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Projeção de filmes mudos em prédio vira atração em Salvador sob pandemia

Cine Janela, projeto caseiro de grupo de produtores culturais, já exibiu três clássicos de Chaplin

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André Uzêda
Salvador

O tédio foi quebrado pela imagem de um relógio num prédio. Enquanto o ponteiro gira, a legenda desvenda o mistério luminoso. É a primeira cena de “Tempos Modernos”, de Charles Chaplin.

No último dia 22 de março, primeiro domingo após o decreto da Prefeitura de Salvador ordenando o fechamento de teatros e cinemas por causa da pandemia do novo coronavírus, um grupo de amigos do boêmio bairro Dois de Julho começou a projetar filmes num prédio da vizinhança. A iniciativa partiu dos produtores culturais Chicco Assis, Cíntia Maria e Jamile Coelho.

“Percebemos que as janelas eram uma conexão entre nós e a vizinhança”, diz Assis, dono do quarto que se transformou em cabine de projeção.

Um facho de luz parte da janela do seu dormitório, pontualmente às 19h, até se espalhar numa empena do edifício Maria Helena, de 13 andares.

Forma-se ali a improvisada tela de uma sessão de cinema gratuita. A primeira obra escolhida foi o clássico de Chaplin, de 1936. “É cinema mudo. Se houvesse som, além de incomodar os vizinhos, estaríamos infringindo um decreto municipal”, diz Coelho.

Este outro decreto do prefeito foi publicado no dia 23. Restaurantes, bares e lojas de rua, à exceção daqueles lugares com menos de 200 metros quadrados, foram obrigados a fechar. E atividades sonoras, em carros de som e serviços particulares, impedidas.

Depois da primeira sessão, com a aprovação do público, o projeto ganhou o nome de Cine Janela. Veio também um perfil no Instagram, e as sessões passaram a ser diárias.

Os custos com energia elétrica passaram a ser divididos entre os idealizadores. Numa das sessões, cinco curtas-metragens, todos mudos, foram exibidos —como “Hair Love”, que venceu neste ano o Oscar em sua categoria.

Chaplin, preferido do público, voltou em duas novas versões. “O Vagabundo” (que traz a primeira aparição do personagem Carlitos, em 1915) e “O Grande Ditador”, de 1940, uma sátira à figura de Adolf Hitler.

O filme marca a primeira cena falada de Chaplin no cinema. É o discurso final do ditador contra a guerra e em favor da liberdade e da democracia. Para não perder a potência da cena, os idealizadores do projeto transmitiram a fala do personagem simultaneamente à exibição, com legendas, pelo perfil no Instagram.

Para evitar problemas com direitos autorais, o grupo diz optar por filmes que estejam em plataformas livres na internet. “Muitos outros cineastas têm apoiado a iniciativa liberando suas obras”, diz Maria.

Pouco antes de iniciarem os filmes da noite, o trio projeta recomendações de prevenção ao contágio da Covid-19. Recentemente, uma rede de ajuda foi formada para incrementar as exibições. Eles ganharam um projetor mais potente cedido pela Fundação Gregório de Mattos, órgão municipal de cultura. Enquanto isso, o Instituto Goethe emprestou equipamento a um coletivo do bairro do Politeama.

“Além desses parceiros em Salvador, estamos formando janelas exibidoras em outros estados. Já estamos com exibições em São Paulo, no bairro de Santa Cecília, em parceria com o Cine Minhocão”, diz Assis.

Entre os vizinhos, o Cine Janela se transformou em hábito. “Quando dá 19h, eu e minha mãe pegamos as cadeiras e vamos para a varanda. É nosso momento de distração. Meu pai, que nem gosta muito de cinema, já avisa a gente quando as primeiras imagens começam a aparecer”, diz Mariana Giulias, 33, recepcionista de uma academia fechada.

“Eu moro só e, no confinamento, tenho ficado ainda mais sozinho. O momento do filme é de interação, de contato social neste momento”, diz Clevesson Fraga, de 29 anos.

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