Descrição de chapéu pantanal

Pecuarista investigado por incêndio no Pantanal vendeu gado ao governador de MS

Investigação da PF aponta quatro fazendas como focos iniciais de fogo; tucano diz ter relação comercial "com todo mundo"

Daniel Camargos André Campos
Corumbá (MS) e São Paulo | Repórter Brasil

Entrar no Pantanal sul-mato-grossense, próximo a Corumbá, é encarar uma vegetação destruída pelo fogo e tomada pelas cinzas. Não há nenhum sinal de azul no céu, apenas fumaça e fuligem. Ao investigar a origem desses incêndios, a Polícia Federal chegou a quatro pecuaristas da região, que teriam colocado fogo em suas fazendas para abrir novos pastos.

Um dos investigados é Pery Miranda Filho, fazendeiro que já vendeu gado para o governador Reinaldo Azambuja (PSDB), conforme mostra documentação a que a Repórter Brasil teve acesso.

O pecuarista Miranda Filho chegou a ser detido por um dia, em 14 de setembro, na operação da PF que investiga os incêndios, ao serem encontradas armas e munições em sua casa.

Durante a ação policial, batizada de Matáá (“fogo”, no idioma dos Guató, indígenas que vivem perto das áreas atingidas), foram cumpridos dez mandados de busca e apreensão. Uma das suspeitas dos policiais é que os pecuaristas tenham combinado queimadas na região, na linha do que ocorreu com o ‘Dia do Fogo’ na Amazônia no ano passado.

Cabeça de jacaré de boca aberta queimada como folha seca
Jacaré calcinado perto de Poconé (MT) - Amanda Perobelli-31.ago.20/Reuters

Foi cruzando dados de focos de incêndio do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) com os da Nasa que a Polícia Federal chegou à fazenda Campo Dania, de propriedade de Miranda Filho, onde os focos iniciais das queimadas foram registrados em 1° de julho.

As relações comericiais entre Miranda Filho e o governador Reinaldo Azambuja, no entanto, ocorreram a partir de outra propriedade do pecuarista: a Bahia Rica, também localizada em Corumbá. Foi de lá que, em janeiro de 2018, saiu o gado negociado com a fazenda Taquarussu, que pertence ao governador, segundo documentos obtidos pela reportagem.

O advogado de Miranda Filho, Otávio Ferreira Neto, nega que seu cliente tenha colocado fogo na fazenda Campo Dania. “Esse tipo de queimada é um método ultrapassado, que não é mais utilizado”, afirmou. O advogado disse ainda que a propriedade pertencia ao pai de Miranda Filho e que não há mais criação de gado no local.

O governador Azambuja afirmou, em nota, que não tem conhecimento sobre a operação da PF, mas que, “como produtor rural, há muitos anos mantém relações comerciais com todo o mercado de Mato Grosso do Sul”. Questionado sobre se pretende suspender negociações com o fazendeiro investigado até a conclusão do inquérito, ele não respondeu.

Azambuja é um dos maiores pecuaristas do estado. Na última declaração de patrimônio entregue ao Tribunal Superior Eleitoral, quando disputou a reeleição em 2018, ele informou possuir nove propriedades rurais, entre fazendas e chácaras, com um patrimônio que soma R$ 38,7 milhões.

Em julho, o tucano foi indiciado pela PF pelos crimes de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e formação de organização criminosa por supostamente ter recebido R$ 67 milhões em propinas da JBS em troca de incentivos fiscais, que provocaram um prejuízo de R$ 209 milhões aos cofres do estado.

O inquérito foi baseado na delação premiada de executivos do grupo J&F, que afirmaram que as propinas eram pagas em dinheiro.

Azambuja negou as acusações à época e afirmou à Repórter Brasil que o inquérito da PF trata de “denúncia antiga, baseada em delações premiadas sem qualquer credibilidade” e que não há “uma única prova de que tenha recebido qualquer tipo de vantagem indevida da JBS”. O governador disse ainda que provará sua inocência na Justiça.

Além da queimada suspeita na fazenda de Miranda Filho, a PF investiga a possibilidade de incêndio criminoso em outras três fazendas localizadas em Corumbá, de onde o fogo se alastrou entre 30 de junho e 16 de julho e causou a destruição 25 mil hectares, área maior que Recife (PE).

Entre os investigados estão Hussein Ghandour Neto, Antônio Carlos Leite de Barros e Ivanildo da Cunha Miranda. Os três negaram, por meio de seus advogados, que o fogo tenha se iniciado em suas fazendas de forma intencional.

A defesa de Cunha Miranda disse que seu cliente "nunca colocou nem mandou colocar fogo" em suas propriedades e que o fazendeiro "é vítima dos incêndios". O advogado de Gandhour Neto declarou que a fazenda alvo da PF está em nome de seu cliente, mas é administrada pelo pai e o irmão, mas que a família "desconhece qualquer situação de fogo intencional dentro da área deles".

Leite de Barros é cardiologista em Corumbá, além de pecuarista. Segundo o advogado Roberto Lins, seu cliente não foi responsável pela queimada. “Ele tem amor pela terra. Recebeu a fazenda como herança e sabe que esse tipo de queimada provoca prejuízo”, afirmou.

Desde segunda-feira (28), os delegados da Polícia Federal foram orientados pela Superintendência da Polícia Federal, em Brasília, a pararem de conceder entrevistas sobre o andamento da investigação. Afirmam que os próximos passos dependem do resultado da perícia nos celulares e notebooks apreendidos.

O Pantanal já perdeu 23% da sua área para as queimadas neste ano. A combinação entre o período seco e o uso de queimadas por fazendeiros para abrir pastagens provocou 16,9 mil focos de incêndio entre janeiro e setembro de 2020 no bioma, segundo o Inpe. A área destruída neste ano supera 3 milhões de hectares, tamanho equivalente ao da Bélgica.

A Repórter Brasil já havia verificado a origem de focos de incêndio no Pantanal do Mato Grosso, usando levantamento do Instituto Centro da Vida (ICV), com metodologia semelhante à da Polícia Federal, e constatado que incêndios com início em propriedades rurais voltadas para pecuária em Poconé (a 100 km da capital Cuiabá) foram responsável por destruir 116.783 hectares —área equivalente à cidade do Rio de Janeiro.

O cenário visto pela reportagem nas margens da BR-262, entre as cidades de Miranda e Corumbá, é desolador. Nas áreas alagadas que restaram do Pantanal, não mais se observam os até então onipresentes jacarés – apenas um espécime carbonizado pelas chamas. Em meio às cinzas e brasas, um cervo, atônito, caminha sozinho e sem rumo. Um tuiuiú – ave-símbolo do Pantanal – arremete o pouso algumas vezes, como se não encontrasse um lugar em meio à vegetação queimada.

Colaboraram Ana Magalhães e Diego Junqueira

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