Extinções em massa estão acelerando, dizem cientistas

É provável que 500 espécies sejam exterminadas nas próximas duas décadas, de acordo com um novo estudo

Rachel Nuwer
Nova York | The New York Times

Estamos no meio de uma extinção em massa, alertam muitos cientistas —não produzida por um acontecimento natural catastrófico, mas pelos seres humanos. A perda inatural de biodiversidade está se acelerando e, caso continue, o planeta perderá vastos ecossistemas e as necessidades que eles suprem, como água doce, polinização e controle de pragas e doenças.

Na segunda-feira (1º), houve mais más notícias: estamos correndo mais rápido para o ponto de colapso do que os cientistas pensavam anteriormente, segundo pesquisa publicada na revista da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos. A taxa de extinção entre as espécies de vertebrados terrestres é significativamente maior que as estimativas anteriores, e a janela crítica para evitar perdas maciças fechará muito mais cedo do que se pensava anteriormente —em dez a 15 anos.

"Estamos destruindo as capacidades do planeta de sustentar a vida humana e a vida em geral", disse Gerardo Ceballos, ecologista da Universidade Nacional Autônoma do México e principal autor do novo estudo.

O fazendeiro Helio Lombardo do Santos e um cachorro caminham por uma área queimada da floresta amazônica, perto de Porto Velho, em Rondônia. O desmatamento na Amazônia brasileira atingiu um novo recorde nos quatro primeiros meses deste ano, segundo dados divulgados em maio, uma tendência preocupante após a devastação causada por incêndios recordes no ano passado - 26.ago.2019
O fazendeiro Helio Lombardo do Santos e um cachorro caminham por uma área queimada da floresta amazônica, perto de Porto Velho, em Rondônia. O desmatamento na Amazônia brasileira atingiu um novo recorde nos quatro primeiros meses deste ano, segundo dados divulgados em maio, uma tendência preocupante após a devastação causada por incêndios recordes no ano passado - 26.ago.2019 - Carl de Souza/AFP

A taxa atual de extinções supera amplamente as que ocorreriam naturalmente, descobriram o doutor Ceballos e seus colegas. Os cientistas sabem que 543 espécies foram perdidas nos últimos cem anos, o que normalmente levaria 10 mil anos para ocorrer.

"Em outras palavras, todos os anos, no último século, perdemos o mesmo número de espécies tipicamente perdidas em cem anos", afirmou Ceballos.

Se nada mudar, é provável que cerca de 500 espécies de vertebrados terrestres sejam extintas apenas nas próximas duas décadas, elevando o número de perdas totais ao que ocorreria naturalmente em 16 mil anos.

Para determinar quantas espécies estão à beira da extinção, o doutor Ceballos e os coautores Paul Ehrlich, biólogo de conservação na Universidade Stanford, e Peter Raven, ambientalista no Jardim Botânico de Missouri, recorreram aos dados populacionais de 29.400 espécies de vertebrados terrestres, compilados pela União Internacional para Conservação da Natureza.

Dessas espécies, 515 —ou 1,7%— estão ameaçadas de extinção, segundo eles, com menos de mil indivíduos restantes. Cerca da metade dessas espécies tem hoje menos de 250 indivíduos.

Os pesquisadores também examinaram espécies com populações entre 1.000 e 5.000. Quando os cientistas adicionaram essas 388 espécies à sua análise original, encontraram uma sobreposição geográfica de 84% —em grande parte nos trópicos— com espécies do grupo criticamente ameaçado.

A perda de algumas destas espécies provavelmente desencadeará um efeito dominó que enviará outras a uma queda vertiginosa, ameaçando ecossistemas inteiros, relatam os autores. O doutor Ceballos comparou esse processo à retirada de tijolos da parede de uma casa.

"Se você retirar um tijolo, nada acontece —talvez ela fique mais barulhenta e mais úmida por dentro", explicou. "Mas se você retirar muitos a casa acabará desmoronando."

Os conservacionistas, portanto, devem considerar todas as espécies com população menor que 5.000 indivíduos em risco de extinção, concluíram Ceballos e seus colegas.

"É um aumento substancial do que normalmente consideramos ameaçado", disse Daniel Blumstein, ecologista na Universidade da Califórnia em Los Angeles, que não participou dessa pesquisa.

O novo estudo também enfatiza a importância de se proteger populações individuais de animais, não apenas a espécie. Com base em uma análise das variações atuais e históricas de espécies ameaçadas de extinção, os pesquisadores calcularam que mais de 237 mil populações individuais desapareceram desde 1900.

Em um estudo anterior, Ceballos e Ehrlich também descobriram que 32% das populações de 27.600 espécies de vertebrados estão em declínio em todo o mundo.

À medida que as populações desaparecem das áreas geográficas, a função da espécie ali também desaparece. A perda de abelhas nos Estados Unidos, por exemplo, causaria um golpe econômico de mais de US$ 15 bilhões (R$ 78,4 bilhões) mas a espécie em si sobreviveria em outras partes do mundo.

"O declínio de populações de espécies comuns —os principais predadores, herbívoros de corpo grande como o rinoceronte, polinizadores e outros— tem grandes consequências no funcionamento dos ecossistemas, mesmo que estejam longe da extinção", disse Rebecca Shaw, principal cientista do World Wildlife Fund, que não participou da pesquisa.

"Ceballos e seus colegas estão nos dizendo com certeza científica que a sobrevivência dessas espécies está ligada à nossa própria sobrevivência", acrescentou.

O doutor Ehrlich enfatizou que as conclusões gerais do estudo quase certamente subestimaram o verdadeiro âmbito do problema da extinção. Sua análise não levou em consideração plantas, espécies aquáticas ou invertebradas, e incluiu apenas aproximadamente 5% dos vertebrados terrestres sobre os quais os cientistas têm dados populacionais.

Os resultados são "de fato o que se esperaria nesta crise crescente de biodiversidade", disse Thomas Lovejoy, ecologista na Universidade George Mason, que não participou da pesquisa. O artigo "deve ser considerado um grande alerta, enquanto ainda há tempo para fazermos diferença".

O fato de tão poucas pessoas estarem conscientes da crise iminente é uma causa da própria crise, acrescentou o doutor Lovejoy.

Muitos que estão cientes podem simplesmente sentir que a perda não é consequente. "As pessoas dizem: 'Que diferença isso faz para mim?'", sugeriu Ehrlich.

Mas muitas vezes o papel de uma determinada planta ou animal em um ecossistema só se torna visível depois que sua espécie desaparece.

Os pombos-passageiros, por exemplo, já foram bilhões de indivíduos. Seu apetite voraz por sementes limitou o crescimento populacional de outras espécies que se alimentam de sementes, incluindo os camundongos-de-patas-brancas —o reservatório natural da bactéria que causa a doença de Lyme.

Após a extinção do pombo-passageiro, as populações de camundongos-de-patas-brancas explodiram e os riscos para a saúde humana aumentaram. Os impactos da extinção do pombo-passageiro, escreveram pesquisadores na revista Science, "ainda são sentidos um século após a morte do último espécime".

Ceballos e seus colegas alertam para impactos em cascata —incluindo a ocorrência mais frequente de novas doenças e pandemias. O coronavírus que causou a atual pandemia se originou em um animal selvagem, acredita a maioria dos cientistas.

"A vacina para a Covid-19 era o hábitat natural", disse Ceballos. "A pandemia é um ótimo exemplo de como tratamos mal a natureza."

Com um grande número de perdas de espécies, os ecossistemas acabarão falindo, desestabilizando economias e governos e desencadeando crises de fome e de refugiados. Mas existem medidas que podem ser tomadas agora, disse Ceballos.

Atualmente, a perda de hábitats e o comércio de animais silvestres são os responsáveis pelo maior problema, enquanto as mudanças climáticas ainda não provocaram "o tsunami total" de seus impactos, disse Ceballos.

Para compensar a onda de extinções mais urgente, ele e seus colegas pedem o fim imediato do comércio ilegal de animais silvestres.

"Não é possível continuar destruindo espécies e colocando toda a humanidade em perigo", disse Ceballos. "Nós podemos resolver este problema imediato."

Eles também pedem a interrupção do desflorestamento e uma reforma completa do comércio legal de animais silvestres, priorizando a sustentabilidade e não os lucros.

"O problema mais fundamental é reduzir a escala do empreendimento humano, especialmente suas exigências consumistas sobre a biosfera", disse Ehrlich.

Para produzir essas mudanças, será necessário eleger líderes que priorizem o meio ambiente, redistribuir recursos e diminuir o crescimento da população humana. Para ajudar a organizar esses esforços, os doutores Ceballos e Ehrlich lançaram uma nova iniciativa global chamada Stop Extinction (Parem a Extinção).

A iniciativa visa fornecer uma estrutura para a criação de novos acordos nacionais, bem como ferramentas para educar e instigar o público sobre o avanço da crise de extinção.

"Todos nós precisamos entender que o que fizermos nos próximos cinco a dez anos definirá o futuro da humanidade", disse Ceballos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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