Descrição de chapéu The New York Times

Australianos põem luvas em coalas e dão mamadeiras a filhotes para salvá-los

Milhões de animais, muitos dos quais não existem em outro continente, podem ter morrido nos incêndios

Livia Albeck-Ripka
Waterholes (Austrália) | The New York Times

O comboio de veículos que fugiam de um incêndio florestal devastador no sudeste da Austrália levava uma carga abundante: 11 coalas, 15 cangurus, cinco galinhas, dois possums, dois cães e um papagaio.

Susan Pulis, que administra um centro de assistência a animais silvestres, havia chamado seus amigos para colocar os animais em cestos ou envolvê-los em cobertores e levá-los até um local de segurança no litoral. Uma amiga dela esvaziou um quarto de sua casa para abrigar cinco dos cangurus. Pulis colocou os filhotes menores de canguru em bolsos acolchoados na sala da casa de outra amiga.

“Desde os incêndios, os animais estão muito diferentes, muito ansiosos”, diz.

Os incêndios australianos já mataram ao menos 23 pessoas, destruíram mais de 1.400 casas e devastaram mais de 70 mil quilômetros quadrados, mas também cobraram um preço altíssimo da célebre fauna silvestre australiana. Centenas de milhões de animais (muitos dos quais não existem em nenhum outro continente) já podem ter morrido, segundo estimativas, devastando os ecossistemas singulares do país.

“Levamos muitas espécies que não estavam ameaçadas à quase extinção ou mesmo à extinção”, disse o ecologista e botânico Kingsley Dixon, da Universidade Curtin, em Perth.

Segundo ele, mesmo os animais que sobreviveram aos incêndios, fugindo ou resistindo, podem acabar morrendo de desidratação ou fome. “É um Armageddon biológico raramente visto até hoje”, ele comentou.

Os animais silvestres já estavam ameaçados antes dos incêndios, devido às mudanças na paisagem australiana provocadas pelo homem. O agronegócio é um dos maiores fatores que contribuem para o desmatamento, que dizima as populações de animais silvestres, dizem cientistas.

As estimativas sobre perdas astronômicas de animais e as imagens dolorosas de coalas queimados nesta temporada desastrosa de incêndios na mata provocam preocupação em todo o mundo. Costureiras na Holanda estão fazendo luvas acolchoadas para coalas com as patas queimadas. Na Nova Zelândia, outras costuram bolsos para filhotes de canguru e capas para cobrir morcegos.

Alguns especialistas expressam ceticismo em relação aos números altos divulgados rapidamente nas redes sociais, que são baseados em estimativas de densidade populacional de mamíferos, aves e répteis a partir de estudos previamente publicados. Para chegar ao número estimado de mortos, multiplica-se o número de animais que se prevê que habite uma área determinada pela superfície total queimada.

Mas é impossível saber quantos animais conseguiram fugir dos incêndios, por exemplo. Os esforços para avaliar a escala dos danos são complicados pelo acesso limitado às áreas queimadas, sem falar na dificuldade de documentar mortes individuais de animais.

Mas, dizem cientistas, sejam quais forem os números, está claro que a devastação é imensa.

Segundo várias estimativas, pelo menos um quarto da população de coalas de Nova Gales do Sul pode ter sido perdida. Também é muito provável que tenham morrido muitos bandicoots-marrons-do-sul e “long-footed potoroos”, uma espécie de wallaby cujo hábitat inteiro foi devastado pelos incêndios.

Especialistas disseram que milhares de cangurus e coalas morreram no incêndio que já devastou um terço da ilha Kangaroo, na costa oeste ao sul da Austrália. E teme-se pela sobrevivência de uma subespécie de cacatuas pretas das quais só restavam entre 300 e 370 indivíduos antes dos incêndios.

Não apenas animais silvestres estão sendo dizimados. Em Batlow, 460 quilômetros a sudoeste de Sydney, um vídeo feito por um repórter mostrou cadáveres de ovelhas e vacas espalhados por uma rodovia. Carcaças como essas intensificam o medo de riscos biológicos no país.

A região agrícola de Buchan, no estado de Victoria, também foi fortemente afetada. Agricultores estão tendo que abater seus animais queimados em um momento em que a seca já tornara sua subsistência quase impossível. Na cidade próxima de Bairnsdale, fazendeiros disseram que um leilão foi marcado para a quinta-feira para passar para frente suas cabeças de gado restantes, algumas das quais podem estar feridas.

A pecuarista Tina Moon, de Sarsfield, cidade no sudeste de Victoria, disse que muitas cabeças de gado na região foram atingidas pelo fogo e tiveram que ser abatidas. Ela contou que salvou sua casa, mas não sabe como vai ganhar a vida nos próximos meses.

Para proteger a fauna silvestre, pessoas como Susan Pulis, que fugiu da floresta para o litoral no final do mês passado, combatem em escala pequena as transformações imensas provocadas à paisagem do país. Elas não podem salvar os animais silvestres australianos por conta própria, mas o trabalho delas reforça a visão dos cientistas de que a intervenção humana será cada vez mais necessária para proteger os animais em um planeta mais quente, mais tendente a sofrer incêndios.

Pessoas em todo o país vêm juntando forças para ajudar a localizar, resgatar e alimentar animais sobreviventes.

Na cidade de Mallacoota, devastada por incêndios, um homem diz que resgatou nove coalas, e a comunidade está construindo um abrigo para os animais. Outras pessoas espalham sementes, capim e água para animais silvestres famintos e desidratados.

“Sei que isso não vai recuperar nossas fazendas e casas, mas para algumas pessoas pode criar a sensação de que não estamos desistindo de lutar”, comentou Katharine Catelotti, de Sydney, cuja família perdeu uma casa em Wollomombi, mais de 480 quilômetros ao norte da cidade. Ela vem espalhando alimentos para animais silvestres e cuidando de alguns animais em sua casa.

Outras pessoas se encarregam de tarefas mais árduas. Uma mulher disse à Australian Broadcasting Corporation que anda checando os bolsos de cangurus mortos para verificar se contêm filhotes e marcando os cangurus sem filhotes para que outras pessoas não precisem repetir o mesmo esforço.

Em 2013 Susan Pullis fundou um abrigo para animais silvestres em Raymond Island, ao largo da costa, com a intenção de reabilitar animais feridos ou abandonados. Em agosto ela se mudou para Waterholes, a 50 quilômetros no interior, devido à derrubada de árvores na ilha, que lhe impossibilitara soltar os coalas em um ambiente onde conseguissem encontrar alimento suficiente.

Sua propriedade em Waterholes já esteve sob ameaça de incêndios duas vezes recentemente, mas permanece intocada. É um oásis fértil no final de uma estrada enegrecida na região de East Gippsland, no leste do estado de Victoria, onde árvores queimadas e caídas, terra estorricada e placas rodoviárias derretidas se espalham por centenas de quilômetros.

“É um holocausto”, disse Pulis, dirigindo para sua casa na segunda-feira pela primeira vez desde que o calor escaldante levou um incêndio feroz para perto dela.

Desde então, chuvas e uma queda na temperatura trouxeram algum alívio temporário. Mas a fumaça ainda paira no ar. Quando chegou à trilha que leva à sua propriedade, Pulis começou a chorar.

“Isto daqui seriam o alimento dos meus coalas”, ela disse, apontando para os eucaliptos queimados cujas folhas serviriam de alimento a seus animais.

Chegando à sua casa, Pulis cuidou dos cangurus estressados e desidratados que tinha sido obrigada a deixar para trás. Deu uma injeção de analgésico em cada um –eles provavelmente tinham se ferido ao fugir da mata em chamas—e trocou a água deles, contaminada por cinzas.

No sábado, quando chamas de vários metros de altura ameaçaram sua casa pela segunda vez, seu amigo Jason Nicholson a ajudou com uma mangueira e centenas de galões de água.

Nenhum dos dois conseguia acreditar como a casa continuara intacta, com o jardim em volta ainda verde, com cacatuas cantando nas árvores. Eles previram que os animais silvestres expulsos das áreas incendiadas viriam se concentrar na propriedade, que virara um jardim do Éden em meio a quilômetros de floresta devastada.

“Aqui você ouve os pássaros”, disse Nicholson. “Lá fora o silêncio é total. É um silêncio de morte.”

 

Tradução de Clara Allain

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