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Como Aline Bei virou autora best-seller vendendo seus livros no Instagram

Depois do sucesso de 'O Peso do Pássaro Morto', escritora lança novo romance por maior editora do país

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São Paulo

O primeiro livro de Aline Bei, “O Peso do Pássaro Morto”, saiu com tiragem modesta de mil exemplares pela Nós, uma editora independente com costume de apostar em autores estreantes. Quatro anos depois, já está na 17ª reimpressão, com quase 32 mil exemplares vendidos, e tem publicação garantida na França.

Foi a obra de maior sucesso da editora. E chamou a atenção da Companhia das Letras, maior grupo editorial do país, que assinou contrato para lançar seu segundo livro, “Pequena Coreografia do Adeus", que chega agora às livrarias.

É quase impossível pôr o dedo nas circunstâncias que transformam uma estreia num best-seller —em especial quando não há a máquina de uma grande editora por trás—, mas, no caso de Bei, dá para creditar a uma certa tática de guerrilha.

Na ânsia de ser lida, a escritora de 33 anos abusou das redes sociais para divulgar o livro. “Por exemplo, se você leu o livro e faz uma resenha despretensiosa no seu Instagram, eu olho as pessoas que curtiram a postagem e mando mensagem para elas. São leitores em potencial, né? O público se expande do próprio público, e aí você vai criando uma rede de leitores.”

“Quando você está numa editora independente, tem que colocar seu livro debaixo do braço e bater nas portas mesmo”, afirma. “O livro não caminha tão só, precisa de você.”

Em julho de 2019, este repórter —que ainda não integrava a equipe da Ilustrada— recebeu um desses contatos da autora. “Eu lancei recentemente meu primeiro trabalho literário”, escrevia pela mensagem direta do Instagram. “Tô passando só pra avisar que estou vendendo o livro, se te interessar saber mais sobre isso, me diga, tá?”

Ao usar a expressão "trabalho literário", Bei evita rotular uma obra que caminha num gênero híbrido.

A narrativa de "Pequena Coreografia do Adeus" se constrói em versos e se expande numa diagramação solta pelas páginas, mas conta uma história linear —a de Júlia Terra, garota que sofre com os arroubos de violência da mãe e com a falta do pai, que sai de casa num divórcio nada amigável.

“O que me deixa triste é que meu pai me abandona muito”, escreve a menina em seu diário. “A minha mãe ele abandonou de uma vez, mas comigo é pior, ele fica me abandonando devagar.”

Aline Bei foi precursora de uma dicção muito contemporânea da autoria feminina, diz Simone Paulino, editora que a revelou na Nós, e com isso conseguiu fisgar uma geração de leitoras na casa dos 20 a 30 anos. “Essa prosa poética, com uma pontuação diferenciada, é uma sintaxe que se aproxima muito do que os jovens têm buscado na literatura.”

“Num primeiro momento eu fiquei triste de não conseguir entrar em nenhum gênero”, lembra Bei, que tem formação em letras e em artes cênicas. “Então senti que essa limitação podia ser a minha potência. Comecei a investigar as possibilidades dessa literatura silenciosa, fragmentada, em que a poesia invade a prosa. Deixo que ela respire na página.”

Paulino relaciona o sucesso de “O Peso do Pássaro Morto” também a uma abertura no debate sobre a representatividade feminina, que estava em voga na edição da Flip em que o livro fez um pré-lançamento, em 2017. “É claro que a Aline tem talento, mas foi uma semente jogada num campo muito fértil.”

A estratégia singular de vendas da autora —“ela criou na unha o seu próprio algoritmo”, brinca Paulino— fez com que durante muito tempo Bei fosse responsável por comercializar mais exemplares que a própria editora.

O ponto de virada foi quando ela ganhou o prêmio São Paulo de literatura, em 2018, o que levou a um salto na demanda. A Amazon, que a Nós adotara como parceira comercial havia pouco tempo, passou a encomendar quantidades cada vez maiores de exemplares —e a dar descontos que concorriam diretamente com a venda na mão da autora.

Com a estrutura da Companhia das Letras, o trabalho de divulgação de Bei tende a ficar menos árduo. Basta saber que a tiragem inicial, de 5.000 cópias, já teve uma reimpressão ordenada antes mesmo de “Pequena Coreografia do Adeus” se acomodar nas lojas.

Não há indícios, entretanto, de que isso aquiete a autora. “Talvez nem tantas pessoas levem isso tão a sério como eu, porque tenho uma personalidade bem comprometida, obsessiva. Mas acho que quando você lança um livro, se ficar passivo, se não colocar energia, não vai ter retorno.”

Pequena Coreografia do Adeus

Avaliação:
  • Preço: R$ 49,90 (264 págs.); R$ 29,90 (ebook)
  • Autor: Aline Bei
  • Editora: Companhia das Letras

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