Mudança climática não é a maior crise do planeta, diz assessor ambiental de Trump

Andrew Wheeler comentou crises ambientais do primeiro ano do governo Bolsonaro e elogiou Ricardo Salles

Brasília

Andrew Wheeler, administrador da EPA (Agência de Proteção Ambiental dos EUA), afirmou à Folha que não vê as mudanças climáticas como a principal crise ambiental do planeta na atualidade. 

"Quando você tem 1.000 crianças que morrem diariamente, em todo o mundo, pela falta de água segura e potável... isso é uma crise", disse Wheeler, que comanda a principal estrutura que lida com o ambiente no governo Donald Trump. 

Wheeler esteve no Brasil na quinta-feira (30) para assinar um memorando de entendimento com o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.

O ministro do Meio Ambiente do Brasil Ricardo Salles e o administrador da EPA (Agência de Proteção Ambiental dos EUA) Andrew Wheeler participaram de uma cerimônia para assinar um memorando de entendimento sobre cooperação em sustentabilidade urbana em Brasília
O ministro do Meio Ambiente do Brasil Ricardo Salles e o administrador da EPA (Agência de Proteção Ambiental dos EUA) Andrew Wheeler participaram de uma cerimônia para assinar um memorando de entendimento sobre cooperação em sustentabilidade urbana em Brasília - Adriano Machado/Reuters

Na entrevista, ele também defendeu as declarações de Trump em Davos, que em uma alusão à ativista ambiental Greta Thunberg criticou o que chamou de  "profetas do apocalipse". 

"Existe um monte de informação errada e de propaganda do medo nessa questão", disse.

O Brasil bateu o recorde da última década no desmatamento da Amazônia. O cenário preocupa os EUA?

Nós estamos prontos para providenciar qualquer ajuda ao Brasil e fizemos isso nos incêndios [na Amazônia] e no aparecimento de óleo na costa. 

Em relação ao desmatamento, estou muito impressionado com o plano do atual governo na área de biodiversidade, bem como no trabalho junto ao setor privado para aumentar a proteção [ambiental]. 

Eu sou o primeiro administrador da EPA a visitar a Amazônia, então acho que isso mostra a importância que nós damos à região. Tenho total confiança no ministro [Ricardo] Salles e no que ele tem feito

O sr. considera o desmatamento na Amazônia um problema interno do Brasil ou ele deveria ser tratado como um assunto internacional?

Antes de tudo é uma questão do Brasil que deve ser trabalhada pelas autoridades brasileiras. 

Eu não gosto de ver um outro governo vindo a um terceiro país para demandar ações ou práticas específicas. 

É muito melhor trabalhar com cooperação entre os países, e o memorando de entendimento que assinamos com o Brasil mostra isso. 

Durante uma audiência no Senado em 2019, o sr. disse que tinha um alto grau de preocupação com mudanças climáticas. Mas o presidente Trump atacou recentemente o que chamou de "profetas do fim do mundo", em uma crítica a ambientalistas. Afinal, qual a posição dos EUA sobre aquecimento global?

Eu não acho que minha fala [no Senado] contradiz o que o presidente [Trump] disse, de forma alguma. Ele disse que acredita nas mudanças climáticas e eu também afirmei o mesmo. 

Nós adotamos uma série de medidas para lidar com isso, como as regras de energia limpa e acessível para o setor elétrico. Elas reduzirão as emissões de CO2 do segmento entre 30% e 35%. 

Mas eu concordo plenamente com o presidente sobre os "profetas do fim do mundo". Eu critiquei o modelo RCP 8.5, que é cenário mais negativo de previsão climática. 

O presidente disse que a imprensa em particular apenas foca nessa previsão mais negativa. Então existe um monte de informação errada e de propaganda do medo nessa questão. 

Eu acredito que a maior crise ambiental hoje no nosso planeta é a água. 

Acha que é uma preocupação maior do que as mudanças climáticas?

Eu acho. Quando você tem 1.000 crianças que morrem diariamente, em todo o mundo, pela falta de água segura e potável... isso é uma crise. E nós temos tecnologias para fornecer água potável às pessoas. 

Eu acho que água é um tema muito importante aqui no Brasil e o ministro [Salles] está atento a isso. 

Acabei de passar uma hora conversando com ele sobre coisas que estamos fazendo nos EUA, em temas relacionados à infraestrutura hídrica. 

Talvez eles aprendam algo conosco e há coisas sendo feitas aqui que, espero, nós aprendamos com o Brasil. 

O clima pode ter um efeito sobre a água, mas o clima não está causando 1.000 mortes infantis todos os dias. Isso ocorre por causa da falta de infraestrutura para água necessária nos países em desenvolvimentos.

O sr. colocaria as mudanças climáticas como a segunda prioridade?

Talvez elas sejam o segundo ou terceiro [principal desafio ambiental]. 

Olho para todas as questões e tenho enormes problemas em todos os assuntos. Mas estamos fazendo algo em todas as áreas.

O sr. recebeu críticas pela indicação de John Christy, um cético do aquecimento global, para o Conselho Científico Consultivo da EPA. Isso é condizente com alguém que se diz preocupado com as mudanças climáticas?

Ele [Christy] é cético em relação a algumas pesquisas. Sem os céticos nós não saberíamos, por exemplo, que o cenário de previsões climáticas mais negativas que a ONU tem utilizado, o RCP 8.5, não é confiável. 

Christy é um dos principais especialistas em mudanças climáticas no mundo, ele é respeitado. Pode não concordar com tudo o que alguns dos cientistas fazem.

Trata-se de um autor realizado nessa área, e eu acho importante ouvir diferentes pontos de vista. Porque o estágio atual da ciência climática não está totalmente definido, é algo em evolução. 

Precisamos trabalhar nos modelos e ainda não entendemos muito do que os climatologistas estão dizendo. 

O jornal The New York Times apontou que o governo Trump reverteu mais de 90 regulamentos ambientais. E pesquisas apontaram um aumento nas emissões de CO2 em 2018. As duas coisas estão relacionadas?

Não. Nós estamos trabalhando em regulamentações em todo o espectro das leis ambientais, sendo que apenas parte delas lida com CO2

Nós adotamos 51 ações desreguladoras que representaram uma economia para o povo americano de US$ 6,5 bilhões. 

Não contamos apenas a remoção da regulação, mas também a sua modernização e atualização. 

Existe um exemplo perfeito: os ambientalistas e os democratas nos acusam de reverter o Plano de Energia Limpa, a peça central da agenda climática do ex-presidente Obama. Mas a Corte Suprema determinou a paralisação desse plano, que portanto nunca entrou em efeito. 

Isso significa que aquela regulação foi além dos limites da lei. 

Sobre as emissões de CO2, nós tivemos um pequeno aumento em 2018, mas ainda estamos numa trajetória de descenso. Os resultados preliminares para 2019 apontam uma redução das emissões. 

A EPA é a agência responsável por divulgar anualmente os volumes do programa RFS [Padrões de Combustíveis Renováveis]. No entanto, a quantidade de etanol brasileiro prevista para esse programa é cada vez menor. Por quê?

Nós temos produzido cada vez mais etanol dentro dos EUA. 

Aqui vocês usam o E-25 [25% de etanol misturado no combustível]. A maior parte da nossa gasolina, por outro lado, tem 10% de etanol. 

O RSF foi aprovado em 2005 e emendado em 2007. Algumas das previsões não se realizaram. 

O índice de milhas percorridas por veículo tem caído ao longo dos últimos 15 anos, então as pessoas estão usando menos combustível do que nós antecipamos. 

Além disso os nossos carros são mais eficientes, estão fazendo mais milhas por galão. A demanda por etanol não acompanhou o que nós esperávamos. 

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