Descrição de chapéu pantanal

Vi um Pantanal desfigurado, sem vida, silencioso, conta fotógrafo João Farkas

Profissional retorna ao bioma que documentou por cinco anos para registrar a destruição após incêndios

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João Farkas

Documentarista paulistano, autor de livros sobre a Amazônia e o Pantanal.

O que mais me chocou foi o silêncio.

Voltar ao Pantanal no início de dezembro, após a mais violenta onda de incêndios de que se tem notícia, foi encontrar uma terra descolorida, sem vida, onde antes se ouvia a algazarra de papagaios e araras, o mergulhar pesado de jacarés e capivaras, a dança sutil das garças azuis.

Quando fui levado ao Pantanal pela primeira vez, em 2014, os fazendeiros falavam da grande catástrofe do rio Taquari. O enorme rio, já navegado pelos bandeirantes, havia extravasado suas margens e inundado permanentemente grande parte do local, destruindo fazendas e tornando campos alagáveis em um lago raso com pouca vida.

Naquela altura, as ameaças ao Pantanal vinham pela água dos rios, rastros de uma agricultura arcaica que não soube conter o aluvião dos terrenos arenosos nos planaltos. A inundação do Taquari, no fim dos anos 1990, foi um dos maiores desastres ambientais do país. Fora do Pantanal, ninguém sabia ou se importava.

Fui chamado para construir um depoimento visual, um alerta, um manifesto. Mas o Pantanal revelou outra mensagem: mais uma vez, queria mostrar-se incrivelmente belo, espetacularmente diferente das imagens já conhecidas.

Era como se eu ouvisse o seu desejo de não mostrar apenas a destruição, mas apresentar ao Brasil aquilo que estava se perdendo silenciosamente e que precisa sobreviver.

Em um poema, Carlos Drummond de Andrade descreveu o Pantanal como o amanhecer do primeiro dia da criação. Foi com essa imagem do paraíso primordial, ou da terra imaculada, que construí meu livro “Pantanal” (Edições Sesc SP). É uma celebração da natureza que também tem registros da catástrofe líquida e de outras ameaças ao bioma.

Em 2019, fiz fotos fortes, impressionantes, incluindo a do leito do rio Taquari que secou totalmente em seu curso médio em setembro daquele ano. A imagem da capa se impôs: uma linha de fogo de 30 km que avançava devastadora e imparável sobre os campos do Parque Estadual do Rio Negro (MS).

obra de arte
Fotografia de João Farkas que é a capa do livro "Pantanal" - João Farkas/Divulgação

O Pantanal queimava diante de brigadistas impotentes e pássaros atônitos que voavam em círculos sem se afastar da zona incendiada, incrédulos, sem rumo.

Mas jamais imaginávamos, nem eu nem os fazendeiros, cientistas ou ambientalistas que me apoiaram em seis anos de trabalho, que, em 2020, o Pantanal seria palco de uma hecatombe ambiental capaz de carbonizar fauna e flora de vastas porções do território.

O livro que estava destinado a ser o registro de um lento processo de degradação tornou-se um grito desesperado de socorro por uma das regiões mais belas e ricas em biodiversidade do planeta.

Acabo de retornar mais uma vez da região. Toda área alagada pelo rio Paraguai aos pés da Serra do Amolar está seca e seus capões de mato —ou cordilheiras— reduzidos a paus queimados. Antigas baías, espelhos d’água multiformes vitais e graciosos, estão secas como praias ou lamaçais enquanto bandos de tuiuiús e de garças chafurdam em desespero.

Uma região que deslumbrou visitantes, fotógrafos e poetas com incrível harmonia de água e mato, lagoas, corixos e rios tem hoje aparência totalmente desfigurada.

Diariamente, o vento levanta nuvens de fuligem e de pó ocre acinzentado, que, quando revira em redemoinho, traumatiza as crianças e preocupa as mães. No auge dos incêndios, o ar ficou irrespirável por ali, assustador.

É verdade que o Pantanal começa a se recuperar e o verde já rebrota porque houve alguma chuva em outubro.

O Pantanal tem resiliência ao fogo. Mas, desta vez, especialistas alertam que a extensão das queimadas eliminou, além da vegetação, um número exagerado de animais e que a vida levará muito tempo para se recompor de alguma forma.

Ilusório pensar que se trata apenas de ação criminosa de alguns e de omissão ou falta de prevenção e combate ao fogo. Tudo isso apenas ajudou a catalisar um processo lento e aparentemente inexorável de aquecimento e seca na região, que reflete mudanças climáticas globais.

Os especialistas nos avisam há décadas que algo muito sério ocorre no planeta. O Pantanal é apenas uma região mais frágil e sensível a essas mudanças desencadeadas pelo Antropoceno (era geológica marcada pelos efeitos da ação humana).

O Pantanal não deixará de existir nem de ser belíssimo e de acolher visitantes, mas está cumprindo uma missão de alerta. Essa região fascinante, que aprendi a amar ao conhecer, se apresenta em sacrifício e urgente testemunho de um destino que aguarda a todos se não soubermos mudar.

Como disse o cacique norte-americano Seattle (1786-1866) em 1855: “Tudo o que fere a Terra fere também os filhos da Terra”.

Pantanal

  • Preço R$ 150,00 (160 págs)
  • Autor João Farkas
  • Editora Edições Sesc SP
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