Descrição de chapéu pantanal

Sem brigadistas, 60% das terras indígenas sofrem com mais de 100 mil focos de incêndio em 2020

Indígenas reclamam de falta de estrutura para combater o fogo e especialistas acusam Funai de omissão

Maria Fernanda Ribeiro Mariana Della Barba
Repórter Brasil

Apesar das muitas diferenças entre as dez Terras Indígenas (TIs) com mais focos de incêndio neste ano, os depoimentos que vêm de suas lideranças são parecidos. Envolvem desespero com a escala do fogo, omissão da Funai no combate às chamas e a percepção de nunca terem visto algo parecido antes.

O levantamento inédito, feito pela organização Global Forest Watch a pedido da Repórter Brasil, mostra que as Terras Indígenas foram devastadas por mais de 116.531 mil focos de incêndio ocorridos desde o início do ano até 29 de outubro. Os dados de satélites revelam ainda que as TIs mais afetadas neste ano foram as do Xingu (MT), Parque do Araguaia (TO) e Kayapó (PA).

Das mais de 724 Terras Indígenas consideradas no levantamento, 448 (61%) já registraram incêndios neste ano, segundo dados de queimadas ativas da Nasa, acessados por meio da plataforma da Global Forest Watch.

O território indígena campeão de queimadas neste ano, com 10.502 registros de focos de incêndio, é a TI Parque do Xingu, no Mato Grosso, que abriga 16 etnias em 500 aldeias. Impressionam o aumento de 251% dos registros de fogo em 2020 em relação ao ano passado, as imagens das chamas engolindo o território e depoimentos como o de Watatakalu Yawalapiti, uma das lideranças femininas do Xingu, feitos durante uma live em rede social: “Nossa realidade não está nada boa. Perdemos muitas lideranças, nosso povo tá morrendo [de covid-19] e, para piorar a situação, nossa casa, que é nossa farmácia e nosso supermercado, está pegando fogo.”

O time de 60 brigadistas indígenas do Xingu não dá conta do trabalho, não só pela grande quantidade de focos de incêndio mas pela ausência de estrutura. Segundo Takumã Kuikuro, um dos responsáveis por criar uma campanha para arrecadar dinheiro para equipar a brigada, faltam roupas adequadas, transporte e até mangueiras para puxar a água do rio, que tem sido retirada com baldes e bacias.

“Há três anos que temos brigadistas treinados, mas este ano tem muito fogo entrando pelas fazendas que querem aumentar suas áreas e que estão em todo o entorno do nosso território. É muito fogo para pouco brigadista”, afirma Kuikuro. “Dia desses, a aldeia ficou cinza, só via fumaça. Parecia o fim do mundo chegando no Xingu.”

A TI Parque do Araguaia, no Tocantins, aparece em segundo lugar no levantamento, com 8.792 focos de incêndio. “Este ano tá sem controle. Está muito difícil respirar, e não sabemos mais de onde vem o fogo e nem como surgiu”, afirma Eliana Karajá, coordenadora da Associação Indígena Vale do Araguaia.

O fogo se aproxima das aldeias, obriga moradores a abandonarem suas casas e atinge também um território vizinho, que é o último refúgio de um grupo de indígenas em isolamento voluntário, ambos localizados na Ilha do Bananal. A suspeita é de que o fogo tenha começado pela ação humana e de forma proposital, com o objetivo de fazer a limpeza do pasto, de acordo com o Cimi (Conselho Indigenista Missionário).

O levantamento também comprova, com números, o inferno em que se transformou neste ano o Mato Grosso no período de seca. No ranking das TIs mais queimadas neste ano em comparação com o ano passado (considerando apenas as que tiveram mais de cem focos de incêndio), sete ficam no estado. A recordista da lista é a Vale do Guaporé, da etnia Nambikwára, com o número saltando de 87 para 1.233 —um aumento de 1.317%. Além disso, das dez terras indígenas que mais sofrem com as chamas neste ano, quatro estão no Mato Grosso.

Há dois territórios dos Xavante no Mato Grosso, a TI Areões e a Parabubure. Ambas estão entre as dez com mais focos de incêndio em 2020. Lucio Xavante afirma que a realidade enfrentada pelas duas terras é diferente. Se na Areões os focos de incêndio costumam partir de bitucas de cigarro jogadas pelos motoristas da BR-158, na Parabubure o problema são as queimadas nas fazendas do entorno para ampliar as áreas de pastagens, muito próximas à divisa com a TI. No entanto, a preocupação com a chegada do fogo às aldeias é a mesma.

Além da destruição no Mato Grosso, o levantamento mostra que os focos de incêndio também atingiram indígenas isolados. Trata-se de uma TI que fica na fronteira do Pará com o Amapá. O Parque do Tumucumaque, que abriga os isolados Akurio e os do Rio Citaré, foi o território indígena com mais focos de incêndio em outubro: 1.085.

Já na TI São Marcos (RR), com 1.700 mil focos de incêndio, o registro é de abandono: não há brigadistas e os indígenas têm se organizado como podem para que o fogo não atinja as aldeias. “Infelizmente não temos uma brigada indígena, pois falta estrutura. Mesmo assim, a equipe que o cacique montou vai pro mato, na cara e na coragem mesmo”, afirma o coordenador-geral da Associação dos Povos Indígenas da Terra Indígena São Marcos, Marcello Pereira Macuxi.

Segundo o antropólogo e ex-presidente da Funai, Márcio Meira, o órgão tem obrigação de combater incêndios dentro dos territórios indígenas. "Isso está na Constituição, que estabelece que cabe à União proteger e fazer respeitar os bens das terras indígenas. O que falta é ação do governo, que não tem o menor interesse em proteção ambiental."

Maria Augusta Assirati, que comandou a Funai entre 2013 e 2014, também ressalta que há competência do órgão para atuar na prevenção e combate ao fogo juntamente com Ministério do Meio Ambiente, ICMBio, órgãos estaduais e Exército. Ela destaca, porém, que o orçamento para esse tipo de operação já vinha sendo reduzido desde a época em que era presidente. Para ela, ao desidratar a Funai e restringir seu poder para combater o fogo, o Estado deixa prevalecer "um contexto criminoso” que vitimiza territórios e indígenas, além do patrimônio ambiental.

A Funai afirmou à Repórter Brasil que compete a ela "apoiar ações de combate a incêndios e monitorar e executar ações de prevenção a incêndios em Terras Indígenas (TIs)". "Neste ano, por meio do Acordo de Cooperação Técnica com o Prevfogo, foram formadas 41 Brigadas Federais em Terras Indígenas, bem como foi realizado o primeiro Curso de Formação de Multiplicadores para Prevenção de Incêndios Florestais em Terras Indígenas”, que teve como objetivo capacitar indígenas e servidores que venham a atuar nas suas TIs".

Para Ane Alencar, diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), trata-se de uma irresponsabilidade culpar os indígenas pelas queimadas como fez o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). “São povos indígenas que vivem nessas terras há muito tempo, eles sabem como lidar com a floresta. Eles têm técnica de controle porque não querem perder o “supermercado” deles. Quando sai do controle é porque essas terras estão sofrendo pressão de invasores”, afirma.​

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