Descrição de chapéu música

Artistas nacionais disputam atenção de modernos no megafestival SXSW

Para Filipe Catto, o importante é escolher bem o repertório e causar impacto no espaço que tiver

Cantor gaúcho Filipe Catto se apresenta em Austin, nos Estados Unidos, em show durante o festival South by Southwest - Daguito Rodrigues/Divulgação

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Silas Martí
Austin (Texas)

Num palco montado no gramado ao lado de um hotel, o sol se pondo atrás dele, Filipe Catto cantava para algumas dezenas de fãs e hipsters mais ecléticos. Queriam ouvir aquele brasileiro de voz cristalina e longos cabelos ondulados, que balançavam no vento daquele entardecer.

Sua primeira aparição oficial no South by Southwest (SXSW), o megafestival de música, cinema e tecnologia que faz Austin, no sul dos Estados Unidos, tremer a cada mês de março, foi curta e poderosa, como ele diz que deveria ser.

"Uma coisa muito impactante, de um tiro só, não tem problema nenhum", ele dizia, descendo do palco depois de cantar por meia hora. "Tem que escolher bem o que vai apresentar e mandar muito bem no espaço que tiver."

Isso porque em cada minuto do festival, que abarrotou a capital do Texas nos últimos dias, um artista disputa a atenção do público com dezenas de outros dos milhares de shows que atraem multidões de modernos à cidade.

É tão grande o receio do público de estar deixando de ouvir o último grito da cena indie em algum canto remoto, bar, praça, tenda ou igreja de Austin que os músicos escalados pelo evento tendem a subir no palco com seus sucessos mais certeiros já afiados na ponta da língua.

Um look chamativo também entra na equação --Catto usou uma calça vermelha e um blazer alaranjado sem camisa por baixo, deixando à vista um peitoral lustroso.

"Essa coisa descentralizada é muito rica e vai ser cada vez mais comum", diz o músico. "A gente pensa que uma coisa muito indie no Brasil está distante do consumo imenso, mas ela tem total condição de circular se a gente olhar para fora da caixa. Essa é a chance de ter contato com artistas na mesma luta."

No fundo, Catto descreve uma rede de nomes de estética singular que floresce às margens do mainstream com plataformas de música sob demanda, trocas entre músicos e festivais menos orientados por gigantes da indústria.

"O mercado independente era visto antes como um bando de pirralhos fazendo qualquer coisa", afirma o músico.

"Mas a gente construiu um mercado consumidor que possibilita fazer shows que não tem nada a ver com o que a mídia dita. É uma vitória imensa da nossa cena independente ter tantos artistas nesse festival."

Outros brasileiros que tocaram por aqui --entre eles Liniker, Papisa e LaBaq-- concordam, vendo o momento como a era em que a cena independente saiu das fraldas.

"Vim na independência total", dizia Rita Oliva, a Papisa, depois de cantar. "Não tenho apoio de empresas, não tenho produção, não tem ninguém comigo. É tudo no esquema de trocas, parcerias."

Sua apresentação num clube fechado, mais classuda e contida, hipnotizou por uns instantes uma plateia pequena com o que chama de um "som alternativo e etéreo" levado com voz bem delicada.

Mas sua timidez não foi um problema. Ela conta que ainda teve contato com executivos de outros selos e conseguiu fechar novos projetos ali, num exemplo do que Konrad Dantas, o Kondzilla, falava outro dia no mesmo festival sobre as mudanças no mercado musical brasileiro.

"O consumo da música mudou, você não precisa mais de uma gravadora para bancar seu disco", dizia o dono do maior canal de música do YouTube no Brasil, visto mais de 14 bilhões de vezes.

No fim do show de Papisa, que cantou sozinha usando um pedal de looping, Larissa Nalini, a LaBaq, outra cantora brasileira que se apresentou no South by Southwest, ajudou a desmontar o palco, pondo em prática o tal esquema de parcerias e trocas descrito pela amiga pouco antes.

LaBaq, considerada pelos críticos um nome em ascensão do mundo indie, pop e folk brasileiro, fez três shows no festival e também viajou sozinha para Austin, sem produtores ou assessores. Suas aparições aqui também parecem ter aberto outras portas.

"Foi incrível, tive uma recepção linda. Senti uma ajuda muito massa", disse a cantora, que faz ainda mais shows em Nashville, a capital da música country, no Tennessee, e depois em Nova York.

"Falei com muitos artistas de outros países que tocariam por aqui antes que eu chegasse. Isso deixou essa minha passagem pelo festival mais sólida, sabe? Todos nós nos ajudamos muito nesses dias."

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