Descrição de chapéu acordo de paris clima

Assinado há cinco anos, Acordo de Paris resiste a líderes que negam mudanças climáticas

Tratado deu sinal verde para economia de baixo carbono e inspira tendência econômica

São Paulo

Celebrado em uma noite de sábado, no dia 12 de dezembro de 2015, o Acordo de Paris já nasceu como um sucesso diplomático, com recorde de assinaturas dos países no mesmo dia e entrada em vigor menos de um ano depois.

Com metas de longo prazo para conter as emissões de gases-estufa, o tratado sinaliza a transição de investimentos para uma economia menos dependente de emissões de carbono e outros causadores do aquecimento global.

No entanto, de lá para cá, o otimismo diante do maior esforço global pelo clima foi transformado em suspense por conta da ascensão de líderes de direita ligados a movimentos que negam as mudanças climáticas, especialmente em países-chave para a agenda climática: os Estados Unidos, maior emissor histórico de gases-estufa, e o Brasil, dono da maior floresta tropical do mundo.

Marcados pelas eleições dos presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro, os cinco anos do Acordo de Paris têm como marca a resiliência política do acordo, reafirmado nesse período por lideranças na Europa e na China. Também segue sendo incorporado a acordos comerciais, como é o caso do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, cuja votação pelo Parlamento Europeu depende justamente de esclarecimentos sobre o cumprimento ao acordo climático, que deve implicar em redução do desmatamento na Amazônia.

No quinto aniversário do Acordo de Paris, pessoas de ONGs ambientais se reúnem na cidade para escrever "SOS" perto da torre Eiffel - AFP

A estratégia do Acordo de Paris é baseada em metas anunciadas livremente por cada país —as contribuições nacionais determinadas, ou NDCs, na sigla em inglês —que foram submetidas em 2015 e devem ser atualizadas com metas mais ambiciosas a cada cinco anos.

Até o fim de dezembro, os países devem submeter suas novas metas climáticas para o Acordo de Paris. Os líderes dos países com metas mais ambiciosas devem discursar neste sábado (12) em evento organizado pela ONU em parceria com o Reino Unido, que sedia a próxima conferência do clima, em 2021. Na expectativa de discursar, o governo brasileiro apresentou sua proposta na última terça (8), mas não foi aceito pela organização do evento.

Com uma mudança na linha de base de comparação, a nova meta brasileira dá margem para aumento das emissões. a única proibição do acordo sobre a atualização das metas.

“Estamos dizendo aos países da América do Sul e da África: não vamos continuar comprando os mesmos produtos que consumimos no passado. Há uma mudança de padrão”, disse à Folha Yvon Slingenberg, diretora de ação climática da Comissão Europeia.

“Sem comentar sobre a política ambiental brasileira, vemos com preocupação que o setor florestal, que é chave para a redução das emissões no Brasil, não aparece na nova meta [do Acordo de Paris, divulgada nesta semana pelo governo Bolsonaro]”, acrescentou, criticando também o fato de o prazo brasileiro para atingir a neutralidade de carbono estar condicionado à implementação de um mercado de carbono. O Brasil tem barrado esse item nas negociações da ONU. “Se você coloca sua transição condicionada a um fator externo, não vai ajudar o próprio país a sinalizar para onde a economia e a sociedade precisa ir”, afirma Slingenberg.

Slingenberg também aponta que o investimento privado será fundamental — inclusive para a arrecadação de US$ 100 bilhões anuais prometidos pelos países desenvolvidos a partir deste ano — e diz que a União Europeia deve lançar no próximo março uma estratégia financeira para obrigar empresas a expor seus riscos ligados a dependência de fontes de energia fóssil e direcionar o mundo financeiro para investimentos verdes.

A sinalização econômica dada pelo Acordo de Paris já ganhou efeitos visíveis nesses cinco anos, segundo relatório publicado nesta semana pela consultoria Systemiq, voltada para negócios sustentáveis.

“Essa direção [dada pelo Acordo de Paris] aumentou a confiança de líderes para fornecer sinais consistentes nas políticas. Por sua vez, isso criou condições para empresas investirem e inovarem, e para soluções ‘carbono zero’ ganharem escala, de veículos e elétricos a proteínas alternativas [à carne bovina], até combustível sustentável para a aviação”, diz o relatório.

A pesquisa mostra que, de 2015 para cá, as soluções de baixo carbono no setor energético deixaram de ser um nicho e se tornaram um mercado de massa, enquanto soluções que ainda estavam em desenvolvimento em setores de transporte, agricultura, manejo de solos e aviação ganharam mercado de nicho. O relatório projeta que esses setores avancem para um mercado massivo até 2030.

Essa também é a aposta de empresas do setor de energias renováveis, especialmente de solar e eólica. Em seu relatório anual, a Statkraft, uma das maiores empresas de energia renovável na Europa, afirma que o segmento conseguiu se manter em crescimento mesmo durante a pandemia. A empresa também investe no Brasil e projeta que “20% da eletrificação brasileira seja proveniente de fontes eólica e solar até 2030”.

O país, no entanto, está aquém da meta de expansão das energias renováveis e perdeu cinco posições no ranking de desempenho climático produzido pela organização Germanwatch, que classificou a política climática brasileira no nível mais baixo.

Apesar de ter estabilizado o consumo de energia, o Brasil tem aumentado suas emissões, mesmo durante a pandemia, por conta das altas seguidas no desmatamento. No relatório anual Emissions Gap Report, o Brasil aparece junto à Indonésia e ao Congo entre os maiores emissores ligados à derrubada de florestas.

Por outro lado, o país também figura, junto a China, Rússia e Estados Unidos, entre os maiores ‘tanques’ de absorção de carbono, através da gestão de unidades de conservação para que florestas permaneçam de pé.

Globalmente, as emissões de gases-estufa subiram de 53 bilhões de toneladas em 2015 para 55 bilhões em 2020. No entanto, o gás carbônico, que responde pela maior parte das emissões, desacelerou as emissões nos últimos anos e sofreu uma queda recorde na quarentena para conter a pandemia de Covid-19. O principal impacto se deve à redução das emissões do setor de transportes, responsável por quase 20% das emissões globais.

Com a pandemia, a projeção é que o ano de 2020 termine com uma redução de 7% nas emissões de gás carbônico. Se a taxa for repetida anualmente nos próximos dez anos, o mundo conseguirá alcançar a meta do Acordo de Paris de conter o aumento da temperatura global em até 1,5ºC. A maior aposta para essa trajetória está na adoção de critérios de sustentabilidade para os planos de recuperação econômica pós-pandemia.

O que torna a possibilidade de uma retomada econômica verde ainda mais otimista é um novo estudo publicado nessa semana pela revista científica Nature Climate Change. Pela primeira vez mostrou-se que as reduções de emissões de gases-estufa seguindo o Acordo de Paris podem ter benefícios climáticos já nos próximos 20 anos, desacelerando o aquecimento global ainda antes de 2050.

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