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Entenda por que museus, teatros e cinemas estão no fim da fila da reabertura

Empresários paulistanos do setor cultural criticam decisão de manter fechamento após liberação do governo estadual

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São Paulo

Academias, shoppings, salões de beleza, bares, restaurantes. A lista de espaços autorizados a reabrir em São Paulo já é longa, mas ainda não inclui atividades do setor cultural. Seriam elas mais perigosas? A pergunta está no centro de um imbróglio entre a prefeitura, o governo estadual, especialistas em saúde e empresários do setor.

A gestão do governador João Doria até tinha ensaiado uma data para a retomada da cultura, no final de julho. A condição era que a capital permanecesse por quatro semanas na atual fase do Plano São Paulo, a amarela.

Mas a prefeitura decidiu não acatar a recomendação, determinando que museus, cinemas, teatros e espaços do tipo só poderão voltar a receber público no próximo e penúltimo estágio de reabertura, a fase verde. O prefeito Bruno Covas espera que isso possa acontecer no fim de setembro ou no começo de outubro, prazo que desagrada especialmente empresários da área de cinema.

Sala de cinema do Cinesystem, no Morumbi Town Shopping - Adriano Vizoni/Folhapress

O secretário municipal de Cultura, Hugo Possolo, afirma que a prefeitura só seguiu as orientações da Vigilância Sanitária paulistana. “É sabido que os grandes eventos são a marca da cidade, e a retomada poderia precipitar a tentativa de os realizar”, justifica, acrescentando que instituições e produtores já podem encaminhar para o órgão seus protocolos para avaliação, de modo a agilizar a reabertura.

Sérgio Sá Leitão, à frente da pasta estadual de Cultura, esclarece que as prefeituras têm a prerrogativa de seguir ou não as recomendações do estado. No entanto, continua, reabrir espaços culturais já na fase amarela foi uma medida estudada e discutida por médicos e especialistas em saúde do centro de contingência contra o coronavírus do estado.

Além disso, cidades da França, da Espanha e do Reino Unido permitiram a volta dessas atividades em etapas de retomada equivalentes àquela de São Paulo agora, segundo Sá Leitão. “Entre os 32 países que estudamos, não há nenhum caso em que museus, galerias, centros culturais, teatros e cinemas tenham sido autorizados a reabrir após shoppings, academias, salões de beleza e estádios de futebol”, diz.

A decisão da prefeitura desagradou em especial os exibidores de cinema. Muito além da discussão sobre se ainda é cedo para pôr mais gente nas ruas, o descompasso tem suas origens no que é visto pelo empresariado como um tratamento desvantajoso à cultura.

Representantes do meio cinematográfico alegam que a prefeitura não disponibilizou qualquer estudo que aponte que as salas de cinema são mais perigosas e que facilitem a contaminação pelo coronavírus.

“A única resposta que tivemos foi uma declaração do prefeito dizendo que é melhor esperar a fase verde. Respeito o prefeito e já trabalhei com ele, mas precisamos de uma justificativa concreta”, diz André Sturm, proprietário do cinema Petra Belas Artes e ex-secretário de Cultura da capital.

“Nosso argumento é que os cinemas, ao respeitarem os protocolos, são menos arriscados ou, na pior das hipóteses, tão arriscados quanto outros endereços que foram reabertos”, faz coro Ricardo Difini, presidente da Federação Nacional das Empresas Exibidoras Cinematográficas, a Feneec.

Segundo Marcio Sommer Bittencourt, médico do Centro de Pesquisa Clínica e Epidemiológica do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo, o risco de contágio em espaços culturais é o mesmo de qualquer outro ambiente com as mesmas características arquitetônicas.

Ele afirma que os três fatores básicos para identificar o risco de contágio de um local são a quantidade de pessoas, a proximidade entre elas e a circulação ou não de ar. Quanto mais fechado e aglomerado, maior o perigo de contaminação.

O problema, diz Bittencourt, é que espaços físicos de aparelhos culturais, em geral, são projetados para um grande volume de pessoas em ambiente fechado, e São Paulo ainda registra níveis de transmissão comunitária intensa. "Podemos considerar alguma coisa de atividade cultural que consiga acontecer preenchendo todos os quesitos –se fossem ambientes abertos, com distanciamento e com quantidade de pessoas controlada."

Além disso, afirma Leonardo Weissmann, infectologista e consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia, mesmo um público menor no espaço não é garantia de redução do contágio. Pôr pessoas em áreas fechadas, para o especialista, ainda é precoce no estágio atual da pandemia —e isso se estende, segundo ele, a todos os setores, não só o cultural.

Ao mesmo tempo, museus, teatros e cinemas têm sofrido tanto quanto as demais áreas com o fechamento imposto pela pandemia. Difini, da Feneec, afirma que o parque exibidor nacional é formado em grande parte por pequenos e médios empresários, que talvez não consigam manter seus negócios se continuarem parados.

É por isso que, em São Paulo e no Rio de Janeiro, estados que concentram o maior número de salas do país, exibidores planejavam uma reabertura para o dia 3 de setembro —algo que, com as últimas declarações de Covas, não deve acontecer na capital paulista. No Rio, também, há um impasse entre o que recomenda o governo estadual e o que foi determinado pela prefeitura carioca, que deve manter as portas desses estabelecimentos fechadas por mais tempo.

Enquanto os cinemas parecem buscar uma retomada forçada, outras áreas da cultura de São Paulo aguardam com mais cautela um aval da prefeitura.

Os museus paulistanos, por exemplo, estão tecnicamente preparados para receber o público, uma vez que têm espaços altamente controláveis e obedecem a normas aplicadas mundo afora. Mas quem deve estabelecer o momento seguro para isso são as autoridades sanitárias, avalia Marília Bona, que integra a diretoria brasileira do Icom, o Conselho Internacional de Museus.

Já vários teatros afirmam que suas plateias só devem voltar a ser ocupadas no ano que vem. Essa é inclusive a recomendação da APTI, a Associação de Produtores Teatrais Independentes, dadas as dificuldades para cumprir os protocolos sanitários e de proteger a saúde dos profissionais envolvidos nas montagens. Isso sem falar nos prejuízos de cancelar uma temporada inteira caso alguém da equipe acabe contraindo a Covid-19.

Mesmo algumas casas de espetáculos que pretendem reabrir as portas assim que autorizadas dizem preferir esperar um tempo para sentir o comportamento do público. É o caso do Alfa, lar de superproduções como musicais e balés na zona sul que contratou uma consultoria especializada para desenvolver e implementar medidas de proteção contra a Covid-19.

Gerente do teatro, Fernando Guimarães afirma que entre o treinamento de funcionários e a abertura para o público haverá ao menos um mês. Também a programação será muito mais limitada. Voltar com “Charlie e a Fantástica Fábrica de Chocolate”, espetáculo que deveria ter estreado no início da pandemia e que reúne mais de cem atores no palco, é impensável.

Outras casas apostam em espetáculos virtuais para os seus calendários até o fim do ano. O Teatro Porto Seguro, no centro, exibirá uma série de espetáculos por streaming, centrados na interatividade com o espectador. O Itaú Cultural, que delineia protocolos para a retomada junto a instituições vizinhas na avenida Paulista, entre eles o Masp e o Instituto Moreira Salles, planeja transmitir peças ao vivo do seu palco.

Diretor do Itaú Cultural, Eduardo Saron ressalta a importância de entender as especificidades de cada uma dessas áreas artísticas —lá, por exemplo, exposições serão as primeiras a reabrir. São essas facetas, ele argumenta, que tornam difícil a comparação com outros setores da economia, já reabertos.

“Para mim são dinâmicas diferentes. No meu entendimento, a complexidade do mundo da arte é muito maior do que o de uma academia, de um shopping center”, diz Sarón.

Seja como for, Sá Leitão afirma que, quanto antes o processo para a retomada for iniciado, melhor. Afinal, implementar protocolos e treinar equipes é complexo e vai demorar até que o público ganhe confiança nessas medidas. “O consumo será necessariamente lento e gradual”, diz o secretário, “mas ele precisa começar”.

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