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Descrição de chapéu The New York Times

Estátua de Medusa pelada e sexy é abraçada e atacada pelo MeToo em Nova York

Autor da obra, que está instalada em frente ao tribunal que julgou Harvey Weinstein, é criticado por ser homem

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Julia Jacobs
The New York Times

Quando o artista Luciano Garbati fez sua escultura de Medusa segurando a cabeça decepada de Perseu —uma inversão do antigo mito— não era o feminismo que ele tinha em mente.

E Garbati tampouco estava pensando sobre o MeToo. Ele criou a peça em 2008, quase uma década antes que o movimento ganhasse divulgação mais ampla.

'Medusa with the Head of Perseus', obra do artista argentino Luciano Garbati - Jeenah Moon/The New York Times

Garbati, um artista argentino com raízes italianas, foi inspirado por uma escultura em bronze do século 16, “Perseu com a Cabeça de Medusa”, de Benvenuto Cellini. Naquele trabalho, Perseu, nu, segura a cabeça de Medusa por sua cabeleira de cobras. Garbati concebeu uma escultura que invertesse aquela narrativa, imaginando a história da perspectiva de Medusa e revelando a mulher por trás do monstro.

Nesta semana, a escultura de Garbati —“Medusa com a Cabeça de Perseu”— passou a ser reimaginada como um símbolo de triunfo para as vítimas de agressões sexuais, ao ser desvelada na parte sul de Manhattan, na calçada oposta ao tribunal criminal da rua Centre.

Um boletim de imprensa anunciava a estátua como “um ícone de justiça”, apontando que a imensa Medusa, com mais de dois metros de altura, estava posicionada diante do edifício em que homens acusados de agressões sexuais durante o movimento MeToo foram a julgamento, entre os quais Harvey Weinstein, condenado naquele tribunal em dois processos criminais por crimes sexuais, em fevereiro. (A ideia de instalar a estátua no lugar veio antes do julgamento, mas o sentimento permanece.)

Posicionada no centro do parque Collect Pond, a estátua de Medusa —com um olhar intenso, os olhos voltados para baixo— segura uma espada na mão esquerda e a cabeça de Perseu na direita. A cabeça decepada foi baseada na do escultor —um modelo conveniente.

​Em sua inscrição no programa "Art in the Parks", que revisa propostas para obras de arte em instalações públicas como a da estátua, Garbati apontou para o fato de que Medusa foi estuprada por Poseidon no templo de Atena, de acordo com o mito. Como punição, Atena volta seu rancor contra Medusa e transforma seus cabelos em serpentes. A inscrição afirmava que a história “comunicou às mulheres por milênios que, caso fossem estupradas, a culpa seria delas”.

Nesta terça, quando a estátua foi desvelada no parque, onde permanecerá até o final de abril do ano que vem, Garbati falou sobre as muitas mulheres que tinham falado com ele sobre a escultura. Muitas viam a imagem como catártica, segundo ele.

Mas, para algumas pessoas que comentaram o assunto nas redes sociais, a escultura não é apropriada para o momento. Quando a notícia sobre a instalação da escultura no parque começou a circular, ativistas e observadores contestaram que uma obra de arte que supostamente celebrava o movimento MeToo —movido em grande parte por mulheres e pela revelação de histórias pessoais— tivesse sido criada por um homem.

Outros imaginaram por que, se a escultura pretendia falar de violência sexual, Medusa carregava a cabeça de Perseu e não a de Poseidon, aquele que a estuprou. E houve quem questionasse o fato de que Medusa foi retratada como uma figura esbelta, um nu clássico, quando ela é descrita como um monstro.

Garbati disse em entrevista que, a esta altura, a escultura havia se tornado em alguma medida independente dele, adquirido vida própria criada pelas observações e interpretações alheias.

“Eu diria que estou honrado pelo fato de que a escultura tenha sido escolhida como símbolo”, disse ele. O escultor afirmou que o projeto todo o havia ajudado a perceber que ele mesmo era “produto de uma sociedade patriarcal”.

Com relação à precisão mitológica, Garbati disse que sua obra era uma resposta direta à escultura de Cellini, que retrata a história de Perseu, que matou a Medusa e usou sua cabeça decepada como arma, explorando seu poder de transformar pessoas em pedra com um olhar.

Já sobre a figura sensual da Medusa, Garbati sugere que os críticos considerem a literatura de uma exposição recente no Metropolitan Museum of Art, em Nova York, que relata como as expressões artísticas da Medusa avançaram do bestial ao belo, a partir do século 5º a.C.

Bek Andersen, fotógrafa que trabalhou com Garbati para instalar a escultura na região sul de Manhattan, não se incomoda com o gênero do artista.

“Para mim, é empolgante que o artista seja homem”, ela disse em entrevista. “Acho que os homens se sentem excluídos do diálogo sobre o MeToo, e acho que eles têm medo do que esse diálogo significa para eles”.

Em 2018, uma década depois da criação da escultura original em resina, imagens do trabalho de Garbati começaram a circular online. Elas se tornaram memes depois que ele postou fotos da escultura no Facebook e foram usadas como um símbolo da ira feminina quando o movimento MeToo dominava as notícias.

O envolvimento de Andersen surgiu mais ou menos nesse período. Ela estava em casa olhando imagens no Instagram e viu uma foto da estátua que a fascinou de imediato, particularmente por causa de seu interesse em personagens mitológicos e no conceito de “inverter a narrativa”.

A escultura de Garbati foi exposta numa galeria “pop-up” montada em uma loja vazia da Bowery, uma avenida também no sul de Manhattan, em 2018. Com ajuda de um doador anônimo, Andersen e Garbati fundaram o projeto "Medusa with the Head" e começaram a produzir réplicas da estátua com 30 centímetros de altura, vendidas a US$ 70 (equivalente a R$ 390) —10% do faturamento é doado ao National Women’s Law Center.

Neste final de semana, mesmo depois de terem surgido críticas à nova estátua no Twitter, as miniaturas à venda no site se esgotaram, segundo Andersen.

“Desestabilizar a narrativa usualmente feita sob uma lente patriarcal é o verdadeiro poder da obra”, afirmou ele. “Isso faz com que as pessoas parem para pensar.”

Tradução de Paulo Migliacci

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