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'Sem querer', brasileira entra em pesquisa sobre coronavírus na Itália

Cientista foi ao país estudar zika antes de estourar crise e viu sua rotina mudar

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São Paulo

A cientista Rafaela da Rosa Ribeiro, 32, foi para a Itália no ano passado como parte da sua pesquisa do vírus da zika. Nesse meio tempo, o país foi assolado pela epidemia do novo coronavírus e ela viu sua rotina e sua pesquisa mudarem drasticamente.

Ribeiro agora está no centro de importantes pesquisas na Itália, coordenadas por uma das maiores especialistas em coronavírus, Elisa Vicenzi.

Em uma delas, estuda células de morcegos. “Eles são os principais reservatórios da família dos coronavírus na natureza, mas não ficam doentes. A gente vai tentar entender esse mecanismo e, quem sabe, eventualmente descobrir alguma coisa que o morcego tenha que se possa usar terapeuticamente”, explica Ribeiro.

O outro projeto vai verificar se o vírus atinge ou não o sistema imunológico. “Tudo que a gente conseguir saber do coronavírus agora é importante. Que tipo de órgãos e tecidos atinge, como se relaciona. É importante entender o panorama de infecção”, afirma.

Mas nada disso estava previsto quando ela chegou a Milão, há mais de nove meses.

Rafaela da Rosa Ribeiro em laboratório em Milão, país onde ela estuda o novo coronavírus - Arquivo pessoal

Rafaela da Rosa Ribeiro é bióloga, doutora em biologia celular e estrutural pela Unicamp e faz pós-doutorado no Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, com bolsa da Fapesp (agência paulista de fomento à ciência).

Chegou a Milão no meio de 2019 para ficar um ano pesquisando de que maneiras o vírus da zika infecta as células do sistema nervoso.

“No meio dessa história, veio o surto de coronavírus na China, e descobri que a doutora Eliza Vicenzi era especialista em coronavírus e fez parte do segundo grupo no mundo que sequenciou o vírus da Sars, em 2003”, conta.

“Ela começou a dar palestras, começamos a discutir papers. Mas nunca imaginamos que chegaria a essa situação que chegou, era uma coisa muito longe. Pensamos que ou ia se conter à China, ou, se se espalhasse, seriam casos não comunitários, de gente que contraiu lá e viajou.”

“Cientificamente, foi gratificante estar aqui nesse momento, se é que posso dizer assim. Estar no segundo país mais afetado e estar num grupo que a coordenadora é uma grande especialista no assunto”, diz.

Agora, a vida de Rafaela virou de ponta-cabeça.

Ela tem uma autorização especial para poder sair às ruas e usar o metrô, dada pela prefeitura e assinada pela instituição em que trabalha, o hospital San Raffaele.

Os pesquisadores se revezam no trabalho para evitar aglomerações. No laboratório, trabalha com roupas específicas e, antes de entrar ou ao sair da sala de cultura do vírus, passa por uma antessala com um sistema de pressão negativa que impede que qualquer partícula do coronavírus que porventura fique em sua roupa de proteção saia para fora.

O hospital em que desenvolve a pesquisa recebeu doações de moradores da cidade e vai construir uma nova ala para pacientes, mas falta pessoal, porque médicos e enfermeiros também se infectaram, conta ela.

“Não tá fácil. É casa, casa, casa. Não tem outra alternativa. Na primeira semana de isolamento fiquei cinco dias sem sair de casa, sem ver uma pessoa. Faz mais de duas semanas que não vejo meus amigos. A cidade está quieta. É uma situação bastante triste, que ninguém esperava.”

No começo, ela diz, chegou a pensar em voltar para o Brasil se a situação não se resolvesse logo. “Mas, como sou cientista, trabalho com isso, entendo a necessidade dessas medidas e resolvi ficar.

“O que me salvou foi ter entrado nesse projeto. Estudei muito sobre o coronavírus, e isso ocupou minha cabeça.

Deu um certo medo, sim, ela conta, mas menos de pegar a doença e mais de como seria o dia a dia “de faltar comida, de eu não conseguir trabalhar e ter que ficar em casa”, afirma.

Apesar de tudo, ainda não teve problemas para ir ao mercado e tem encontrado o que precisa. “Só que não tem loja, só farmácia e mercado, e só entram algumas pessoas por vez. O resto fica do lado de fora, fazendo uma fila, distante um metro uma pessoa da outra”, diz.

E deixa um recado para quem fica no Brasil, país que ainda tem chance de conter os estragos causados na Europa, na avaliação dela:

“Uma coisa que a gente vê que deu errado é que, dentro da profilaxia, percebemos que não é só lavar as mãos e ter cuidado ao tossir e espirrar. É urgente diminuir o fluxo de pessoas e o contato. As pessoas que podem trabalhar de casa, as universidades que podem parar, precisam parar. Isso é muito importante antes de deixar o surto acontecer, que está previsto para acontecer no Brasil em abril”, diz ela.

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