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Distantes há sete meses, professores e alunos tentam preservar afeto nas aulas virtuais

Da pré-escola à universidade, os dilemas da educação em tempos de quarentena

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Kátia Chiaradia

Doutora em teoria e história literária pela Unicamp, é pós-doutoranda na Uerj.

[resumo] Pesquisadora reúne depoimentos de professores e alunos, da educação infantil à universitária, a respeito do modelo de aula online iniciado há sete meses, em decorrência da pandemia do novo coronavírus. Em meio a severas desigualdades de renda e escolaridade entre famílias, dificuldades de acesso à internet e impasses na aprendizagem virtual, todos tentam preservar um mínimo de afetividade na interação por meio de computadores e celulares.

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A relação entre professores e alunos é uma das mais romantizadas historicamente. Remontando a uma época em que apenas figuras da igreja ensinavam, muitos, até hoje, associam a profissão a fé, devoção e doação.

Isso, no Brasil, se reflete também na desvalorização de salários (o piso da categoria não chega a R$ 3 mil) e nas estatísticas de esgotamentos na profissão (professor está atrás apenas de policiais).

A pandemia de Covid-19, inicialmente, e agora o dilemático retorno das escolas ao trabalho presencial trazem à tona histórias e mais histórias de professores e seus esforços em aulas remotas. Em maio de 2020, uma pesquisa do Instituto Península apurou que 76% dos professores entrevistados precisaram mudar muito ou totalmente sua rotina.

Nesta semana, em que celebramos o Dia das Crianças e, nesta quinta (15), o Dia dos Professores, completaremos sete meses de escolas fechadas.

Como anda a relação entre professores e alunos pelo país? A afetividade, afinal, é mesmo tão importante para o processo de ensino e aprendizagem a ponto de se reinventar num contexto remoto?

“Não tenho dúvida disso: não há aprendizagem sem afeto. O cognitivo de um aluno está envolvido em uma camada de afetividade, como um embrulho de presente. O papel da escola e dos professores é favorecer a aprendizagem de crianças e jovens, e isso só é possível quando acessamos a emoção”, diz a professora Maria Inês Fini, ex-presidente do Inep e cofundadora da Faculdade de Educação da Unicamp.

Fini, que é uma educadora de educadores, em 2020 trocou auditórios lotados por lives, para poder continuar dando escuta a professores. “Não há grupo mais dedicado”, diz.

Roberta Francini, professora de uma turma de 4º ano da zona rural de Piracicaba (SP), comprova as hipóteses de Fini.

Afetividade para mim é ter respeito pelo contexto de cada aluno e de cada família que se esforçam para as aulas darem certo”, diz ela, mostrando fotos de crianças estudando na cama, no chão, em caixotes, com o caderno no colo. “No início, eles diziam ‘Prô, eu não sei fazer a lição, não consigo’, e hoje me mandam fotos mostrando que estão se esforçando”, orgulha-se.

“Inicialmente, a secretaria nos instruiu a manter contato com as famílias nos horários das aulas, das 7h ao meio-dia, mas como vou falar com todos os meus alunos se, em algumas casas, existe apenas um celular, que fica com a mãe que trabalha fora? Elas me procuram à noite e aos domingos para entender as lições. É quando podem.”

Roberta mostra mais uma foto, dessa vez de uma criança estudando em uma pequena mesa: “Uma mãe me enviou, ela se esforçou muito para comprar essa mesinha. Outra, que não tinha nem 3G em casa, ao ver o esforço do filho se desdobrou para ter wifi”, diz.

Mesmo com o empenho de Roberta e de sua diretora em manter contato com as famílias —seja das 7h às 12h, seja à noite, seja aos domingos—, ela ainda não consegue ter notícias de todos os seus 19 alunos. “Celular é um objeto de luxo, mesmo quando é simples. Não é algo que todas as famílias manuseiem diariamente. Algumas o ligam a cada 2 meses, então eu fico semanas sem acompanhar a aprendizagem de algumas crianças.”

Quando questiono se, ainda assim, é possível manter o laço de afeto, Roberta explica que a afetividade foi a primeira característica que notou nas crianças quando começou a dar aulas na zona rural. “Elas fazem questão de dizer como estão felizes de me ver, como estão gratas pelas lições. Principalmente no início do distanciamento, para elas não sentirem tantas saudades, eu enviava áudios contando histórias, e algumas mães diziam que seus filhos ouviam, muito emotivos, na hora de dormir, às vezes mais de uma vez. Nunca faltou afeto.”

Gravar áudios também foi a estratégia de Roberta com as famílias de pouca ou nenhuma escolaridade, que não compreendiam os enunciados escritos das propostas de atividades enviadas. “A aprendizagem tem que fazer sentido para todos, inclusive quem está mediando. São famílias muito distintas, então minha saída foi criar quatro propostas diferentes de cada uma das três atividades semanais, para poder alcançar mais. Acessar novos conhecimentos também tem a ver com quanto de acesso a conhecimento tivemos no passado.”

Christian do Prado, 8, não conhece Roberta, mas a reconhece em sua professora. “Eu acho que ela deve estar trabalhando muito, porque ela escreve recados para a gente, na lição, à noite e até no domingo. Quem manda nas escolas tinha que deixar os professores descansar, sem live e sem atividade, no Dia dos Professores e em mais 6 dias, porque acho que estão cansados”, diz ele.

E lamenta: “As tias fizeram uma surpresa de dia das crianças para a gente, mas por causa do coronavírus a gente não vai poder fazer uma surpresa na lousa para elas”. Christian é a única criança em idade escolar de uma família de sete adultos, todos com renda, que se organizaram para providenciar um computador com câmera, uma escrivaninha e uma boa conexão de wifi. Além disso, todos estão disponíveis para apoiá-lo nas tarefas, se ele precisar.

Ele não tem as dificuldades dos alunos de Roberta, mas, ainda assim, diz que prefere estar com a professora na escola. “Ao vivo, a tia abraça, aí eu sei que eu fiz as coisas certas, porque ela fica feliz.”

“Eu abraço, eu beijo, eu aperto, eu não canso de olhar pra eles tentando ler tudo que aqueles olhos estão me dizendo. A única coisa legal de ser professora hoje no Brasil é ter aluno. Eu sinto falta até do cheiro dos meus alunos”, transborda em afeto a professora Marcella Abboud, que tem turmas de ensino médio em Limeira (SP), pertinho de São Carlos, onde Christian vive.

Escolhida como paraninfa da turma de formandos, ela diz que chegou a chorar em uma aula em que todos os alunos abriram as câmeras: “De repente eu estava olhando para todos eles e eles para mim.”

Ricardo Gaiotto, professor de graduação e pós-graduação da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), em Florianópolis, também comemora cada câmera aberta. “É horrível para um professor olhar apenas para si mesmo ao falar. É como se não tivéssemos audiência e nossa retórica fosse vazia, quando, na verdade, buscamos o oposto.”

Ele reconhece os esforços dos alunos nessa atitude que parece simples, mas não é. “A câmera também mostra nossa casa, nossa intimidade, nossa origem, e nem todos desejamos isso.”

Quando pergunto sobre afeto e proximidade entre professores e alunos, Gaiotto diz que vê ganhos e perdas nas duas modalidades de aula. “O presencial parece nos aproximar mais, por causa da espontaneidade, mas no virtual parece haver menos inibição, ao menos no ensino superior. Meus alunos escrevem no chat, enviam e-mails sobre suas dificuldades, e eu me sinto mais próximo deles. Por outro lado, ainda somos seres tridimensionais e não estamos treinados para captar emoções pelo vídeo.”

Entre bem-humorado e reflexivo, o professor de literatura brasileira conta que foi “cancelado” pelos alunos no fórum sobre um livro que eles entendiam ser preconceituoso. “Eu me pergunto para onde foi o espaço da provocação na aula, que é algo importante. Em sala debateríamos o assunto; no virtual, podemos ser cancelados a qualquer momento.”

A influência das redes sociais sobre as aulas e, portanto, sobre as relações entre alunos e professores também tem levado à reflexão Gabi Marques, 17, aluna de uma grande escola da capital paulista: “Eu acho que minha geração aprendeu muito cedo, consumindo conteúdo de influencers, a estar em uma tela de forma passiva, apenas ouvindo as informações. É a única explicação que vejo para muitos não abrirem as câmeras nas aulas.” Gabi fará vestibular para psicologia e diz que busca em seus professores todo tipo de apoio.

Isabela Samper e o irmão gêmeo, Felipe, também estão se preparando para o vestibular. Eles estudam em uma escola pública e militar de Brasília. Para Isabela, que se diz muito ligada aos professores em aulas presenciais, a maior dificuldade é não conseguir expressar suas dúvidas no chat. Sua escola optou por aulas ao vivo pelo YouTube, em um canal privado, para que pudessem ficar gravadas e disponíveis. Porém, não há como os alunos interagirem por câmeras com seus professores.

“Com interação direta na aula, meus professores conseguem olhar pra mim e entender o que estou tentando dizer, e isso me ajuda muito. Mas as aulas presenciais estão impossíveis agora e quero que eles fiquem bem e com saúde. Eles estão fazendo tudo que podem, eu sei.”

Os alunos da professora de educação infantil Renata Guimarães, de São Carlos (SP), são bem mais jovens que Isabela, mas os desafios para seu aprendizado são muito próximos. “Senti e sinto muita falta do presencial. Minha turma é de 3 anos, e meu maior medo era que eles me esquecessem, não reconhecessem quem é a professora deles.”

Na educação infantil, o cuidar e o ensinar andam lado a lado; então, segundo ela, a afetividade é necessária. “Percebo que quando enviamos vídeos e áudios, eles ficam bem animados e alegres.” Renata alia os avanços nas aprendizagens à boa relação que procura manter com as famílias. “Elas são mediadoras do aprendizado e tomaram uma parte da função dos professores na situação atual. Eu preciso ser clara com as famílias sobre os objetivos das atividades, explicar a linguagem, pedir registros, porque preciso delas e elas de mim.”

Aylla Ferreira, de Macapá (AP), também entende que, na educação infantil e na especial, sua especialidade, o desenvolvimento das competências e das potencialidades das crianças depende de como professores e famílias se relacionam. “As crianças estão em casa e precisam brincar, imaginar, socializar, por isso é muito importante tentar manter uma rotina junto das famílias para que as crianças sigam aprendendo e brincando. Estamos vivendo dias muito diferentes da nossa rotina habitual, mas não podemos perder a esperança de acreditar em dias melhores.”

O músico Lucas Lima é pai de uma criança no início do ciclo de alfabetização. Para ele, a afetividade entre professores e alunos —e, hoje, entre professores e as famílias de seus alunos— é uma ferramenta atemporal da aprendizagem. “Como pai do Theo, eu tenho visto, talvez até mais de perto do que antes, como essa relação de afetividade com os professores potencializa os talentos dele, as inteligências dele.”

Ele conta que a relação de sua família com os professores de seu filho se estreitou no período da pandemia. “Se já existia uma admiração, ela se multiplicou demais. E eles tiveram que se adaptar a toda essa nova maneira de ensinar, adaptar todo o treinamento de uma vida inteira para lecionar numa plataforma completamente diferente, para a qual ninguém estava preparado, para as crianças continuarem aprendendo.”

E finaliza, algo entre reflexivo e esperançoso: “Por enquanto, tudo isso que vivemos é muito chato, é doloroso, mas talvez, no final, se a gente conseguir não ter tantas consequências negativas desse período, a gente possa olhar para trás e ver que houve ao menos uma herança boa: a aproximação com os professores”.

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Como será o Dia dos Professores neste ano?

"É mais um momento que vamos passar à distância, mas com a certeza do carinho das crianças. É um momento de ressignificar e fortalecer a missão que é ser professor. Nesse período de distanciamento social aprendemos juntos, o caminho não está sendo fácil, às vezes é bastante cansativo, mas ainda é possível encontrar afinidade, delicadeza e encantamento. O abraço virtual será novamente um abraço apertado, cheio de alegria e de saudades.”

Aylla Ferreira, professora de educação infantil

“O dia dos professores será como todos os outros têm sido até agora: fazendo o que a gente escolheu fazer, que é lutar por justiça social a partir da justiça educacional”

Roberta Francini, professora de ensino fundamental

“Meu presente de dia dos professores me foi dado já há alguns meses, por colegas que concordaram em se unir a mim em uma associação que pretende ser um abrigo para professores nesse contexto que intercala remoto e presencial. Simbolicamente no dia 15 ela será lançada. Minha maneira de comemorar é lutando pela educação.”

Maria Inês Fini, professora, especialista em formação de docentes

“Colhendo essas entrevistas e redigindo esse texto, eu fui reavivando em mim o orgulho e a certeza de que, não importa o que cada leitor(a) até aqui tenha escolhido fazer da sua vida, isso só foi possível graças a uma rede de professores que o(a) protegeu e o(a) encorajou, cada qual a seu tempo. Então, nesse Dia dos Professores, ao contrário do que pensa o ministro da educação, eu escolherei ser professora, como venho escolhendo a cada dia da minha vida, desde os meus seis anos. Meu amor eterno a todos os meus professores e alunos, que me ensinaram a me construir e a me reconstruir em busca de ser a pessoa que eu desejo para o mundo. Vivam os professores!”

Kátia Chiaradia, professora

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