Voluntários, pescadores e moradores relatam desespero e esgotamento mental com crise do óleo

Pessoas afetadas citam insônia e crises de choro; pescador pensou em afundar seu barco

Salvador e Recife

“Gente, tudo isso está fodendo minha saúde mental. Peço licença, mas vou me retirar do grupo. Essa merda já tomou proporções irreparáveis a meu ver, vou fazer o que estiver ao meu alcance enquanto humana insignificante diante de tamanha tragédia”.

O desabafo foi feito por Yasilis Sampaio, 32. Moradora da praia de Serra Grande, em Uruçuca, sul da Bahia, naquela dia ela tinha acordado às 3h da manhã e corrido para o celular. Passou o dia acompanhando notícias sobre a chegada do óleo na sua região.

Sem desgrudar os olhos da tela, seguiu para a praia e participou de um novo mutirão para recolher o material. No fim do dia, esgotada, tomou a decisão de sair dos três grupos de voluntários de que participava no WhatsApp.

“Entrei em uma espécie de looping com tanta informação. Só pensava no desespero das pessoas, principalmente dos pescadores”, afirma.

Relatos como esse são constantes. Cerca de 80 dias depois da chegada das manchas de óleo no litoral brasileiro, voluntários, moradores das praias e trabalhadores do mar relatam estresse e esgotamento emocional.

E não há sinais de mudança no horizonte, já que o óleo continua chegando ao litoral dos estados nordestinos, do Espírito Santo e atingiram o Rio de Janeiro, pela primeira vez, nesta sexta (22). 

Entre os voluntários que têm atuado em mutirões, a sensação é a de “enxugar gelo”, sobretudo depois que as manchas de óleo começaram a voltar a praias que já tinham sido limpas. Na semana passada, o material reapareceu em praias da Bahia e do Piauí. 

Trabalhando desde os 14 anos na praia de Gaibú, no Cabo de Santo Agostinho, Grande Recife, o pescador Edinaldo Rodrigues de Freitas, 48, não parou desde a chegada das primeiras manchas de óleo a Pernambuco.

Com seu barco, fez monitoramentos diários no mar, mergulhou para verificar manchas consolidadas no fundo e removeu o petróleo da areia.

 

Nal, como é conhecido na praia, diz que não se reconhece mais. “Vivo em um inferno hoje, um inferno grande. Brigo com todo mundo. Não tenho paciência para nada. Grito com as pessoas porque minha vida se transformou”, diz.

No auge do desespero, chegou a pensar em afundar o seu próprio barco em alto-mar numa tentativa desesperada de se livrar de um pesadelo. “Estou falando com você e já começo a me tremer aqui e segurar o choro. A minha situação é de desespero. Estou à flor da pele”, conta.

Laurineide Maria Santana, 56, trabalha há 35 anos no Conselho Pastoral de Pescadores, braço da Igreja Católica que atende pessoas que vivem da pesca artesanal em Pernambuco. Acostumada a falar em público, não consegue mais fazê-lo sem que o choro a interrompa.

“Não estávamos preparados para passar por isso. Eu me sinto assim. Sofremos um choque. Estou sem falar em público. Choro sem parar”, relata.

Há um mês, ela não consegue dormir direito. “Nunca tive insônia e tenho passado noites e noites em claro. A insônia é pesada. Eu fico pensando em tudo, nas pessoas, na sobrevivência dos pescadores. Isso tem me causado uma perturbação psicológica muito grande”.

O cenário não é diferente para quem está longe mas tem uma relação afetiva com as praias atingidas. O empresário baiano Maurício Magalhães, 59, mora em São Paulo, mas tem uma casa em Arembepe, na Grande Salvador.

Ele tem evitado acompanhar o noticiário sobre o vazamento de óleo. Diz se sentir impotente diante do que considera o maior desastre ambiental que já viu na vida.

“É um ruptura muito cruel porque minha relação com a praia é uma coisa que considero visceral. O mar é meu ponto de refúgio, é onde encontro a minha paz interior”, afirma.

Há cerca de um mês, ele visitou a praia de Arembepe dias após o óleo ter chegado à região. Caminhou por cerca de uma hora na faixa de areia e voltou para casa com os pés totalmente manchados de preto. “Foi uma dor devastadora”.

Além do estresse, também é recorrente o sentimento de revolta frente aos informes de prefeituras, hotéis e empresas de turismo que alegam normalidade nas praias.

Dona de uma hospedaria na praia de Itapuã, em Salvador, Caroline Almeida Rodrigues, 41, afirma viver um dilema diário quando clientes ligam em busca de reservas.

Ela diz que lhe falta coragem para fechar negócio, que prefere ser franca com seus possíveis clientes e os orienta a, por enquanto, não viajarem.

“Se eu fosse falar com o bolso, ia dizer ‘venham’. Mas meu senso me impede de não dizer a verdade. Até hoje vemos óleo nas águas, nas pedras, nas algas. Como vou dizer que está tudo bem?”, diz.

Além do prejuízo financeiro, o vazamento de óleo fez com que ela perdesse seu laço com o mar como fonte de lazer. Ela mora a poucos passos da praia, mas não mergulha na água salgada desde setembro. “Sinceramente, não me sinto preparada pra isso”.

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