Avistamento recorde de baleias no litoral norte de SP intriga especialistas

Projeto Baleia à Vista registrou, entre abril e junho, ao menos 69 avistamentos em São Sebastião e Ilhabela

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Reginaldo Pupo
São Sebastião (SP)

Após ter um aparecimento de pinguins acima da média em 2020, o litoral norte de São Paulo registrou este ano um recorde de avistamento de baleias. A quantidade anormal de avistamentos e o início precoce da temporada neste ano vêm intrigando os especialistas.

Desde 08 de abril e 09 de junho, foram registrados pelo Projeto Baleia à Vista ao menos 69 avistamentos entre os municípios de São Sebastião e Ilhabela. É uma média superior a uma baleia por dia.

“Mas esse número pode ser bem maior, pois nem todas conseguimos registrar, devido às dimensões do Canal de São Sebastião”, observa Júlio Cardoso, idealizador do projeto.

O canal possui 25 km de comprimento, entre 2 km e 7 km de largura, 40 metros de profundidade e divide os municípios de São Sebastião e Ilhabela. Algumas baleias podem não ser avistadas por passarem por fora do canal, atrás de Ilhabela.

Na temporada do ano passado, que também começou mais cedo, entre maio e junho, foram registradas 12 baleias da espécie jubarte entre São Sebastião e Ilhabela.

Baleia jubarte no mar do litoral norte de São Paulo
Baleia juvenil é avistada no litoral norte de São Paulo com rede presa à boca; ela foi resgatada e depois devolvida ao mar - Divulgação / Projeto Baleia à Vista

O litoral norte de São Paulo integra a rota das baleias, principalmente das espécies jubarte e baleia-de-Bryde, que saem do hemisfério sul em busca de águas mais quentes para reprodução. O destino final, geralmente, é Abrolhos, no sul da Bahia.

Em anos anteriores, segundo Cardoso, as baleias iniciavam a viagem nos meses de julho. No ano passado, porém, elas começaram a surgir na região do litoral norte um mês antes, em junho. “Neste ano, a temporada começou ainda mais cedo, em abril, algo bem incomum”, observou.

Cardoso afirma que o fenômeno também vendo sendo registrado em praticamente todo o Atlântico Sul e em países como Uruguai e Argentina. “As baleias estão passando também pelo litoral sul de São Paulo e em Santa Catarina, estado que não tem tradição em avistamentos”, completa.

“Estamos diante de um aumento monstruoso, uma quantidade enorme, um número incrivelmente maior de baleias jubarte em nossa região, um fenômeno que precisa ser estudado mais para frente, pois ainda estamos no meio da temporada. Precisamos saber os motivos que estão levando as jubartes a virem para a região em maior quantidade e mais cedo”, avalia Cardoso.

A maioria das baleias que vêm surgindo na região do litoral norte é da espécie jubarte e juvenil –têm entre um e dois anos de idade e desmamaram recentemente.

“Nesta fase, elas são muito curiosas e gostam de chegar próximo de embarcações e da costa em busca de comida. É um comportamento diferente das grandes baleias, que desviam da área de alimentação e seguem seu rumo para a área de reprodução”, explica.

Ele diz acreditar que um dos motivos que podem estar atraindo as baleias para dentro do Canal de São Sebastião é a temperatura da água, que está em 23ºC em média, ante 21ºC registrada no ano passado. Outra explicação seria o aumento natural da população.

As baleias utilizam o Canal de São Sebastião apenas como passagem e na maioria das vezes não permanecem na região. “É como se o canal fosse um local para descanso. Se tiver um lanchinho, elas fazem, depois seguem a rota. Raramente permanecem mais de dois dias”, diz Cardoso.

De acordo com Marcos César de Oliveira Santos, professor do Laboratório de Biologia da Conservação de Mamíferos Aquáticos do Departamento de Oceanografia Biológica da USP (Universidade de São Paulo), o aumento da população vem ocorrendo desde meados do século passado, quando houve a proibição de caça às baleias na Antártica.

“Com isso, os estoques populacionais vêm se recuperando gradualmente. E a jubarte tem maior tolerância a esse aumento, por ter acesso a um cardápio maior de alimentação e por resistir a fatores ambientais”, afirma.

Com tantas baleias surgindo no canal e até mesmo próximo às praias de Ilhabela e São Sebastião, locais onde há intenso tráfego de lanchas de passeios e escunas aos finais de semana, outro problema acabou surgindo: muitos turistas se aproximam das baleias com suas embarcações para registrar o momento em fotos, vídeos e selfies, colocando em risco a integridade física do animal e dos próprios curiosos.

De acordo com Santos, com base em dados das autoridades portuárias, quintuplicou a quantidade de barcos na região do litoral norte de São Paulo.

"Há uma grande preocupação dos cientistas em relação aos turistas que até entram água para se aproximar das baleias, pois não sabemos quais podem ser as reações delas com essa importunação”, explica.

Na última sexta-feira (4), uma baleia juvenil foi avistada entre São Sebastião e Ilhabela com uma rede de pesca presa na boca. Vídeos que circularam nas redes sociais mostraram ao menos 12 lanchas cercando a baleia, inclusive bloqueando sua passagem. Alguns turistas tentavam retirar a rede, mesmo correndo o risco de cair no mar.

De acordo com o oceanógrafo Hugo Gallo, presidente do Instituto Argonauta, proprietários de embarcações que se aproximam de animais marinhos descumprem regras marítimas: "Quem não cumpre está cometendo um crime".

A baleia foi resgatada por uma equipe do Instituto Argonauta, que foi acionada pelo CMA-ICMBio (Centro de Mamíferos Aquáticos) do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, acompanhada pelo Projeto Baleia à Vista e Projeto Conservação da Toninha.

A equipe de biólogos se aproximou da baleia por meio de um bote para iniciar o processo de desemalhe, em uma operação arriscada que precisou ser feita seguindo protocolos específicos e regulamentados no Brasil pelo CMA-ICMBIO e por uma equipe técnica treinada.

Biólogo do Instituto Argonauta, Manuel da Cruz Albaladejo participou da operação e diz que a baleia estava calma, não reagiu à aproximação da equipe e não apresentava ferimentos aparentes provocados pelo enredamento.

Segundo o Instituto Argonauta, as baleias sofrem inúmeras ameaças, mesmo após a proibição de sua caça no Brasil e as redes de pesca são uma das que mais causam problemas, mesmo que acidentalmente.

As chamadas redes de espera, que são deixadas por pescadores para capturar peixes, muitas vezes não são percebidas pelas baleias, que acabam se enroscando e muitas vezes morrendo ou se machucando por ficarem presas a este tipo de material, que é resistente, feito de nylon e fibras sintéticas.

“Uma das nossas maiores preocupações [na operação] era com a segurança dos turistas que estavam tentando fazer o procedimento de salvamento da baleia e que mesmo com a melhor das intenções, não deve ser feito por pessoas despreparadas, por colocar em risco a si mesmas, bem como o próprio animal”, disse Albaladejo.

Após a retirada da rede pesca, a baleia seguiu viagem.

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