hospedados em pousada com piscina, pretendem ir à praia apenas para caminhar. As moquecas de peixe e camarão serão trocadas por carne.

No próximo verão, o casal quer conhecer as piscinas naturais da praia de Maragogi, em Alagoas. E esperam que, até lá, a situação das manchas de óleo esteja resolvido. “Queremos curtir sem medo”. 

A última atualização do Ibama, de sexta (1°), aponta que 296 locais em 101 cidades de todos os estados do Nordeste foram atingidos pelo petróleo.

Colaborou Júlia Zaremba, de Boipeba (BA)

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