Artistas brasileiros abordam polêmicas recentes em peças na MITsp

Coreógrafo Wagner Schwartz e atriz trans Renata Carvalho estreiam espetáculos no festival

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Maria Luísa Barsanelli
São Paulo

Quando se deparou com “A Boba”, quadro da modernista Anita Malfatti, o coreógrafo Wagner Schwartz se ateve às cores da tela, retrato de uma mulher com referências cubistas e futuristas.

Há uma predominância de verdes e amarelos, como na flâmula brasileira, mas também toques de vermelho. Uma certa contradição com os tempos de hoje, quando “a bandeira tem sido hasteada em lugares em que o vermelho não está presente”, diz Schwartz, lembrando da atual polarização de ideologias políticas.

Um embate que atingiu o campo das artes e a figura do coreógrafo. Em 2017, depois de uma performance sua de “La Bête”, no qual seu corpo nu é manipulado pelo público, ele virou alvo de protestos.

Um vídeo da apresentação, com uma criança tocando a perna e a mão do artista, correu a internet, e Schwartz foi acusado de pedofilia. Recebeu mais de 150 ameaças de morte, respondeu a inquéritos, passou por uma depressão.

“O virtual agiu diretamente no real, então agora a gente precisa responder com o corpo analógico, sair da tela e se conectar. Acho que é só assim que a gente vai conseguir se liberar dos problemas dos outros, do que os outros fizeram pra gente”, afirma ele.

Ao contrário da verborragia das ameaças virtuais, Schwartz faz em seu “A Boba”, que estreia na MITsp - Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, uma resposta silenciosa.

Num palco limpo, entra em cena com uma réplica do quadro. Começa mudando-o de lugar, equilibrando-o, e acelera seus movimentos, gira, balança a tela e vai, ele mesmo, cansando, num processo de esgotamento —como a banalização de discursos de internet.

Também é uma forma de trazer novas perspectivas para a tela de 1916. “Tiro o quadro do museu, coloco ação nele, questiono se a parede é o único fim para um quadro”, diz Schwartz, que embebe seu trabalho de referências às artes plásticas e ao modernismo.

“Estou sempre conectado ao modernismo, que mexeu muito com a sociedade, mas não a um movimento que está no passado, mas a algo de hoje. O manifesto antropófago, para mim, precisa avançar.”

É isso o que faz Renata Carvalho em “Manifesto Transpofágico”, que também estreia na mostra. Atriz travesti, ela pesquisa há dez anos o que chama de transpologia, estudo do corpo transexual e de como ele se insere na sociedade.

“É um entendimento da corporeidade, da exclusão desse corpo. Existe uma construção social muito forte. Quem é atacada não é a Renata, é a travesti”, diz ela, que iniciou a pesquisa a partir de sua vivência.

Por ser transexual, foi expulsa de casa e precisou se prostituir por dois anos. Delongou-se em trabalhos informais e só conseguiu amplo reconhecimento como atriz com “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu” (2016).

Mas a peça também foi alvo de censura. Teve sessões vetadas pela Justiça sob alegações de desrespeitar religiões e a atriz foi alvo de ataques virtuais dilacerantes, segundo ela.

Em seu “Manifesto”, apenas seu corpo surge iluminado. “Além de poucos olharem para o meu rosto, ele não será tão necessário.” Com sua transpofagia, digere padrões sociais e “cospe-os em forma de grito”.

“Temos que naturalizar esses corpos. De verdade, o que queremos é parar de morrer.”

De sobrevivência e convivência também fala “Altamira 2042”, estreia da atriz Gabriela Carneiro da Cunha na MITsp.

Em sua pesquisa de escuta de rios brasileiros, passou três anos viajando a Altamira (PA) para ver como a região ribeirinha do rio Xingu era afetada pela usina de Belo Monte.

Nas conversas com moradores, percebeu como usavam uma linguagem de ficção científica para expressar o modo como eram afetados.

Assim, a atriz coloca em cena não apenas relatos de pessoas, mas também sons da natureza e de animais. Munida de caixas de som (referência aos alto-falantes disseminados pelas ruas do Pará), ela traz sons e imagens do local, enquanto cria uma coreografia.

“É um monólogo em que todo mundo fala menos eu. Não se trata de dar voz. Todos têm voz e estão gritando. Quem não tem escutado somos nós.”

A Boba

Avaliação:
  • Quando: Dom. (17 e 24), às 20h, seg. (18) e ter. (19) e sex. (22) e sáb. (23), às 21h.
  • Onde: Teatro Cacilda Becker, r. Tito, 295.
  • Preço: Ingr.: R$ 40.
  • Classificação: Livre

Manifesto Transpofágico

Avaliação:
  • Quando: Qua. (20), às 20h, qui. (21) e sex. (22), às 18h e às 20h
  • Onde: Biblioteca Mário de Andrade, r. da Consolação, 94
  • Preço: Grátis
  • Classificação: 18 anos

Altamira 2042

Avaliação:
  • Quando: Ter. (19), às 15h e às 20h, qua. (20), às 17h, qui. (21), às 15h e 20h
  • Onde: Centro de Referência da Dança, na galeria Formosa, baixos do viaduto do Chá
  • Preço: Grátis
  • Classificação: 16 anos

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