Descrição de chapéu Fórum Econômico Mundial

Mnuchin e Lagarde travam embate em Davos por causa de ambiente

Americano vê exagero em projeções de risco; europeia aponta urgência

Davos

O secretário do Tesouro dos EUA, Steven Mnuchin, contestou nesta sexta (24) a ênfase em risco ambiental sobre a economia apontada pelo Fórum Econômico Mundial, e foi confrontado pela presidente do Banco Central Europeu, a francesa Christine Lagarde. 

Para Mnuchin, é impossível prever os riscos em um horizonte de três décadas porque a tecnologia até lá os mitigaria —algo de que Lagarde e seus colegas de painel, o presidente do Banco Central do Japão, Haruhiko Kuroda, e o ministro das finanças alemão, Olaf Scholz, prontamente confrontaram.

“O foco tem de ser em temas ambientais, não em aquecimento global, que é apenas um deles”, afirmou Mnuchin, ressaltando que o governo de Donald Trump tem medidas de combate a poluição do ar e da água e que a China e a Índia “precisam ter melhora significativa na questão ambiental”. 

O secretário do Tesouro dos EUA, Steven Mnuchin, participa do Fórum Econômico Mundial em Davos
O secretário do Tesouro dos EUA, Steven Mnuchin, participa do Fórum Econômico Mundial em Davos - Fabrice Coffrini/AFP

Ambos os países asiáticos têm altos índices de poluição, e costumam demandar mais tempo, em negociações ambientais, para reduzir suas emissões de gases-estufa.

Em um discurso muito parecido com o do brasileiro Paulo Guedes, que colocara a pobreza como principal inimiga do ambiente, Mnuchin afirmou que “ainda tem muita gente nos países em desenvolvimento que não tem acesso à eletricidade”, e que isso precisa ser resolvido —uma defesa das múltiplas fontes de energia, inclusive as poluentes. 

“Ambiente é uma questão econômica, sem dúvida”. “Mas é uma delas. Assim como saúde. Segurança nacional. Não quero minimizar a questão ambiental, mas ela é uma de várias questões prementes”

Segundo Mnuchin, os EUA deixaram o Acordo de Paris sobre o Clima não porque minimizem a questão ambiental, mas porque avaliaram que o acordo não era justo com os EUA. 

Lagarde refreou o colega e o presidente Donald Trump, que dois dias antes pedira no palco em Davos que o mundo rejeitasse o que chamou de “alarmismo dos profetas apocalípticos do clima”. 

A ex-diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional celebrou o fato de grandes empresas como o Bank of America terem assinado um protocolo de compromisso ambiental, e afirmou que os bancos centrais deveriam levar em conta o risco ambiental ao avaliar suas decisões e medidas.

“Estamos fazendo as avaliações financeiras corretamente? Estamos levando em conta todos os critérios? Estamos levando em conta riscos ambientais? Se conseguirmos antecipá-los, seremos mais capazes de lidar com eles ou mitigá-los” afirmou.

Kuroda, por sua vez, apontou que o governo japonês já o faz, posto que o país tem assistido a uma escalada de desastres naturais em seu território (como tufões). E alfinetou o americano, que contestara a urgência de os EUA fazerem mais do que fazem: “o Japão já é eficiente em energia, e eu acho que o país só terá a ganhar se reduzir suas emissões de gases-estufa”.

Para o alemão Scholz, esperar pela ação alheia “é uma estratégia perigosa”. “Temos um debate importante sobre a mudança climática, e precisamos lidar com ele já.”.

O debate teve de ser interrompido pelo mediador conforme se acirrava e invadia o tempo da sessão seguinte. Mnuchin, porém, não se deu por vencido. “Não acho que possamos criar um modelo para esses riscos nos próximos 30 anos, porque não sabemos qual a tecnologia será até lá.”

O FMI e o Fórum apontaram a crise climática como um dos principais riscos a economia global, dados os últimos desastres naturais dela derivados, como os incêndios na Austrália neste ano. 

A clivagem entre aqueles que veem urgência em agir, como os países europeus, e aqueles que defendem uma ação modulada, como EUA e Brasil, porém, não foi superada.

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