Último homem do povo juma no país morre de Covid

Extinção da etnia estava decretada desde 1999, quando cunhado de Aruká Juma faleceu

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Michael Astor

​Durante sua vida, Aruká Juma viu sua tribo na Amazônia encolher para um punhado de indivíduos. Com número estimado em 15 mil no século 18, seu povo foi assolado por doenças e sucessivos massacres por seringueiros, madeireiros e garimpeiros. Segundo se calcula, restavam cem deles em 1943, mas um massacre em 1964 deixou apenas seis, incluindo Aruká.

Em 1999, com a morte de seu cunhado, Juma, que como muitos indígenas brasileiros usava o nome da tribo como sobrenome, tornou-se o último homem juma. A extinção da etnia estava decretada.

Juma morreu em 17 de fevereiro em um hospital em Porto Velho, capital de Rondônia. Acredita-se que ele teria entre 86 e 90 anos de idade. A causa foi Covid-19, segundo seu neto, Puré Juma Uru-Eu-Wau-Wau.

Como último falante fluente da língua da tribo, a morte de Juma significa que muitas tradições e rituais dessa etnia serão esquecidos.

Aruká Juma posa para a foto sentado em uma rede instalada em um ambiente de madeira. Ele está sem camisa, de bermuda azul escura e descalço
Aruká Juma, último homem de sua tribo, morreu de Covid - Odair Leal/Amazônia Real

Em 1998, em circunstâncias confusas, as autoridades federais removeram Juma e sua família de sua terra e os levaram para Rondônia, na esperança de que se casassem com membros da tribo parente uru-eu-wau-wau, como forma de preservar parcialmente sua cultura.

Mas Juma suspeitou que a medida se destinava a privar seus familiares de suas terras e abriu um processo para ser devolvido, o qual se arrastou por 14 anos.

Enquanto isso, as três filhas de Juma se casaram com homens uru-eu-wau-wau. Juma também teve uma filha com uma mulher dessa tribo, Boropo, de quem se separou em 2007. A primeira mulher de Juma, Mborehá, morreu em 1996.

Os juma voltaram para sua terra em 2012. Juma ficou feliz, mas os maridos de algumas de suas filhas não gostaram da vida lá. Os netos, que só falam português, tiveram de voltar a Rondônia para estudar. Juma, que não falava português, expressou frustração pela incapacidade de se comunicar com os netos e lhes ensinar as tradições juma.

"Hoje me sinto só e penso muito na época em que havia muitos de nós", ele disse ao fotógrafo Gabriel Uchida, que morou entre os juma fotografando-os para uma reportagem para o site de cultura e estilo de vida Riscafaca.com. "Éramos muitos antes que os seringueiros e os garimpeiros viessem para matar todos os juma. Na época, os juma eram felizes. Agora sou só eu."

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