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Por que tantos migrantes e pessoas deslocadas na América Latina?

Há anos os desastres naturais têm superado os conflitos e a violência como causa de deslocamento

David Castells-Quintana

Professor de Economia na Universidade Autônoma de Barcelona, especializado em economia internacional, economia urbana e desenvolvimento econômico

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Os números de migrantes internacionais, assim como os de deslocados internos, não param de aumentar na América Latina, como mostram os dados de instituições como a Organização Internacional para as Migrações (OIM) ou o Centro de Monitoramento de Deslocados Internos (IDMC, na sigla em inglês).

A nível internacional na região, destacam-se os milhões de venezuelanos que seguem escapando a cada ano do regime totalitário que os governa; um êxodo que já totaliza 4 milhões nos últimos anos.

De forma paralela, destacam-se os centenas de milhares de nicaraguenses, salvadorenhos e guatemaltecos que nos últimos dois anos percorreram o caminho para o norte a pé, tentando deixar para trás uma vida de pobreza. Internamente, a Colômbia continua predominando, com o registro anual de mais de 100 mil pessoas deslocadas fugindo dos conflitos endêmicos do país.

Venezuelanos tentam cruzar a fronteira para entrar na cidade colombiana de Cúcuta
Venezuelanos tentam cruzar a fronteira para entrar na cidade colombiana de Cúcuta - Schneyder Mendoza - 14.mar.2020/AFP

De forma similar, aumenta o deslocamento interno no México, consequência da violência associada ao tráfico de drogas.

Assim, ao longo das décadas, os conflitos e o constante abandono do campo por parte das autoridades já empurraram milhões de pessoas na América Latina das áreas rurais para as urbanas. As grandes cidades da região são muitas vezes o destino final.

Mas hoje em dia existe uma força mais poderosa por trás do deslocamento de pessoas das zonas rurais para as urbanas: o clima rigoroso, uma consequência da mudança climática.

Como aponta o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC), a América Latina e o Caribe são uma das regiões mais afetadas pelo aquecimento global. Seus efeitos se traduzem em uma maior frequência e intensidade de furacões, tempestades e enchentes, bem como mais secas e incêndios.

Esses fenômenos estão deslocando cada vez mais pessoas, tanto dentro como entre os países da América Latina.

Segundo dados do IDMC, somente em 2018 as catástrofes naturais deixaram quase 20 milhões de pessoas deslocadas no mundo inteiro, quase dois milhões em nossa região. Um número que excede o de qualquer conflito armado, incluindo o colombiano, ou conflito político, incluindo o venezuelano.

De fato, há anos os desastres naturais têm superado os conflitos e a violência como causa de deslocamento.

Além das catástrofes, cujo impacto as traz para as manchetes, a mudança climática também resulta em progressiva degradação ambiental, que é mais lenta, mas igualmente devastadora, e também se tornou uma força de deslocamento.

Exemplos incluem mobilizações humanas como a Grande Caravana dos Migrantes, à qual se juntaram centenas de milhares de centro-americanos que estão migrando para o norte, precisamente para escapar das recorrentes secas em seus países de origem.

No entanto, o aquecimento global tornou-se não apenas uma das principais causas do deslocamento humano em larga escala mas também um fator determinante na urbanização global.

Isso é revelado pela análise de dados de alta resolução sobre clima, desastres naturais e localização populacional, como os realizados em um estudo científico recentemente publicado no Journal of Economic Geography.

O estudo mostra claramente a importância da mudança das condições climáticas para a compreensão da urbanização recente em todo o mundo. Uma urbanização rápida e não regulamentada na qual uma grande parte dos "deslocados climáticos" acaba nas grandes cidades de cada país.

Um fenômeno que nos países em desenvolvimento resulta em cidades não apenas maiores mas também mais fragmentadas, onde os que chegam geralmente estão localizados em subúrbios em crescimento, desconectados dos centros de emprego e em condições de vida precárias.

Em números absolutos, e novamente de acordo com o IDMC, os países latino-americanos com o maior número de deslocados climáticos em 2018 foram o Brasil (87 mil pessoas deslocadas, a maioria associada ao desmatamento), a Colômbia (67 mil, a maioria devido a inundações) e Cuba (52 mil, devido a tempestades e furacões).

Em 2019, o número triplicou no Brasil, atingindo 295 mil pessoas deslocadas pelo clima. No Paraguai, 54 mil pessoas foram deslocadas recentemente, e na Bolívia 77 mil foram deslocadas devido a distorções nos padrões pluviométricos associados a El Niño-Niña, a incêndios e à atividade do vulcão Ubinas.

Em 2020 os números (ainda não consolidados) apontam para números semelhantes.

Assim, o impacto da mudança climática se soma a uma longa história de ondas migratórias na região e só agrava o desafio do deslocamento associado ao conflito, violência e abandono das áreas rurais. Mais uma razão pela qual a questão já é uma prioridade política.

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Tradução de Maria Isabel Santos Lima

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