Descrição de chapéu Rio de Janeiro

Após prisão de suposto atirador, Anistia cobra nome de mandante da morte de Marielle

Polícia Civil do Rio prendeu nesta terça (12) policial e ex-PM suspeitos de matar a vereadora

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Dhiego Maia Júlia Zaremba
São Paulo

A prisão de dois suspeitos envolvidos no assassinato da vereadora Marielle Franco, crime que completará um ano nesta quinta-feira (14), é para a Anistia Internacional apenas um nó desatado em meio a um universo com “muitas perguntas ainda não respondidas.” A principal delas, para a entidade é: onde está o mandante dos assassinatos?

Nesta terça (12), uma grande operação da Polícia Civil prendeu o policial militar reformado Ronnie Lessa, 48, e o ex-PM, Élcio Vieira de Queiroz, 46. Segundo denúncia do Ministério Público, Lessa é apontado como um dos que dispararam a arma que matou a vereadora e seu motorista, Anderson Gomes. Já Queiroz estaria no carro de Lessa quando os tiros foram disparados.

Para a Anistia Internacional, Lessa e Queiroz “devem ser levados à Justiça para que, em um julgamento que respeite o devido processo, a eventual responsabilidade criminal seja determinada.” A entidade que luta pela defesa dos direitos humanos reiterou às autoridades brasileiras a necessidade de se criar um “grupo externo e independente de especialistas para acompanhar as investigações e o processo.”

“As investigações devem continuar até que os autores e os mandantes do assassinato sejam levados à Justiça”, disse a Anistia em nota.

Outra ONG, a Human Rights Watch, afirmou por meio de nota que a detenção dos suspeitos, "se confirmadas as evidências sobre seu envolvimento, é um passo muito importante na eludicação deste grave crime que chocou o Brasil e o mundo".

"Para além disso, permanece o desafio fundamental de que os investigadores da polícia e o Ministério Público avancem no inquérito que visa identificar os mandantes do assassinato. A sociedade precisa saber não só quem apertou o gatilho, mas quem mandou matar e o porquê", informou a organização.

O PSOL (partido político de Marielle) classificou a prisão dos suspeitos de "um importante avanço, embora tardio, nas investigações para solucionar definitivamente esse bárbaro crime político."

O partido também disse que exigiu das autoridades "uma resposta definitiva que pudesse pôr fim à angústia da família, amigos e companheiros de partido de Marielle." "Por isso, o PSOL manifesta seu alívio diante da informação de que os autores do assassinato foram identificados."

No entanto, para o PSOL, o crime só será plenamente esclarecido "quando forem identificados e devidamente responsabilizados também os mandantes do assassinato de Marielle e Anderson e as motivações do crime."

Para a relatora da CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos) para o Brasil, Antonia Urrejola, a prisão dos suspeitos representa “um grande avanço para que a Justiça seja alcançada.”

“O assassinato da Marielle tem um simbolismo muito forte quanto à situação dos defensores de direitos humanos no Brasil”, diz. “A notícia sobre as prisões é muito boa. Agora, é necessário seguir as investigações e descobrir os mandantes do crime.”

Ela diz que a CIDH, vinculada à Organização dos Estados Americanos, seguirá monitorando as investigações e as determinações da Justiça. 

A comissão acompanha o caso desde o início. Em março, logo após a morte de Marielle, Urrejola antecipou uma viagem de trabalho que faria ao Brasil para acompanhar  a situação. Em agosto, a CIDH solicitou que o Brasil adotasse medidas para proteger a viúva da vereadora, Mônica Benício.

OPERAÇÃO POLICIAL

A ação desta terça que levou à prisão de Lessa e Queiroz foi feita com equipes reduzidas da Polícia Civil e do Ministério Público para evitar chamar atenção. Às 5h, equipes já cumpriam mandados de prisão nos endereços dos suspeitos.

De acordo com as investigações, o carro de Marielle, em que também estavam o motorista, Anderson Gomes, e a assessora da vereadora, foi interceptado em uma região do centro do Rio conhecida como Cidade Nova. No local, um carro emparelhou com o da vereadora e uma pessoa disparou, segundo a polícia, usando uma arma automática.

De acordo com a promotoria, "a empreitada criminosa foi meticulosamente planejada durante os três meses que antecederam o atentado". A Folha apurou que os presos foram levados para a Delegacia de Homicídios, que lidera as investigações. Está prevista para as 11h uma coletiva com as autoridades do caso.

Lessa foi preso em sua casa, no condomínio Vivendas da Barra, na Barra da Tijuca, zona oeste. O local é o mesmo em que o presidente Jair Bolsonaro tem casa. Os trechos da denúncia divulgados até o momento não mencionam o nome do presidente. Ao menos 34 imóveis ligados à investigação tiveram mandados de busca e apreensão expedidos. Não há notícia até o momento de quais desses locais têm relação com a família Bolsonaro.

De acordo com o jornal O Globo, Lessa entrou na lista de suspeitos após ser vítima de uma emboscada, em 28 de abril, trinta dias depois do assassinato da vereadora. A suspeita seria que pessoas envolvidas no crime teriam tentado promover uma queima de arquivo.

Os investigadores também teriam identificado que o policial reformado teria feito pesquisas sobre a rotina de Marielle e sobre eventos que participaria semanas antes do crime.

Além dos pedidos de prisão, o Ministério Público também pediu a suspensão da remuneração e do porte de arma de Lessa. Também foi pedido à Justiça indenização por danos morais das famílias da vítima e pensão em favor do filho de Anderson Gomes até ele completar 24 anos.

A Folha apurou que os dois também foram denunciados por tentativa de homicídio da assessora de Marielle que sobreviveu ao atentado. Segundo a denúncia, Marielle teria sido morta em razão de sua militância em favor dos direitos humanos. A operação desta manhã foi a primeira com a participação do Ministério Público do Rio, por meio do Gaeco, que é o grupo de combate ao crime organizado. Essa unidade investiga crimes principalmente relacionados às milícias no Rio.

A ação foi batizada de Lume, em referência ao Buraco do Lume, praça no centro do Rio em que parlamentares do PSOL costumam se reunir para falar de seus mandatos, toda sexta-feira. Marielle tinha um projeto no local chamado Lume Feminista.“É inconteste que Marielle Francisco da Silva foi sumariamente executada em razão da atuação política na defesa das causas que defendia”, diz a denúncia.

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