Descrição de chapéu The Washington Post

Incêndios causam destruição na Austrália desde setembro e não dão sinal de trégua

Queimadas já mataram mais de 20 pessoas e pressionam governo conservador a agir contra mudanças climáticas

A. Odysseus Patrick Andrew Freedman Joel Achenbach
Sanctuary Point (Austrália) | The Washington Post

Enquanto o sudeste da Austrália ardia em chamas no fim de semana, o termo que se espalhou pelo país foi "sem precedentes". O continente já viu grandes focos de incêndio antes, mas este é diferente. Há muitos incêndios em muitos lugares — cerca de 200 na última contagem— e muitos estão em novas áreas, incluindo florestas tropicais e os subúrbios de Sydney.

As chamas tiraram a vida de uma dúzia de pessoas na semana passada, mataram metade dos coalas da ilha Kangaroo e outros animais, destruíram mais de mil estruturas, forçaram dezenas de milhares de pessoas a deixar suas casas, sufocaram as cidades com fumaça e tornaram a famosa Sydney Opera House quase invisível no porto da cidade. A fumaça atingiu a estratosfera inferior e atravessou 15 mil quilômetros de oceano chegando até os céus da América do Sul. 

Os incêndios também foram assunto no Globo de Ouro de domingo (5). Patricia Arquette, Ellen DeGeneres e Joaquin Phoenix citaram o desastre. O ator neozelandês Russel Crowe ganhou o prêmio de melhor ator em série limitada ( “The Loudest Voice"), mas não foi ao evento e pediu que uma mensagem sua fosse lida: "Não se enganem, a tragédia que está se desenrolando na Austrália é baseada em mudanças climáticas. Precisamos agir com base na ciência, mudar a nossa força de trabalho global para fontes renováveis e respeitar nosso planeta”.    

O sábado foi um dos piores dias de um clima propício a incêndios perigosos —calor escaldante, arbustos secos e ventos que superavam os 100 quilômetros por hora. Foi o dia mais quente já registrado na região metropolitana de Sydney, com a cidade de Penrith atingindo quase 48,8º C, de acordo com o Australian Bureau of Meteorology, a agência de meteorologia da Austrália. A capital nacional, Canberra, estabeleceu um recorde com uma temperatura de 43,3º C.

O governo nacional no sábado começou a convocar 3.000 reservistas do exército para conduzir evacuações e ajudar pessoas em áreas remotas afetadas pela crise dos incêndios florestais. Estradas foram fechadas, e muitos moradores e turistas da temporada de verão ficaram presos em cidades costeiras e foram instruídos a fugir de barco das chamas, caso não houvesse outra opção. Mais de mil pessoas e 113 cães chegaram a Melbourne no sábado em dois navios da Marinha, o Sycamore e o Choules, que os retiraram das cidades litorâneas cercadas por incêndios.

No sul do estado de Nova Gales do Sul, as pessoas em um trecho costeiro de 110 quilômetros foram avisadas de que era tarde demais para deixar a área e instruídas a procurar abrigo, enquanto um incêndio fora de controle que consumiu mais de 2.500 quilômetros quadrados de floresta e terras agrícolas — mais de 40 vezes o tamanho de Manhattan – queimava em direção ao oceano Pacífico e ameaçava eliminar as rotas de fuga.

Em Sanctuary Point, uma cidade turística normalmente movimentada, 13 das 18 lojas da rua principal estavam fechadas no sábado. Os lojistas disseram que os funcionários e proprietários deixaram a cidade ou estavam se preparando para proteger suas casas. Aqueles que permaneceram esperavam ansiosamente por uma mudança ao sul que pudesse cessar o fogo, e estavam atentos a brasas, que, segundo os oficiais, podem inflamar árvores, folhas e gramas por até 11 quilômetros.

Farrugia Sammut, 82 anos, disse que não nunca sentiu tanto medo desde que sua casa de infância, em Malta, foi bombardeada durante a Segunda Guerra Mundial. "Estamos cercados por incêndios florestais", disse a ex-operária de fábrica. "Eu não consigo dormir à noite por causa da preocupação."

O ano passado foi o mais quente já registrado na Austrália e também o mais seco. A combinação letal garantiu uma temporada de incêndios que começou no início de setembro e não mostra sinais de diminuição. O número de mortos desde o início da temporada de incêndios é de 23.

Os incêndios são tão extremos que a agência meteorológica alertou contra os raios das chamadas nuvens pirocumulonimbus —trovões gerados pelo fogo, formados por fumaça, que alcançam 45.000 pés e geram convecção no nível da superfície, o que dificulta o combate a incêndios.

Os meteorologistas não preveem chuvas significativas nas regiões queimadas nos próximos meses.

Crise política

Este desastre natural também é uma crise política. Os incêndios são um sinal vívido da crise global das mudanças climáticas, que podem tornar as condições ecológicas mais favoráveis à ignição e intensificação dos incêndios florestais. A mudança climática é um assunto polêmico na Austrália há anos, um pomo da discórdia que decidiu as eleições.

No passado, o primeiro-ministro Scott Morrison subestimou a importância de combater as mudanças climáticas e ofereceu apoio total à mineração de carvão. Os incêndios criaram o maior teste para essa posição e a liderança de Morrison, desde que seus conservadores venceram inesperadamente uma eleição geral em maio.

Mesmo em um continente seco acostumado a incêndios fatais, imagens de centenas de civis sendo evacuados pelo mar provocaram uma sensação entre muitos australianos de que a mudança climática representa uma ameaça imediata à nação, um dos maiores exportadores de carvão do mundo. Três semanas atrás, o país registrou as maiores temperaturas médias nacionais, duas vezes em dois dias.

A devastação já provocou reinvindicações para que Morrison — que uma vez empunhou um pedaço de carvão no parlamento para enfatizar seu apoio à mineração — tome medidas mais estruturadas sobre as mudanças climáticas. A participação da Austrália nas emissões globais de dióxido de carbono do uso doméstico de combustíveis fósseis é de cerca de 1,4%, segundo o Climate, Analytics, instituto alemão sem fins lucrativos de política e ciência, mas o país é um dos maiores emissores per capita.

"A melhor resposta que posso dar às pessoas que estão com raiva e se sentindo isoladas, que estão com medo, é o que eu posso fazer hoje", disse Morrison em uma entrevista coletiva em Canberra, acompanhado pelo ministro da Defesa e pelo chefe das forças de defesa. "Continuaremos a tomar medidas sobre as mudanças climáticas".

Os incêndios também prejudicaram a reputação de Morrison como um homem que entende a situação da região central da Austrália.

O primeiro-ministro, que foi afrontado e contestado por bombeiros e sobreviventes exaustos e zangados nos últimos dias, ordenou o que o governo chamou de o primeiro grande uso de reservistas militares para responder a esse tipo de desastre natural. Ele também elogiou, em um vídeo promocional, um navio da Marinha australiano que foi enviado para a fronteira entre os estados de Nova Gales do Sul e Victoria para ajudar a evacuar as pessoas.

Essas medidas foram tomadas após críticas à decisão de Morrison de passar férias no Havaí depois do início dos incêndios, e a percepção de que os serviços de combate a incêndios do governo fracassaram no combate às chamas que destruíram mais de 1.300 casas.

"Ele merece", disse Geoff Monkhouse, um eletricista aposentado de 76 anos que estava bebendo cerveja em um clube de campo de Sanctuary Point no sábado. "Ele deveria mostrar empatia pelas pessoas que estão sofrendo”.

O incêndio espontâneo mais mortal da Austrália ocorreu em fevereiro de 2009, quando 173 pessoas morreram.

No sábado, Andrew Constance, um parlamentar conservador do sul de Nova Gales do Sul, comparou os incêndios em sua região a "uma bomba atômica".

"É indescritível o inferno e a devastação causados", disse ele à rádio Australian Broadcasting Corp.

Brigadas voluntárias do Corpo de Bombeiros Rurais estão combatendo os incêndios e estão sendo amplamente consideradas como heróis. O site Fires Near Me (em inglês ‘incêndios próximos de mim’) do governo lista cada um dos incêndios: o incêndio em Currowan (695 mil acres, identificado como "fora de controle"), o incêndio em Green Wattle Creek (671 mil acres, "fora de controle"), o incêndio em Dunns Road (582 mil acres, "fora de controle"), o incêndio em Badja Forest Road (494 mil acres, "fora de controle") — e assim por diante.

O apresentador de rádio Richard Glover, do programa "Drive" na ABC Radio Sydney, disse que levou um balde para o estúdio no sábado, caso sentisse náuseas devido ao ar tóxico. Seus ouvintes contaram que passaram mal a ponto de vomitar enquanto dirigiam pela cidade. Os incêndios estão acontecendo próximos dos subúrbios de Sydney, uma experiência pouco familiar para os moradores da cidade.

Em um email, ele descreveu a natureza do desastre, no qual trabalhadores em escritórios usam máscaras respiratórias e idosos andam pelas ruas com lenços pressionados à boca:

"Há as mortes sem precedentes de peixes em nossos rios do interior; o aviso de incêndio de nível um inédito para Sydney; o dia sem precedentes de chamas em todos os estados e territórios."

Ele resumiu o clima: "A angústia está em toda parte, junto com uma enorme gratidão e admiração pela 'fina linha amarela' [em referência à cor dos uniformes dos bombeiros voluntários que estão lutando contra as chamas]".

Aquário de São Paulo tem coala

A coala Princesa Julie chegou ao Aquário de São Paulo há cinco anos, transferida do Zoológico Darling Downs, no leste da Austrália. Uma tratadora acompanhou a vinda de Julie para o Brasil para repassar os detalhes de manejo do animal e garantir a manutenção do bem-estar do bicho. 

Os coalas costumam viver por cerca de 20 anos e se alimentam de folhas de eucalipto, ricas em água --o que faz com que o bicho não tenha que descer das árvores para se hidratar. 

As principais ameaças aos coalas —animal considerado como vulnerável à extinção— são a perda de habitat, queimadas e doenças. 

Os preços de ingressos para o Aquário de São Paulo variam entre R$ 45 (visitantes com 60 anos ou mais, e professores), R$ 60 (crianças de 2 a 12 anos) e R$ 90 (adultos)

O aquário fica na rua Huet Bacelar, 407, Ipiranga. O telefone para contato é o (11) 2273-5500.

Tradução de AGFox

Erramos: o texto foi alterado

Uma versão anterior deste texto se referiu à Sidney Opera House incorretamente como Sydney Opera Casa. O erro foi corrigido.

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