Câmaras de comércio celebram Mercosul-UE

Para entidades, pacto facilitará acesso a tecnologia e tornará produtos brasileiros mais competitivos

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Arthur Cagliari Marina Estarque
São Paulo

Câmaras de comércio já enxergam um horizonte positivo para o Brasil com o acordo de livre-comércio entre Mercosul e União Europeia, que foi acertado na sexta-feira (28) em Bruxelas. 

“Estou certo de que vai ter de imediato uma mudança grande, um aumento dos investimentos europeus no Brasil. Empresas que vão vir para o país, produzir, trabalhar e exportar para a Europa, porque vai ficar mais barato”, diz o presidente da Câmara Ítalo-Brasileira de Comércio, Indústria e Agricultura, Nico Rossini. 

Ele acredita que as empresas brasileiras vão poder aumentar as exportações e se tornar mais competitivas, por terem mais acesso a tecnologias importadas. “O Brasil pode deixar de ser só o celeiro do mundo e começar a exportar produto com valor agregado.”

O diretor-executivo da Câmara Oficial Espanhola de Comércio no Brasil, Alejandro Gómez, partilha da empolgação de Rossini. “Isso vai colocar o foco das empresas europeias no Brasil, principal país do Mercosul”, diz. 

Ele ressalta que o acordo ainda deve passar por várias etapas até começar a ser implementado, mas, segundo ele, haverá “uma corrida” de empresas europeias para entrar no mercado brasileiro quando for o momento. 

Como Rossini, Gómez acha que o acordo é uma oportunidade para o Brasil importar tecnologia e exportar produtos com maior valor agregado. 

Em nota, a Amcham (Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos) também comemorou a resolução, embora os americanos não façam parte do pacto. “O acordo ampliará as oportunidades de exportações para bens e serviços brasileiros, bem como permitirá ao Brasil acesso mais competitivo a insumos, tecnologias e bens de consumo.” 

O presidente da Eurocâmaras e também da câmara alemã, Philipp Schiemer, celebrou o pacto.
“Entendemos que esse acordo histórico é um passo fundamental para o aumento da competitividade brasileira no cenário internacional”, disse em carta à chefe de delegação da União Europeia no Brasil, Claudia Gintersdorfer.

Contexto político


Rossini e Gómez têm a avaliação de que o acordo se beneficiou de um momento político específico, entre eleições. “[Foi] numa janela única do calendário eleitoral, após as eleições europeias e antes das eleições da Argentina”, diz Gómez. 

Rossini estava cético, por achar que o tempo para a negociação era muito curto. “Além disso, no início, Jair Bolsonaro e o ministro Paulo Guedes não pareciam muito favoráveis ao Mercosul.” 

Em janeiro, dias antes de embarcar para o Fórum de Davos, Bolsonaro chegou a dizer ser mais favorável a negociações bilaterais do que a engajamentos em grupos multilaterais, como no caso do Mercosul.

Esse posicionamento também foi defendido por Guedes, logo após a vitória de Bolsonaro nas urnas.

À época, o futuro ministro da Economia disse que pretendia rever a política comercial brasileira e que o Mercosul não seria prioridade. O economista criticou o bloco, classificando como ideológico, e disse que as relações comerciais são restritas a países “bolivarianos”.

Rossini afirma que o pacto foi impulsionado por um desejo do governo brasileiro de favorecer o presidente Mauricio Macri, que concorre à reeleição na Argentina. 

Para Gabriel Petrus, diretor-executivo da ICC Brasil (Câmara Internacional de Comércio), o pacto feito pelos blocos também deve contribuir para o processo do país de se tornar membro da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

“Do ponto de vista político não é um problema porque a maior parte dos países europeus já declarou apoio à candidatura brasileira. Mas há uma questão técnica, e o acordo com a União Europeia facilita essas questões, porque o Brasil vai derrubar barreiras [comerciais] e se tornar menos protecionista.”

Embora Petrus enxergue o anúncio do acordo como uma ótima sinalização para o comércio, ele disse que os efeitos práticos do pacto devem vir só em médio prazo. 

“Ainda é preciso definir o cronograma de desgravação tarifária [redução gradual de tarifas], que é uma negociação que ocorre por setor. Há questões de regra de origem, que são mais técnicas. Mas a expectativa é que os detalhes do acordo saiam nos próximos dias.”

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