Florestas de MG deixam de retirar carbono da atmosfera e passam a ser fonte do gás, diz estudo

Estudo que mostra a dificuldade de as árvores cumprirem seu papel, muito por culpa do ser humano, saiu na Science Advances

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São Carlos (SP)

Nas últimas décadas, florestas de diferentes regiões de Minas Gerais têm tido dificuldades cada vez maiores para cumprir um de seus mais importantes papéis ecológicos: retirar CO2 (gás carbônico ou dióxido de carbono) da atmosfera e, assim, mitigar o aquecimento do planeta.

Em diversos casos, em vez de atuarem como “ralos” de CO2, como seria o normal, tais matas passaram a funcionar como fonte do gás, alimentando um ciclo de emissões de dióxido de carbono que provavelmente já afetava esses ambientes de forma negativa. É algo que está se intensificando principalmente nas áreas florestais mais secas, nas zonas de transição entre a mata atlântica e outros ambientes, como o cerrado e a caatinga.

Floresta tropical no sudeste do Brasil; estudo mostra que florestas de MG estão liberando mais carbono do que absorvem
Floresta tropical no sudeste do Brasil; estudo mostra que florestas de MG estão liberando mais carbono do que absorvem - Rubens Santos

“As pessoas nunca pensam que as alterações climáticas estão acontecendo do lado delas, no seu entorno, na sua cidade”, diz Rubens Manoel dos Santos, professor da Universidade Federal de Lavras (MG) e um dos autores do estudo. “Parece que é algo que só afeta lugares distantes, como a Amazônia ou a África. Mas o nosso trabalho mostra como isso já é parte do cotidiano.”

Os resultados preocupantes acabam de sair em artigo na revista especializada Science Advances. Santos e seus colegas investigaram 32 áreas diferentes de mata espalhadas pelo território mineiro (veja infográfico), num esforço de análise temporal que já acontece desde 1987, dependendo da região— em média, cada local foi analisado durante 15 anos.

Conforme explica Vinícius Andrade Maia, também autor da pesquisa, os vários trechos de floresta pertencem, em sua maioria, à mata atlântica, mas abrangem uma grande diversidade de características físicas (tipos de solo, incidência de chuvas etc.) e vegetais. Há desde matas mais fechadas e úmidas, ditas perenifólias (que não perdem suas folhas na estação seca), até as chamadas semideciduais e deciduais, que perdem parte ou a maioria de sua folhagem nos meses com pouca chuva.

Em situações normais, as florestas costumam sequestrar (retirar) dióxido de carbono do ar conforme as árvores crescem. Isso acontece porque o CO2 é usado como matéria-prima para a construção do organismo das plantas por meio do processo de fotossíntese.

Nos últimos séculos, a proporção desse gás na atmosfera tem aumentado muito por culpa do ser humano, graças à queima de combustíveis fósseis (gasolina e carvão). Grupos conspiracionistas anticientíficos costumam minimizar o problema dizendo que o gás carbônico que está “sobrando” na atmosfera simplesmente ajudaria as florestas a crescer mais rápido, além de favorecer também a agricultura.

O cenário das florestas mineiras deixa claro como essa ideia é simplista e enganosa. Durante as décadas em que as matas foram estudadas, o teor de CO2 na atmosfera não parou de crescer. Ao mesmo tempo, houve flutuações de temperatura e precipitação (chuva) —mais calor e menos chuva ao longo do período, em resumo. Até 2013, houve aumento dos chamados estoques de carbono, ou seja, o dióxido de carbono que era “recolhido” pelas florestas. Dali em diante, a conta foi ficando cada vez menos positiva: as matas passaram a perder mais carbono do que aquele que estavam recolhendo. No fim das contas, o valor líquido (a soma de sequestro e perda de carbono) se tornou negativo para as florestas semideciduais e deciduais: elas viraram fontes de CO2 para a atmosfera.

“O aumento de CO2 no ar não necessariamente vai ser convertido em crescimento. As plantas podem se aclimatar aos novos níveis do gás e não crescer além dos níveis normais”, explica Maia. Além disso, a mudança também pode aumentar a competição por espaço entre as árvores, o que também leva a mais mortalidade entre elas.

Não se pode esquecer, por fim, que as mudanças climáticas também aumentam a probabilidade de eventos extremos, como períodos estendidos de seca ou chuvas muito fortes, os quais acabam provocando mortalidade acentuada e diminuindo o crescimento das árvores. “Ainda é cedo para afirmar quais as causas mais importantes. Precisamos continuar os trabalhos para tentar estabelecer isso”, afirma o pesquisador.

De qualquer modo, os dados reforçam a necessidade de medidas contra a emissão descontrolada de gases do aquecimento global e de proteger ambientes como a mata atlântica, já muito devastada pela expansão agrícola e atividade madeireira. ​

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